O medo do voto

(crédito: Tiago Petinga / Lusa, in Expresso)
Sem pretender entrar em prévias apreciações sobre os impactos da Moção de Confiança que será, provavelmente, apresentada na próxima terça-feira, porque até à fase da votação (se esta acontecer) tudo é politicamente expectável.
Portanto, antecipar cenários é estar a discorrer sobre meros contextos hipotéticos.
Mas há uma afirmação que tem sido, por repetidas vezes, proferida nas análises que são feitas e que merece particular referência: “ninguém quer eleições”.
Ora, nada mais falacioso e demagogo. Esta apropriação da vontade coletiva é abusiva e inconsistente.
Quem, verdadeiramente, parece recear as eleições são o Primeiro-ministro e o PSD (ou a AD), que foram quem colocou o cenário para pnderação da Assembleia da República, ou aqueles que se deparam com o risco factual e real de perderem o seu lugar parlamentar ou governativo.
É certo que, provavelmente, entraremos num ciclo eleitoral muito pouco vulgar em Portugal. Em menos de um ano, os portugueses serão chamados a cumprirem o seu direito político e o seu dever de cidadania (contando com a Madeira) por quatro vezes.
Mas a vitalidade, as dinâmicas e a consistência da democracia são isto mesmo: devolver aos eleitores a legitimidade de decidir os destinos da governação e responsabilizar os que não souberam (ou não quiseram) representar os interesses, os desejos e as necessidades dos cidadãos.
Os portugueses não têm nem medo, nem problemas em ir votar as vezes que forem necessárias. O que os portugueses têm medo é que a democracia falhe, que seja corroída ou posta em causa.
O que cansa os portugueses são as crises políticas geradas pela incompetência, pela falta de ética e transparência, pela apatia e inoperância governativa e parlamentar. Isso é que cansa os portugueses. E disso, o direito ao voto, a legitimidade da representatividade e a própria democracia não têm culpa, nem responsabilidade, sobre a crise política que os políticos criaram ou querem criar.