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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Entre um e o outro... venha o eleitor e escolha

um (muito) breve rescaldo dos debates eleitorais

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(créditos da foto: José Sena Goulão / Lusa)

Hoje é o dia "D" dos debates... ou, se quisermos, hoje é dia dO Debate.
Rui Rio e António Costa têm hoje, a partir das 20h30, o frente-a-frente decisivo que pode influenciar o resultado final eleitoral. Não será o único factor de pressão eleitoral, mas, garantidamente, este confronto directo entre os líderes do PSD e do PS pode influenciar eleitores indecisos; conquistar abstencionistas; motivar ou desmotivar eleitorado e militâncias partidárias; marcar a forma como Rui Rio e António Costa possam encarar o arranque oficial da campanha eleitoral; fazer emergir (mesmo que em "standby") oposições internas que aguardam, em cada um dos lados, oportunidades para "ressuscitar" assaltos ao poder, ... . A verdade é que este debate tem todos os ingredientes para prender a atenção e definir posicionamentos políticos. Basta que os dois interlocutores assim o queiram e consigam.

Chegados a este dia, há dois aspectos que merecem particular referência e que não deverão mudar substancialmente.
António Costa sabe, mesmo com a variação das mais recentes sondagens que alargam para 9 pontos a diferença entre PS e PSD, que estas eleições são o maior desafio político desde 2015, pelo contexto económico-social, pela conjuntura, pela factura a pagar pelo fim da geringonça (com claras responsabilidades tripartidas, não é só do BE e PCP), pela pressão do aumento de popularidade de Rui Rio e de intenção de voto no PSD e pela necessidade de alcançar uma maioria que garanta a sustentabilidade governativa (sem depender de terceiros e de negociações) e, porque não, a sua sobrevivência política. Daí que tenham sido duas as referências principais nos debates em que António Costa participou até agora.

Primeiro, reconhecendo o peso crescente de Rui Rio, legitimado pelo 39.º Congresso dos sociais-democratas e pela vitória das eleições internas, e sabendo-se a sua opção política de reposicionar ideologicamente o PSD ao centro, António Costa tentou, sempre que teve essa oportunidade, colar o PSD e Rui Rio à direita, afastá-lo do centro, mesmo com o absurdo de o posicionar junto do Chega. Tantas e tantas vezes, o PSD foi tema de confronto, mesmo sendo figura fisicamente ausente do debate. O que resta saber é se essa estratégia não terá efeitos inversos e dará "palco político" ao seu principal adversário. Para já tem tido alguns momentos particulares, fáceis de "desmontar". O mais recente respeita ao argumento usado por António Costa para justificar um eventual crescimento da economia nacional. Sem entrar na discussão dos números e dos valores, diz o líder socialista que, na sua legislatura 2016-2019, Portugal cresceu 7 vezes mais que nos últimos 15 anos. Ora bem... desses 15 anos, 4 estão circunscritos a um contexto de ajuda externa, com os respectivos constrangimentos, devido, exclusivamente, ao descalabro de uma governação socialista (que corresponde à quase totalidade do restante período indicado por António Costa), liderada por José Sócrates e da qual o próprio António Costa fez parte directa e activa, e que levou o país ao afundamento económico e financeiro total. Além disso, nem há a necessidade de qualquer branqueamento político do período da chamada Troika, sendo um facto que, chegados a 2015, os portugueses estavam libertos das amarras do Ajustamento Externo e com o país numa curva ascendente de recuperação. Tudo o que António Costa herdou e que lhe garantiu condições mínimas de governabilidade (sem a ter conquistado directamente). Nada melhor que uma voz insuspeita e directamente ligada à governação socialista pré-2011 e à entrada da Troika em Portugal: o ex-Ministro das Finanças do PS, à data de 2011, Teixeira dos Santos (Grande Entrevista da RTP: «O Governo de Sócrates falhou na resposta à crise» | «O Governo foi empurrando o problema para a frente» | «Para enfrentar aquela crise, Portugal precisava de uma bazuca internacional como a que existe agora» | e, ainda, «O país ficou mais robusto após a troika» | «Desde 2013 que o país está numa situação de equilíbrio externo» | «Em 2015 ainda não estava corrigida inteiramente a situação do défice, mas as finanças públicas estavam numa trajectória de correcção e melhoria. Foi a primeira vez, desde o século XIX, que isto aconteceu».
Por outro lado, com o querer demarcar-se dos anteriores parceiros de coligação parlamentar e de apoio governativo, António Costa tem insistido numa tecla que poderá ter um efeito contrário no eleitorado, quer socialista (mais à esquerda), quer nos indecisos, quer, principalmente, na transferência de votos do BE e do PCP para o PS (que tanto precisa para tentar conquistar a maioria): a repetida insistência na responsabilização exclusiva do BE e do PCP no fim da geringonça e na actual crise política não é um argumento, politicamente, sério e que facilmente os eleitores percebem e rejeitam. A responsabilidade é, clara e obviamente, tripartida.

Mas Rui Rio chega ao fim deste ciclo de pré-campanha com algum desgaste (manifestado na queda, mesmo que recuperável, para 9 pontos percentuais de diferença para o PS) e com uma afirmação política que se esperava (eu em particular) mais consistente.
Há uma afirmação curiosa (lógica e correcta) de Rui Rio no debate de ontem com João Oliveira, do PCP, que substituiu Jerónimo de Sousa (que foi hoje operado, com sucesso): «Rui Rio gostava de ter no PSD gente tão coerente como tem o PCP de Jerónimo». Ora, Rui Rio sabe muito bem que, na política, a incoerência é uma factura que se pode revelar elevada e com custos eleitorais significativos. Não se pode (ou não se deve... poder ou não é uma óbvia opção) querer ter o melhor (e às vezes o pior) de dois mundos: ou se "pesca" à direita ou se navega, contra todas as tormentas (muitas internas), ao centro.
Sendo certo que Rui Rio mantém a sua convicção de posicionar o PSD - e muito bem - ao centro do espectro político nacional, a verdade é que foram várias as escorregadelas e inconsistências do líder social-democrata, nomeadamente nos debates em que se confrontou com partidos à sua direita, como o CDS e a Iniciativa Liberal.