Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Nem sim, nem não… antes pelo contrário.

quando pretendemos reescrever a história que nos dá mais jeito.

l5 - cópia.jpg

Publicado na edição de hoje, 27 de novembro, do Diário de Aveiro (página 5)

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, num laivo de populismo e narcisismo político, resolveu celebrar o 48.º aniversário do “25 de Novembro de 75”. Curiosamente, na sombra do 50.º aniversário do 25 de Abril de 74. Estas coisas não se inventam.
Tenho um enorme orgulho em ter laços familiares com um Capitão de Abril e Capitão de Novembro (do Grupo dos Nove). Ainda retenho na memória histórias contadas e contextos do "Verão Quente de 75", bem como as do 25 de Abril de 74.
Sempre entendi - e defenderei - que o 25 de novembro de 75 teve um papel importante na história destes quase 50 anos de liberdade e democracia. Mas nunca, sob o pretexto de deturpação da realidade, estarei do lado dos que pretendem reescrever a história por mero interesse partidário (nem político, sequer) ou ideológico. Nomeadamente, ao lado daqueles que, na vivência dos tempos quentes e conturbados dos primeiros passos da revolução, permaneceram do lado nenhum da barricada, na hipocrisia do silêncio e da expetativa, e que apenas beberam (e ainda bebem) do triunfo e coragem de outros.
É mais que claro que, após a madrugada de 25 de abril de 1974, muita coisa foi marcante neste percurso democrático e de liberdade no país: a própria liberdade e democracia, a Constituição da República, o Poder Local, o voto livre, os direitos e garantias, … (interminável). Os portugueses adormeceram em ditadura e, sem nada o prever, nem em sonhos, acordaram em liberdade. Assim, sem mais, nem menos, exceção feita para a coragem e determinação dos Capitães e dos militares que derrubaram o Governo de Marcelo Caetano. E os primeiros anos, os primeiros passos desta nova realidade política, social e cultural, seriam, com toda a naturalidade, de incertezas, de inseguranças, de avanços e recuos.
Mas é bom, para todos, que não se esqueça ou deturpe, por que nos dá jeito político, a história e os factos:
- o 25 de Abril de 74 foi um movimento revolucionário militar que os mesmos militares devolveram ao Povo. Curiosamente, antecedido pelo golpe falhado e protagonizado pelo general Spínola, a 11 de março. Não se vê a direita conservadora querer recordar (importa esquecer, obviamente), nem a esquerda reivindicar a necessidade de o assinalar;
- o 25 de Novembro de 75 foi um episódio, mais uma vez, planeado e protagonizado pelas forças militares moderadas, conduzido no seio do Conselho de Revolução (e não no povo ou nos partidos), sendo certo que os socialistas, com Mário Soares à cabeça, deram a expressão popular ao resultado da reposição dos valores de liberdade e democracia que sustentaram o 25 de Abril. O 25 de Novembro foi, acima de tudo, um momento de correção da democracia e da liberdade conquistadas em abril de 74.
Independentemente da importância da reposição (correção) da democracia após a revolta de Tancos e a demissão do Governo do general Vasco Gonçalves, após o equilíbrio de forças no Conselho da Revolução através do Grupo dos Nove, o 25 de novembro não é comprável ao 25 de abril de 74. É, sim, uma consequência do que foram os valores de Abril, como o foram as eleições para a Assembleia Constituinte (25 de abril de 75), a Constituição Portuguesa aprovada a 2 de abril de 1976, as Presidenciais de julho de 76 e as primeiras eleições autárquicas a 12 de dezembro de 1976. Isto sim… foi a verdadeira implementação da democracia e o seu pleno exercício.
Promover, ainda por cima a despropósito e sem qualquer envolvimento (ou reconhecimento) dos seus principais protagonistas, a comemoração do 25 de novembro de 75 é, descaradamente, uma manobra de perfeito populismo e de atentado à história do Portugal democrático.
Há várias perguntas que importam.
Os que se dizem, agora (na altura nem sequer se manifestaram), tão defensores do 25 de novembro, celebraram os militares como Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Pezarat Correia, Rodrigo Sousa e Castro, entre outros? Ou, ainda, o PS e a memória de Mário Soares?
Os que se dizem, agora (na altura nem sequer se manifestaram), tão defensores do 25 de novembro, celebraram os fundamentos e principais objetivos que nortearam a intervenção dos militares moderados do MFA: a recusa tanto do modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental, defendendo um projeto socialista alternativo baseado numa democracia política, pluralista, nas liberdades, direitos e garantias fundamentais?
Os que se dizem, agora (na altura nem sequer se manifestaram), tão defensores do 25 de novembro, celebraram a “Terceira Via”, através da “criação de um amplo bloco social de apoio de um projeto nacional de transição para o socialismo, numa sociedade sem classes, onde tenha sido posto fim à exploração do homem pelo homem, implementada aos ritmos adequados à realidade social portuguesa"?
Os que se dizem, agora, tão defensores do 25 de novembro de 1975 apenas pretenderam reescrever a história e apontar “artilharia política e ideológica” à esquerda.
Se querem celebrar, de facto (e pelos factos), a democracia e a liberdade em Portugal, assumam o verdeiro sentido do 25 de Abril e não deixem que alguma esquerda assuma a “paternidade e propriedade” que nunca lhe foi atribuída, nem devida.
Não tenham medo ou vergonha de colocar o cravo na lapela. Porque foi para isso que se fez o 25 de Abril. Aí é que se celebra a liberdade e a democracia... mesmo a que permite estes absurdos populistas.
Numa altura em que os extremismos radicais pululam por este mundo (vejam-se os exemplos mais recentes da Argentina e Países Baixos), importa solidificar a relevância da moderação, do centro pluralista e agregador, consolidar os valores da liberdade e da democracia, sem fatos à medida e sem radicalizar posicionamentos.
O 25 de Abril de 74 cumpriu-se, em si mesmo, como um todo… o resto é consequência de um caminho livre e democrático, que nunca foi, não é, nem será fácil.