Não, Sr. ministro Fernando Medina... nós é que lamentamos mais que profudamente.
enquanto o país lamenta que Medina tenha sido nomeado ministro das Finanças. Caso Sérgio Figueire

(fonte da foto: revista Sábado)
Comecemos pelos factos/dados...
1. Fernando Medina pretendeu contratar, para o seu ministério (Finanças) o ex-diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, como Consultor Estratégico para Avaliar e Monitorizar o impacto das Políticas Públicas.
2. Sérgio Figueiredo iria receber cerca de 140 mil euros, por dois anos, o que corresponderia a um valor ilíquido mensal (vencimento) de cerca de 5.800 euros (valor bem acima do vencimento do Ministro que contrata).
3. Tornada pública a perspetivada contratação, surgiram um considerável número de críticas a todo este processo, incluindo no seio do próprio PS (Ascenso Simões, no Expresso).
Antes de tudo, importa destacar e diferenciar: não cabe na presente análise (o que não significa que não possa ser assunto de discussão paralela/complementar) se Sérgio Figueiredo teria ou não perfil e aptidões para o cargo que estava em causa. Aliás, acho que nem é mesmo por aí. Desde os tempos de faculdade de economia, à passagem pela Fundação da EDP, Jornal de Negócios, Diário Económico e TVI, com todos os altos e baixos de qualquer percurso profissional (também se aprende com os erros... pelo menos quem assim o quer), o "cv" do ex-diretor de informação da TVI afigura-se, com mais ou menos excelência, suficientemente recheado.
Daí que se estranhe (embora seja admissível que a questão tenha sido 'acordada' entre as partes) que tenha sido o próprio Sérgio Figueiredo a tomar a iniciativa e, curiosamente, a assumir uma responsabilidade que, só em último caso, lhe competiria, já que o que está em causa, de forma direta, não é Sérgio Figueiredo, mas sim uma questão de opção e governativa, com claros contornos políticos. De Fernando Medina ou António Costa, de Mariana Vieira da Silva ou da comunicação do Governo, do próprio PS ou até de Marcelo Rebelo de Sousa, ouviu-se silêncio ou alguma coisa que, espremido, resulta em nada.
Vamos ao contexto...
O ministro Fernando Medina, a propósito do artigo da autoria de Sérgio Figueiredo publicado, há dois dias (17 de agosto), no Jornal de Negócios (no qual explica que renuncia à contratação), veio a público afirmar que "lamenta profundamente" a posição de Sérgio Figueiredo.
Se o enredo era, em si mesmo, demasiado polémico, pior ficou com este 'lamento' de Fernando Medina.
Vamos, então, aos lamentos... que são, em todo este deplorável caso, por parte de muitos dos portugueses, maiores que o "lamento ministerial".
- O que se lamenta, Sr. Ministro...
- é a falta de transparência e ética em todo este processo de contratação.
- é que se queira fazer dos portugueses ignorantes, distraídos e politicamente ileteratos, sem que, à data de hoje, tenha havido uma explicação cabal e clara para todo este contexto: o porquê, para quê, com que objetivo, etc.. E em comunicação política (ditam as regras e os conceitos), nomeadamente nos momentos de gestão de crise, é mais que fundamental, dir-se-á mesmo que vital, que tudo seja claro, bem explicado e sustentado, para que os cidadãos (a opinião pública) percebam e compreendam as posições e medidas tomadas, mesmo que discordem das mesmas.
- é a completa desvalorização e desconsideração pela estrutura e trabalho desenvolvido pela unidade responsável pelas funções que seriam contratualizadas.
- é o manifesto uso de recursos públicos para 'pagar favores pessoais'.
- é o manifesto "erro de casting" que António Costa fez ao atribuir-lhe uma das principais e fundamentais pastas governativas.
- é que, perante a sua impreparação técnica e política para liderar as finanças do país e perante o desaire político e eleitoral nas últimas eleições autárquicas, use as suas funções governativas e o seu estatuto público para a construção de uma agenda pessoal, com o objetivo de reconquistar, dentro do Governo e do PS, um peso político (perdido) que lhe permita manter-se na corrida da sucessão e liderança socialista.
- principalmente em relação a quem o país exige rigor, transparência, clareza e, ainda, uma extrema exatidão e justiça na gestão da tesouraria, do erário e orçamento públicos, é que não tenha havido qualquer sentimento de imoralidade (para não ir mais longe) no valor e condições contratual, principalmente numa altura em que são mais que sentidos e óbvios os sacrifícios e as dificuldades que os portugueses, as empresas e a sociedade atravessam nesta crise económica (como exemplo, inflação acima da média europeia: 9,4% em julho - dados do Banco de Portugal).
- é que, à semelhança, por exemplo, com o caso do Ministro Pedro Nuno Santos, a única explicação, posição e consequências de todas esta embrulhada (felizmente, tornada pública) é um inócuo e desprovido "assunto encerrado", como se aos portugueses não fosse devida a mais que justificada explicação ou como se o caso não fosse, pelo menos, politicamente grave.
- é que, à semelhança, por exemplo, com o caso do ministro Pedro Nuno Santos, o Primeiro-ministro António Costa (com alguma surpresa, diga-se) ande demasiado distraído e desatento quanto à gestão interna do seu Governo.
- é que, a propósito desta renúncia de Sérgio Figueiredo (que sabe mais a uma concertação de limpeza de imagem do Ministro, do que uma natural posição, dispensável, pessoal) se queira colocar uma pedra sobre o assunto. Não, Sr. ministro Fernando Medina. Isto vai ficar gravado na esfera política e governativa mais tempo do que possa prever ou imaginar. É que faltam algumas respostas, várias explicações e muitas responsabilidades por assumir. Muitas e graves responsabilidades.
E, infelizmente, também eu, do ponto de vista pessoal, lamento muito mais que Fernando Medina... lamento "profundamente" que toda esta embrulhada e trapalhada política me tenha levado, desnecessariamente, a concordar com o líder do PSD (mas para estes, tenho um nome: António Borges, lembram-se?!). Isso eu também acrescento aos lamentos.
Post 'blog' scriptum
Há, ainda, um pormenor (ou um 'pormaior') que merece nota de destaque.
Sérgio Figueiredo, no artigo publicado no Jornal de Negócios, sustenta a sua renúncia nos "insultos", "ataques raivosos", nos "assassínios de caráter" ou no "linchamento público".
Pessoalmente, tendo a dar alguma razão ao ex-diretor a TVI.
Acredito, sem qualquer esforço, que neste processo não será de descurar o nível de pressão encoberta e de 'bastidores' (muitos nos corredores do poder, político, económico e social), mais do que a política, que Medina e o próprio António Costa terão sofrido. Basta recordar a empatia pública de Sérgio Figueiredo por José Sócrates; o caso "anúncio Banif" na TVI; o gorado negócio polémico entre a Media Capital e a Cofina; ou, ainda no canal de Queluz de Baixo, os impactos e estilhaços provocados na IURD que a excelente investigação jornalística conduzida por Alexandra Borges e Judite França, sobre os condenáveis esquemas de adoções ("O Segredo dos Deuses") provocou.
Tudo isto deixou marcas no currículo profissional de Sérgio Figueiredo e uma colossal azia em muita gente e sectores. Não há, obviamente, coincidências.