Da série… as pessoas e o país.
publicado na edição de hoje, 5 de março, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
Da série… as pessoas e o país.
Nas vésperas do trigésimo congresso social-democrata (que decorreu há cerca de uma semana) o líder da bancada parlamentar do PSD, Luís Montenegro, afirmava publicamente (e sem se rir) que "a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor". E nada me surpreenderia que, de forma convicta, a expressão mais correcta fosse, aliás, "a vida das pessoas está claramente pior mas o país está muito melhor". Para o Governo e para “este” PSD é evidente que o país se dissociou das pessoas, até porque o país que governam não é o país real. Ou ainda, é mais que evidente um país que, cada vez mais, tem menos pessoas forçadas à emigração. O país “muito melhor” a que o líder da bancada parlamentar social-democrata se referia, o tal onde as pessoas não contam, está longe de ser um Portugal real. A começar pelo dado positivo do valor das exportações e que tem servido de gáudio político ao vice Primeiro-ministro Paulo Portas e ao ministro da Economia, Pires de Lima. Algo que o próprio FMI veio enregelar na décima avaliação (e ainda falta o relatório final da décima-primeira). Apesar do reconhecido trabalho “sombra” do secretário de Estado do Turismo (Adolfo Mesquita Nunes), a verdade é que a influência do sector do turismo na balança das exportações é algo vulnerável e volátil (em função das conjunturas) já que falta muito para Portugal se tornar estruturalmente turístico. Por outro lado, a incapacidade produtiva (concretamente, industrial) do país conduzirá a um natural aumento das necessidades de importação para fazer face a compromissos de exportação, criando novas dificuldades na recuperação da balança externa. Mas regressando à expressão, "a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor", há algo de verdadeiro no seu conteúdo: a taxa de desemprego estagnou, em janeiro, a descida que se verificou nos últimos dez meses do ano passado (justificada pelo próprio INE em função dos 120 mil portugueses que emigraram em 2013); os cortes salariais e nas reformas, sob a capa de “temporários” para contornar o Tribunal Constitucional, afiguram-se como definitivos; aumenta o custo de vida nos bens essenciais; a dívida pública, em finais de 2013, situou-se nos 129,4% contrariando a “festividade” do cumprimento do défice previsto para aquele ano (ficou abaixo dos 5,5% previsto); perdeu-se, no fundo de uma qualquer “gaveta”, a seriedade da urgência de uma Reforma do Estado; no relatório da décima avaliação do programa de assistência a Comissão Europeia defende uma redução salarial entre os 2,5% e os 5% para combate ao desemprego que é significativamente diferente da realidade dos números estatísticos (lembre-se que em janeiro se registou um aumento do desemprego jovem e do preocupante desemprego de longa duração). Mas a última avaliação da Troika vai mais longe. O risco, a médio prazo, de incumprimento mantém-se; o crescimento continua em risco; há medidas estruturais que são necessárias implementar representando cortes na ordem dos três mil milhões de euros (cortes na saúde, por exemplo); e há, ainda, a preocupação com as medidas eleitoralistas, face aos processos eleitorais que se avizinham (europeias, legislativas). E este risco é tão visível (aliás já patente nalgumas afirmações populistas de Paulo Portas) que o Governo e o PSD entenderam que, ao contrário de Montenegro, há um país com pessoas e que estas, afinal, já contam. Contam para efeitos eleitorais. Muito por força de uma oposição frágil por parte do PS (basta, por exemplo, recordarmos o momento do anúncio oficial do cabeça-de-lista socialista às europeias, Francisco Assis; já para não falar da própria escolha quando a eurodeputado Edite Estrela foi recentemente premiada como umas das melhores eurodeputadas), Pedro Passos Coelho repensou a sua convicção em relação ao “que se lixem as eleições”. Ao recandidatar-se à liderança do PSD e ao autoproclamar-se como candidato à renovação da cadeira da governação do país, as eleições voltam a ser o alvo preferencial de Passos Coelho e as pessoas (votos) voltam a ter relevância. Tanta relevância que, correndo todos os riscos políticos internos, o recém (re)eleito líder social-democrata, foi repescar o polémico Miguel Relvas para a liderança do Conselho Nacional do PSD. Convém não esquecer que Miguel Relvas é o mentor político da recente ascensão de Passos Coelho no PSD (frente a Ferreira Leite e com a vitória sobre Rangel e Aguiar Branco) e na vitória eleitoral de 2011. E é tão forte esta simbiose política que o PS se apressou a recuperar Jorge Coelho para a máquina partidária.
O país, nem por sombras, está muito melhor... as pessoas podem estar (e estão) mais pobres, mas ainda votam. E neste caso, são sempre úteis ao país. Desculpem… aos partidos.
