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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

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Da série... não nos tomem por parvos #07

a falta de moralidade política para exigências e regras demasiado avulsas.

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(crédito da foto: LUSA, in RTP)

Há um ditado popular, bem ao jeito da excelsa sabedoria do povo e do senso comum, que ilustra a realidade e a pressão quotidiana dos dias de hoje: "ou há moralidade... ou comem todos".

Por outro lado, importa, igualmente, referir que cada acto, todo e qualquer acto , que se tenha tem consequências, sejam elas de que natureza forem.
Os comportamentos irresponsáveis - conscientes, inadvertidos ou irreflectidos - que contrariam as normas e orientações em vigor para o combate e mitigação da pandemia COVID-19 são, obviamente, condenáveis e criticáveis.
Mas tal facto não justifica que o Governo e a DGS imputem exclusivas responsabilidades apenas aos cidadãos e aos seus comportamentos. É, no mínimo, uma manifesta desonestidade política e intelectual.

O Governo não pode deixar de assumir a sua quota parte da responsabilidade nos acontecimentos e contextos actuais.

Se no período do Estado de Emergência os condicionalismos e as restrições foram implementadas e assimiladas pelos cidadãos, genericamente, sem grandes dificuldades, já a partir do dia 4 de maio, com a passagem para o Estado de Calamidade a prestação governativa e a gestão da pandemia deixa muito a desejar.
As medidas aplicadas nem sempre foram as mais coerentes e equitativas, as reaberturas deixaram uma sensação de injustiça nos sectores económicos, comerciais e culturais que se mantiveram encerrados face à diferença de tratamentos, e a mudança do paradigma da mensagem, de forma demasiado brusca, do "Fique em Casa" para o "Saia de Casa", por mais que se adicionasse o sentido cívico ou a precaução, transferiu para os cidadãos uma sensação de alívio e de alguma permissividade.
E se os actos têm consequências, as palavras e os exemplos têm, igualmente, impactos significativos na opinião pública e condicionam as acções do colectivo.

Proibir, criticar e condenar determinados comportamentos quando se permitem manifestações (não importa o partido ou a organização sindical... nada disso está em causa) ou quando se concentram 2.000 pessoas num espectáculo, é difícil de compreender e aceitar.
Aliviar medidas e restrições menorizando os seus impactos face aos dados e ao riscos que se previam na evolução da pandemia, tem impactos nos comportamentos e na forma mais leviana e imprudente com que se regressa à normalidade.
Além disso, a incoerência do discurso e da mensagem (já referido AQUI e AQUI), bem como o uso demasiado repetitivo do argumento e da justificação para a evolução estatística da pandemia, tendo por base o "elevado número de testes" (algo que foi, hoje, "arrasado" pela comunidade médica e científica que se reuniu, pela sétima vez, com o Presidente da República, Governo e Partidos com assento Parlamentar) deixam uma falsa sensação de alívio e de desvalorização da dimensão pandémica, da crise e do perigo para a saúde pública.

É, por isso, importante repetir: responsabilizar apenas os cidadãos só porque, afinal, o "milagre português" não está a correr tão bem como se quer transmitir não tem moralidade política, não é politicamente honesto. Quando o "milagre português" foi acontecendo no confinamento, por mais aplausos às janelas e varandas, por maiores elogios aos portugueses, os louros vão para a acção governativa (veja-se, por exemplo, as sondagens). Quando o "milagre português" se esvai, a responsabilidade recai sobre os comportamentos dos cidadãos.
Tão depressa se desconfinou aos trambolhões, sem preparar o futuro ou os impactos de um regresso à normalidade demasiado ansioso, como tão depressa se esfumou a coragem política do Primeiro-ministro que, a 4 de maio, afirmou não ter qualquer problema ou constrangimento em dar um passo atrás. Não só perdeu essa oportunidade, como, "sacudindo a água do capote" e encontrado o "bode expiatório" (as festas ilegais e os irreverentes jovens), avançou mais uns passos (1 de julho, entrada em vigor do Estado de Alerta) mesmo em cima da "tempestade".

E à irresponsabilidade política e governativa importa ainda acrescentar a razão pela qual se ouviu o coro de críticas aquando do anunciado (e dispensado) prémio aos Profissionais de Saúde que, heroicamente, combatem na primeira linha a COVID-19.
Para Médicos, Enfermeiros, Auxiliares de Saúde, Bombeiros, entre outros, teria sido muito mais gratificante que houvesse um maior cuidado na aplicação de medidas, políticas e restrições que aliviassem e minimizassem a pressão que, diariamente, têm sofrido profissionalmente, para além da resposta satisfatória a reivindicações antigas. Isso sim... seria uma merecida "Final" e a respectiva "Taça".