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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Há quem não queira "Esquecer isto..."

entre outros contextos, mais um desvaneio presidencial. E tende a piorar.

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Comecemos pelos factos, tornados públicos e comprovados por várias organizações internacionais (excluindo a FIFA e o Qatar... vá-se lá perceber porquê) como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch ou a Equidem. A edição de há dois dias da revista Visão, num artigo assinado pela jornalista Sónia Calheiros, espelha uma realidade chocante, indigna e que mancha o desporto, a sociedade, as instituições, os países participantes e as mais insensíveis consciências. Mesmo que as pessoas não sejam (de todo) números, os números, esses, são o que são:

  • 200 mil milhões de dólares gastos com a realização do evento (num país carregado de assimetrias económicas, financeiras e sociais);
  • 3 é o número oficial, indicado pelo Qatar e pela FIFA, de mortes e trabalhadores nos preparativos para o Mundial 2022 (e isto não é gralha), tendo ainda o desplante e a aberração de comunicarem mais 36 mortes de trabalhadores dos canteiros de estádios, "mas" que morreram por motivos “não laborais”;
  • 6 751 trabalhadores oriundos da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram na preparação do Mundial do Qatar desde 2011, o que representa uma média de 12 trabalhadores migrantes falecidos a cada semana de trabalho;
  • 100 mil é o número mínimo de trabalhadores migrantes que a Amnistia Internacional considera terem sido explorados e sofrido abusos por causa das leis do trabalho (ou a falta delas) vigentes no Qatar;
  • 14 a 18 horas de trabalho diário para muitos dos trabalhadores migrantes;
  • Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, o índice de liberdade de imprensa coloca o Qatar na posição 119, entre 180 países;
  • 433 milhões de dólares é o valor que a Amnistia Internacional e outras organizações humanitárias acreditam que a FIFA deveria disponibilizar para ajudar a compensar os trabalhadores migrantes que morreram ou sofreram ferimentos no Qatar, indemnização contestada pelo governo do Qatar e ignorada pela própria FIFA. Isto, para além das PETIÇÕES, ALERTAS e POSIÇÕES PÚBLICAS e CAMPANHAS que a Amnistia tem lançado.

Mas para além dos negros números da vergonha da ausência dos mais elementares direitos humanos e da defesa da dignidade humana, há ainda que acrescentar a hipocrisia do choradinho pelos direitos humanos (pela frente) e a cedência 'delírio e ópio futeboleiro' (pelas costas).

Os alertas, as posições, as críticas e a comprovação da realidade e do contexto não surgem a 3 dias do arranque desse vergonhoso mundial. Já vêm desde o anúncio da candidatura, com mais relevância após o anúncio da decisão (suspeita) da FIFA, em 2010/2011.

Por mais campanhas que se façam de angariação de fundos - como esta da Amnistia, por mais boa-vontade que haja (e logo eu, insuspeito em relação à Amnistia por todo o respeito e reconhecimento que me merece, há décadas), por mais lamentos que surjam de posições públicas de jogadores, selecionadores, federações nacionais de futebol, a verdade é que, mesmo nesta altura (o ideal teria sido mais cedo ou, até mesmo, a não atribuição da realização do evento), a realização do campeonato e presença das seleções neste Mundial 2022 é incoerente, corresponsável e tolerante quanto aos contextos assinalados, e apenas serve para branquear e desculpa a realidade. E não colhe o argumento, nem nunca, por motivo algum, tem qualquer valor a sobreposição economicista/dinheiro em relação à vida e à dignidade humana. NUNCA!

E em toda esta hipocrisia e choradinho com lágrimas de crocodilo, de falsa e balofa preocupação humanista, é incompreensível o que aconteceu, ontem, no Estádio de Alvalade (naquele dia neutro, ao serviço do país) quando ativistas dos direitos humanos foram impedidos de aceder ao interior do estádio envergando t-shirts promocionais da campanha “Forgotten Team”. Já conhecíamos o universo paralelo do futebol em relação à justiça, à fiscalidade e às regras financeiras comuns. Ficamos agora a conhecer a faceta paralela em relação aos Direitos Humanos e à Liberdade. O Futebol não é, nem, o será, quanto assim se comportar, um modelo de exemplo social, de inclusão, de solidariedade, de justiça e de DIREITO.

Por isso, escusa o Presidente da República de, perante mais um devaneio presidencial, vir apelar a TODOS os portugueses que se concentrem na seleção e no futebol e que esqueçam a realidade vivida no Qatar. NÃO! Felizmente, ainda há portugueses que não se esquecem do valor da DIGNIDADE HUMANA e dos mais elementares DIREITOS HUMANOS. E muito menos do valor da VIDA.

Lamento a presença da seleção nacional, do presidente da república no Qatar, no dia 24 de novembro. Pessoalmente, 2022 será sempre o ano em que não houve (ciclicamente) Mundial de Futebol. Nem a Seleção me representará no Qatar.

Não, em meu nome!