publicado na edição de hoje, 27 de maio, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
Não podemos assobiar para o lado
O Presidente da República, Cavaco Silva, no encerramento da IV conferência "Roteiros do Futuro", que decorreu na Fundação Champalimaud há pouco mais de uma semana, afirmou que era preocupante o crescente estado de apatia cívica e indiferença dos jovens perante a política. Excluindo o facto de Cavaco Silva, mesmo como Presidente da República, ter muito pouca legitimidade para falar sobre os jovens (e muito menos “acusá-los”) porque nem uma palavra se ouviu quando o Primeiro-ministro e o Secretário de Estado da Juventude aconselharam os jovens portugueses a emigrarem ou quando são conhecidos os elevados valores do desemprego jovem e dos recém-licenciados, a afirmação de Cavaco Silva merece, no entanto e apesar, uma especial atenção. Principalmente porque podemos e devemos generalizar o universo do público-alvo e alargar a preocupação à generalidade dos cidadãos.
A política também se faz (e deve fazer-se) fora do âmbito partidário já que, em sentido lato, ela é um dos motores da sociedade e do seu desenvolvimento.
É conhecido o afastamento dos cidadãos (várias gerações) em relação à política, entenda-se aqui aos partidos, às instituições democráticas, à política partidária, sendo certo que muita da responsabilidade desse afastamento cabe aos políticos e às instituições pela péssima imagem que têm transmitido. Mas também é verdade que os próprios cidadãos têm responsabilidade e acrescida. A democracia representativa tem o senão de ter uma significativa dificuldade de abrir mão do poder adquirido (pelo voto) e de se abrir à participação dos eleitores, seja a nível nacional, regional ou local, com as atenuantes de ser mais ou menos flexível em função da personalidade e da característica política de quem detém o poder, mesmo que, a bem da verdade, seja visível a promoção de espaços para a participação. É assim e sempre assim o foi, mesmo nos tempos mais caóticos da democracia. A questão é que, perante esta realidade e este contexto, os cidadãos tomam a pior decisão: a indiferença, o alheamento, a ausência de associativismo, a vacuidade da participação cívica, a transferência da responsabilidade para os outros (o poder político). Nem mesmo a importância da criação de massa crítica, de conceções e confronto de ideias, mobiliza a sociedade. E só por isto, pela necessidade de se percecionar as realidades sociais e políticas, de confrontar conceções e convicções distintas, de relevar a importância do conhecimento e do saber, é extremamente urgente que os cidadãos deem expressão prática ao exercício pleno do direito de cidadania, sem estarem à espera que o primeiro passo seja sempre dado por aqueles que, no fim, tanto criticam e acusam.
A participação cívica não deve ficar apenas pelo mediatismo e pelo envolvimento na gestão pública. Antes pelo contrário, ele é muito mais que isso. É a promoção de espaços dentro da mesma, de encontro, debate, participação e confronto de ideias, e, dessa forma, também fazer política. E nisto, Cavaco Silva tem razão. Ainda na passada semana a Plataforma Cidades promoveu um excelente e interessante debate sobre a “Economia do Futuro”. Mais do que a notada ausência de “políticos” foi significativa a ausência de jovens, numa discussão de um tema que, mais do que a outros, diz diretamente respeito aos que têm muito futuro à sua frente. Mais ainda… mais preocupante que a ausência fica a eventualidade da não participação dos jovens porque da coisa política se afastaram, se alhearam e perante a qual são, provavelmente, indiferentes. Nada pior do que a indiferença quanto à construção, já hoje, do futuro porque o mesmo não se prevê, constrói-se. E é verdadeiramente problemático se a sociedade, dentro de si mesma e para além da estrutura político-partidária, não promove o “espaço público” ou não potencia o exercício de cidadania, sem esperar ou responsabilizar outrem.

