Ao jornalismo exige-se, entre outras coisas da ética e da deontologia, rigor. Mais até, do meu ponto de vista muito pessoal, do que isenção (esta bastante discutível e questionável, embora os princípios e os códigos também a requeiram).
Ler um título de um jornal implica que o mesmo transmita rigor, verdade e factualidade (para além das regras básicas do jornalismo).
O Expresso noticiava há dois dias que os «Funcionários públicos vão ter quatro “aumentos” salariais no próximo ano». Mesmo com o recurso às aspas que, comportam em si e pelo seu uso, uma variável interpretativa, o título não deixa de ser uma falácia, aliás, como acaba por contradizer o próprio corpo da notícia e o próprio lead.
Quem lê o título, mesmo com a presença das aspas (que acabam, pela interpretação da leitura, por serem desvalorizadas), fica logo com a noção de que o acordo à esquerda (PS, BE e PCP) vai premiar os funcionários da administração central e local com aumentos do valor salarial. O que não é, de todo, verdade.
A confusão é estabelecida pelo título e pela forma como a notícia é apresentada porque uma coisa é o aumento da massa salarial (do valor a pagar pelo trabalho, estabelecido nas tabelas salariais) outra coisa é a reposição do valor dos cortes efectuados por força das medidas impostas pelo Programa de Ajustamento.
E esta é que é a verdade: os funcionários públicos não vão ser aumentados. Vão ver, segundo o acordo e no prazo de um ano, reposto o valor que recebiam antes dos cortes aplicados nos seus salários, conforme as tabelas salariais.

