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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Da cultura dos cancelamentos... fim de caminho.

O denominado “wokismo” (cuja origem etimológica significa “acordar/despertar para”), enquanto princípio/posicionamento defensor das injustiças sociais, nomeadamente as relacionadas com as minorias e contextos discriminatórios, não é de esquerda, nem de direita, nem marcadamente ideológico. É uma questão de valores, de dignidade, de direitos e humanismo.
O seu aproveitamento por posicionamentos políticos extremistas e radicais, em qualquer dos extremos, e a sua reconversão no “politicamente correto”, distorceu a natureza e a génese do ‘wokismo’, resultando num manuseamento de superioridades morais e da propalada “política ou cultura do cancelamento”.
E quando pensamos que este contexto é retórica mediática e distantes, eis que nos bate à porta.

À presente data, não sou nem candidato, nem candidato a candidato a nada, nem a lugar nenhum, nas eleições autárquicas deste ano.
Não é segredo, nem nunca foi desde o princípio, o meu apoio à candidatura, pelo PS, de Alberto Souto à presidência da Câmara Municipal de Aveiro.
Não integro “Comissões de Honra”, não faço parte do Secretariado Político da Campanha, apenas me foi solicitada ajuda e colaboração num contexto específico e particular, interno e não público (mediático). Sem a mínima contrapartida.
Algo que, felizmente, acontece no PS Aveiro ou em qualquer das outras candidaturas anunciadas ou que venham a sê-lo. E ainda bem… é sinal de vitalidade democrática, de liberdade.

Quando há cerca de 20 anos, o então diretor o Diário de Aveiro me convidou para, regularmente, escrever no jornal, a transparência foi total: não houve contrapartidas, não houve constrangimentos ou bloqueios de opinião, nem temáticos, as regras autodeterminei-as. Nunca, nestes 20 anos, o espaço serviu para campanhas eleitorais autárquicas em Aveiro. Independentemente dos momentos em que se refletiu sobre Aveiro, sobre a cidade, sobre Governação Local, de forma clara, sem personificações ou particularidades partidárias.
Aliás, enquanto elemento de equipas de comunicação autárquica, coordenador do gabinete de comunicação ou noutras funções, neste período, desde o Dr. Élio Maia (onde se pode incluir, à data, o meu posicionamento em relação ao movimento urbano ‘Amigos da Avenida’, sobre o Parque da Sustentabilidade ou o projeto inicial para a Avenida Dr. Lourenço Peixinho), até ao Dr. João Campolargo, passando pelo Eng. Fernando Caçoilo e pelo Eng. Ribau Esteves, nunca tive qualquer impedimento, constrangimento ou bloqueio de liberdade de opinião ou expressão, enquanto cidadão livre. Justiça seja feita, a todos.
Da mesma forma que, com ou sem militância, nunca o Debaixo dos Arcos (crónicas) deixou de refletir uma opinião livre, sem amarras, sem o constrangimento do “politicamente correto”, sem qualquer subserviência político-partidária. Isso, honra me seja feita.

Daí que, quando me comunicado, na sexta-feira passada, que o Diário de Aveiro pretendia suspender a minha colaboração (até às eleições de setembro/outubro, diga-se), a minha decisão posterior foi imediata. Não reconhecendo razões ou argumentos válidos (a não ser a legitimidade natural de quem gere e manda no jornal e que convida quem bem quer), muito dificilmente (para não dizer, impossível) regressarei.
Os contextos particulares e os contornos do “cancelamento” ficam com as memórias e com o que a história entender escrever.

Não é o meu apoio ou a singela colaboração com a candidatura de Alberto Souto que me dificultariam ou condicionariam, alguma vez, as minhas convicções ou opiniões. Nunca seria este contexto, como nunca o foi, pressão alguma para que mudasse uma vírgula no que sempre foi o espaço de opinião do Debaixo dos Arcos.
Resta-me o lisonjeio, eventualmente não merecido, desta sobrevalorização mediática, por parte do Diário de Aveiro, das minhas opiniões. Coisa que nunca pretendi alcançar, nem qualquer desejo em me tornar o “Marques Mendes” ou o “Paulo Portas” (de todo e bem longe) ou qualquer influencer da opinião local. Não agradeço, mas resta-me o sentimento de lisonjeio.

As atitudes e as opiniões ficam, naturalmente, com quem as toma. Não vou lamentar, nem justificar. Apenas constatei um contexto, como mero exercício explicativo (no limite do que entendo que deveria explicar).
Como sempre me ensinaram em casa, desde pequenino, os atos, depois de tomados, têm consequências que, por uma questão de dignidade e de honra, devemos sempre assumir. Para o bem e para o mal. Mesmo que isso possa trazer, como já algumas vezes trouxe, dissabores. Mas permite-me deitar-me e levantar-me de consciência tranquila, e caminhar de cabeça erguida. Sem medos, sem vergonhas. É da vida.

O interessante, enquanto cá andamos com “a cabeça entre as orelhas”, é que a vida transporta-nos, em particulares momentos, para meras coincidências bastante curiosas.
Quando há cerca de 20 anos iniciei a colaboração (livre e desinteressada) com o Diário de Aveiro, Alberto Souto tinha terminado o seu segundo mandato autárquico. Volvidos quase 20 anos é, novamente, com Alberto Souto e por Alberto Souto que termina a minha presença no Diário de Aveiro.

É a vidinha a acontecer.
Vemo-nos por aí (e aqui) e por outros espaços que há e “haverão de haver”.
Mas sempre livre…