Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

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Set 19

As questões ambientais, mais do que estarem na moda, são o grande tema da agenda política internacional, desde a ONU (são várias as afirmações e intervenções de António Guterres sobre o ambiente) ao Vaticano (nota para a Carta Encíclica, do Papa Francisco, Laudato Sí, sobre os cuidados com a "casa comum"). E são-no pela sua importância e impactos para a sobrevivência humana, para todos os seres vivos, e para a preservação do planeta, salvaguardando o presente e precavendo o futuro.

Por outro lado, recentemente, entrou também no espaço público a temática da nutrição e da alimentação saudável, apesar da confusão entre o que é "comer saudável" e o que são opções alimentares. Estas últimas mais relacionadas com modas e caprichos sociais do que propriamente com opções alimentares (mesmo que as haja).

Juntar as duas temáticas, embora possam ser relacionadas, traz uma mistura que, passando a linha racional, corre o risco de facilmente se tornar explosiva, pela demagogia, pelo populismo e extremismo, desvalorizando e menorizando a sua importância, o seu papel e o seu impacto.

Mas se ainda se pode entender (mesmo que não se concorde) que estas confusões e misturas surjam no cidadão comum, o mesmo torna-se incompreensível e inaceitável quando em causa está o universo científico e o espaço do saber e do conhecimento por excelência.

Esta semana, a Universidade de Coimbra (UC) decidiu abolir, proibindo a partir de janeiro de 2020, o consumo de carne de vaca nas suas 14 cantinas universitárias.

Que a Universidade de Coimbra (ou qualquer Universidade, ou qualquer entidade pública ou privada, ou qualquer comunidade, ou qualquer cidadão, ou qualquer...) tenha como preocupação o cuidado ambiental e as alterações climática (graves e cada vez mais frequentes) é de louvar. Que a UC queira tentar ser descabornizada (pegada zero de carbono) é um desafio e uma meta louváveis. Que uma instituição de ensino superior, essencial para a promoção da ciência e do saber e para a valorização do conhecimento, embarque em sensacionalismos e extremismos, pondo em causa o racionalismo e, até mesmo, os valores científicos, é de bradar aos céus.

Com a medida anunciada pelo Reitor da mais antiga Universidade do país, Coimbra até poderá ser a primeira (como o Reitor definiu) instituição portuguesa de ensino superior neutra em carbono. Mas também não deixa de ser a primeira universidade a cair no ridículo, no facilitismo de decisões demagogas, num alvo fácil para as críticas (fundamentadas) e para a chacota.
Primeiro, porque o aumento da produção de CO2 tem outros factores e origens muito mais relevantes que a influência bovina (que produz metano há séculos). Por exemplo, os transportes, a indústria, o plástico, a energia, etc.
Segundo, porque a consciencialização do mundo rural para as alterações climáticas é hoje muito elevada, já que elas têm, na agricultura, um impacto muito forte.
Terceiro, porque a produção animal (nomeadamente a criação de bovinos) faz-se, hoje, com elevados cuidados ambientais e uma melhoria considerável nas suas práticas. E não é líquido que a denominação de "alimento mau", substituído por hipotéticos "alimentos bons", traga benefícios no excesso de produção alimentar nacional e mundial. Isto porque, por exemplo, a substituição da carne de vaca pela soja, exigindo um produção extensiva desta
leguminosa provoca, igualmente, conflitos ambientais (como, por exemplo, o excesso de consumo de água).
Quarto, porque a agricultura é o sector que mais fixa carbono, mas contribui também com 10% para as emissões. Destes 10% apenas 2,5% dizem respeito aos ruminantes e destes só 1,5% diz respeito aos bovinos de carne. A descarbonização da sociedade portuguesa não se resolve à custa dos bovinos de carne, nem reside aí a sua maior preocupação (dados Ministério Agricultura, dezembro 2018).
Quinto, porque a decisão não democratiza a opção e liberdade de escolha da dieta alimentar de cada um (seja com carne, peixe, vegetais, fruta, etc.).
Sexto, porque é um ataque e uma afronta à comunidade científica, nomeadamente ao processo de ensino presente no Instituto Politécnico de Coimbra, nomeadamente na sua Escola Superior Agrária.
Sétimo, porque a coesão territorial, a defesa da interioridade e da ruralidade, dos impactos demográficos, devia estar presente nas opções e acções da Universidade de Coimbra. Há, nesta decisão, um claro e óbvio sentimento de superioridade do urbano em relação ao rural.
Oitavo, porque não são conhecidas, nem foram tomadas, medidas mais eficazes para a mitigação ou para a descabornização da Universidade de Coimbra, como, por exemplo, eficácia energética, redução (ou eliminação) do plástico, entre outros.
Nono, porque os alunos que aplaudiram a opção da Reitoria da UC são os mesmos que optam por "dietas sociais", por pseudoambientalismos, mas que não deixam de lado os pópós novos que os papás ofereceram quando terminaram o 12.º ano.
Décimo e por último, porque é muito fácil contrariar o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra. Contrariar e banalizar... basta perguntar que exemplo o mesmo reitor dá na defesa e preservação do ambiente e do planeta. Por ventura, segue o exemplo do autarca de Amesterdão que se desloca para o trabalho de bicicleta? Isto seria, seria o melhor contributo para uma pegada ecológica mais verde na Universidade de Coimbra.

