Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

01
Nov 17

ou como ainda acrescenta a sabedoria popular: "quem tem cu tem medo".

A verdade é que desde o início deste processo mais complexo e polémico que envolve a Catalunha não me tem sido fácil tomar uma posição consistente e coerente, mais do que clara até. Mesmo que não me oponha à vontade popular da legitimidade da autodeterminação dos povos e das comunidades.

Há um determinismo histórico e secular na vontade independentista catalã que não é linear compreender.
Há um histórico de incompatibilidade política entre o PP e a Catalunha, com episódios recentemente conhecidos (por exemplo entre 2012 e 2014).
Houve uma deturpação e usurpação da vontade popular que não sustentava por si só a posição assumida pela Generalitat na declaração de independência e em todo o processo dos últimos dias, onde se incluiu a questão surreal do referendo.
Houve uma evidente precipitação e errada avaliação política, para além de uma questionável e criticável acção governativa de Madrid, que, desde o início, fazia antever um reacção mais massiva dos catalães e uma óbvia vitimização da causa. O feitiço virar-se-ia contra o feiticeiro.
O recurso constante e exclusivo à argumentação do ataque à Constituição é fraco e não colhe porque, como é mais que óbvio, qualquer rotura significa um confronto com a normalidade, mesmo que legalista.
Depois veio o descalabro, de parte a parte, de Madrid e Barcelona de gerirem o confronto político e social em que se deixaram envolver, mais pela emoção do que pela razão.
Há ainda muitas história por contar neste processo e que foram deixadas à margem da realidade: a expressão minoritária do referendo; a posição independentista do parlamento sem a presença da oposição; as constantes manifestações expressivas e significativas de catalães que preferem continuar a sua ligação ao Reino.

Ficou igualmente por explicar aos catalães as consequências práticas da decisão da Generalitat de proclamar a independência unilateralmente, sem sustentação significativa popular: a relação com a União Europeia e a capacidade de "sobrevivência" como Estado e Nação à semelhança de uma Suíça ou uma Noruega; a sua própria relação com o resto de Espanha; o facto de serem a região autónoma economicamente mais desenvolvida e rica de Espanha (indústria, turismo, cultura, etc.) tal não significa que num futuro separatista e independentista a realidade continue a mesma; entre outros.

Mas a realidade hoje é que a Catalunha seguiu em frente, lutou (bem ou mal) até ao fim neste processo e, contra todos os receios e algumas previsões, declarou-se Independente do Reino de Espanha, de forma unilateral e face a todas as pressões. Os Catalães (das províncias de Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona) disserem Sí à nova Nação da Catalunha: a República da Catalunya.

Só que o desfecho de perfeita euforia, de festa e de lágrimas de alegria que invadiram as ruas da Catalunha e acompanharam tanto arriar das bandeiras de Espanha deixando hasteadas as próprias Senyeras, rapidamente se transformam em apreensão, sentimento de abandono e isolamento, de incompreensão. Aquele que era o rosto de toda esta luta, de toda a vontade popular independentista, do confronto político directo com Madrid e Mariano Rajoy, tinha fugido para a Bélgica deixando o povo à sua mercê e sem liderança.

De forma completamente incompreensível e, para milhares de catalães, condenável.

As consequências deste processo há muito eram esperadas e, diga-se claramente, publicamente anunciadas e avançadas por Madrid. Na hora em que os catalães que lutam por uma Catalunya lliure mais precisam de um rosto como referência na sua luta é difícil aceitar, desculpar e compreender que o seu líder político, que o seu "comandante", abandone o seu povo e as suas "tropas", só para se salvar a si mesmo e fugir às responsabilidades.
Mas ainda... politicamente é um desastre total. Mesmo que sujeito à justiça e a eventual incriminação judicial (algo que mesmo fora da Catalunha não seria cristalino que fosse isento de críticas ao Governo de Mariano Rajoy) a sua prisão seria relativamente efémera e serviria como martirização e vitimização da causa independentista.

O que resta desta fuga de Carles Puigdemont para a Bélgica é a sensação generalizada dos catalães que tudo foi perdido, tudo foi em vão, que tudo não passou de uma farsa política egocêntrica incompreensível.

puigdemont1.jpg

(créditos da foto: eric vidal / reuters)

publicado por mparaujo às 15:59

3 comentários:

Lembre-se que Madrid é IMPLACÁVEL e DITATORIAL. Puigdemont será condenado à pena máxima - 30 anos - se for apanhado e só não é fuzilado porque isso seria muito mau para Espanha que tem de dar a imagem de Democracia, que na realidade não é. Os herdeiros de Franco fizeram em 1978 uma nova Constituição pseudo democrata para
a Europa ver e agarram-se agora a ela como uma "vaca sagrada" que não pode ser mudada porque tem medo os Castelhanos ... !!! Alguns Ingénuos e Saloios portugueses acreditam em Madrid, pasme-se !!!
Anónimo a 2 de Novembro de 2017 às 13:41

Essa é uma visão perfeitamente surrealista e ideologicamente preconceituosa.
É o mesmo que dizer que PP, PSOE e, pasme-se, até o Podemos (perfeitamente dividido neste processo) são herdeiros de Franco.
mparaujo a 2 de Novembro de 2017 às 14:50

A propósito...
Como manter a coerência, a convicção na causa que se defende, como ser frontal e decidido?
Assim... (seja-se pró ou contra).

http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/nove-ex-membros-da-generalitat-da-catalunha-prestam-depoimento-em-madrid
mparaujo a 2 de Novembro de 2017 às 10:55

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