Bastavam 10 "mandamentos" para uma decisão mais ponderada, mais ambientalista, mais racional e científica. No mínimo...

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publicado por mparaujo às 23:17

13 comentários:
Bom dia,
É muito interessante que um tema de importância vital para o planeta (leia-se pessoas, animais,...) seja transformado em afirmações e por vezes em ações tão patéticas quanto as que se verificaram na Universidade de Coimbra. Pela qualidade e antiguidade- foi criada em 1 de Março de 1290, pelo rei D. Dinis I, não se deveria permitir que a Reitoria emitisse tais afirmações de proibição de consumo de carne de vaca.
Melhor seria que a Universidade apontasse quais os equilíbrios que as sociedades deveriam observar para combater as necessidades ilimitadas comparando com os recursos escassos.
Eduardo Ferreira
Eduardo Ferreira a 23 de Setembro de 2019 às 12:05

subscrevo e sublinho
mparaujo a 23 de Setembro de 2019 às 12:11

Melhor fazer algo, mesmo que com laivos de exagero, do que não fazer nada.

Ainda por aí muito negacionista das alterações climáticas...
Makiavel a 22 de Setembro de 2019 às 21:49

Não neguei, nem nego, absolutamente nada em relação às alterações climáticas.
Bem pelo contrário.
Mas a questão não é "não fazer nada". É fazer algo (proibir) que não tem impacto (ou tem impacto muito pequeno) e não agir noutras medidas mais relevantes, como por exemplo o consumo energético e a mobilidade.
mparaujo a 22 de Setembro de 2019 às 22:47

Típico.
O que era bom é aquilo que não se fez e o que se fez não serve para nada.

Se a medida simbólica de abolição de carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra está a dar o “escândalo” que está a dar, imagine medidas de proibição na área da mobilidade.
Makiavel a 23 de Setembro de 2019 às 09:56

Nem quero imaginar...
Mas isso é que seriam medidas com impacto e relevantes.
Difíceis?! Muitooo
Impopulares?! Imensamente...
Mas ir, simplesmente, pelo mais fácil e pelo populismo, para além de servir para muito "poucocinho", tem danos colaterais que ficaram por salvaguardar.
mparaujo a 23 de Setembro de 2019 às 11:06

Quais são mesmo os danos colaterais que ficaram por salvaguardar é que são tão graves?
Melhor pequenos passos que grandes decisões distintivas.
Makiavel a 23 de Setembro de 2019 às 11:57

Os impactos na produção animal e no sector agrícola.
A liberdade de escolha da dieta, sendo que a carne de vaca é mais saudável que a de porco, por exemplo.
Há passos muito mais interessantes e maiores que importa dar com mais urgência para a defesa do ambiente, do que extremismos e populismos fáceis.
A mobilidade, a redução do consumo energético, a utilização excessiva do plástico, boas práticas de reciclagem... etc.... etc...
mparaujo a 23 de Setembro de 2019 às 12:10

Talvez se esteja a referir ao impacto nos importadores de carne bovina da Polónia e Europa Central em geral.

Típico! Critica-se o pouco que se faz e apontam-se outras medidas que, se fossem de mplementqfas, seriam alvo da mesma crítica.

(Parece que a Universidade de Oxford também propôs uma limitação ao consumo de carne de vaca. Não é nenhuma excentricidade da U de Coimbra)
Makiavel a 23 de Setembro de 2019 às 14:58

Típico??!! Não há nada de típico.
Associação de Criadores de Bovinos da Raça Alentejana, raça marinhoa, Arouquense, etc. etc. não me parece que sejam estrangeiras.
Mais, deputados do PS (para tirar daqui qualquer carga política... esse tiro saiu ao lado) criticaram o Reitor.
Mais ainda, é pública a desconcordância em relação ao tema e à medida entre o ministro da agricultura e o ministro do ambiente. Ahhhh... do actual governo socialista.
Limitação é muito, mas muito mesmo, bem diferente de proibição. Muito mesmo.
mparaujo a 23 de Setembro de 2019 às 15:35

A tolice , também polui.Uma ideia peregrina,de um Falcão...peregrino.
Anónimo a 22 de Setembro de 2019 às 15:03

se polui... polui e agride.
mparaujo a 22 de Setembro de 2019 às 22:46

Provavelmente o reitor anda maravilhado com a beleza da armadura cornífera exibida na foto e quer preservar a espécie, mas não precisa, pois há por aí muito corno.
A não ser que tenha em mente trocar a carne de vaca por leitão assado à bairrada.
Herói do Mar a 22 de Setembro de 2019 às 22:49

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