
publicado na edição de hoje, 9 fevereiro, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
O que esconde 15,3% de desemprego?
A questão surge com a divulgação, pelo INE, da taxa de desemprego registada no quarto e último trimestre de 2013. O valor divulgado refere uma taxa de 15,3%, registando-se uma diminuição de 1,6% em relação ao valor homólogo de 2012, que situava a taxa de desemprego nos 16,9%. Há, neste registo, alguns aspectos positivos que importa salientar: a diminuição da taxa (sejam quais forem as razões, há uma diminuição de 1,6% apesar do elevado número de desempregados: quase 830 mil cidadãos). Para além disso, registe-se a ténue recuperação económica que, mesmo assim, criou cerca de 30 mil postos de trabalho, embora apenas um em cada três (um terço) dos desempregados tenha conseguido uma recolocação laboral.
Mas tal como na divulgação do valor do défice orçamental de 2013 (aqui comentado na edição do dia 29 de janeiro - “Verdade seja dita”) também este valor de 15,3% da taxa de desemprego nos últimos três meses de 2013 esconde outras realidades.
A primeira resulta de um dado preocupante em termos de futuro (embora, obviamente, com impacto na descida da taxa): cerca de 63% dos 830 mil desempregados estão sem trabalho há mais de um ano. E é importante referir ainda que o ano de 2013 registou (apesar do aumento no último trimestre) menos 100 mil trabalhadores que em 2012 (população activa na ordem dos 4,7 milhões de cidadãos).
Daí que, em segundo lugar, seja relevante referir que, segundo os valores apontados pelo INE, contabilizando os cidadãos que deixaram de procurar emprego, o valor da taxa (real) estaria situado nos 20,7%. Isto é, teríamos uma realidade que representaria cerca de 1, 2 milhões de desempregados (quase mais cerca de 400 mil para além do valor divulgado).
Por outro lado, o ano de 2013 fechou com cerca de 128 mil postos de trabalho criados, mas que apenas representam cerca de 28% do total de postos de trabalho perdidos desde 2011 (460 mil). Importa relembrar que o segundo trimestre de 2011 registou o valor mais baixo (dos últimos anos da crise) da taxa de desemprego: 12,1%.
Mas, por fim, o mais significativo é que o apelo do Primeiro-ministro e do (à data) Secretário de Estado da Juventude sortiu efeito: no ano de 2013 cerca de 100 mil jovens portugueses emigraram (desapareceram dos dados do INE). Já não se trata de sazonalidades ou de demagogias. Os dados do INE são claros: e emigração teve impacto na descida da taxa de desemprego em Portugal.
Para justificar esta realidade há ainda quem entenda que esse impacto, para além da descida do valor da taxa, é positivo. Isto é, a emigração é o principal factor de sucesso do governo no que respeita ao combate do desemprego. E isto é, por alguns apoiantes de Passos Coelho, uma boa notícia, porque (basta recordar o artigo “Elogio à emigração” de João César das Neves, no Diário de Notícias, a 6 de janeiro último) a emigração pode ser uma “bênção”. Mas não é…
Por várias razões óbvias: a saída de uma “zona de conforto” e de total alteração de vida, a que todos temos direito, sem ser por vontade própria; a procura de oportunidades e de melhores condições que o país não consegue promover, nem oferecer; tendo a quase totalidade de emigrantes menos de 35 anos e registando-se uma das maiores taxas de jovens formados/habilitados, o país perde, de “mão beijada” e face ao esforço que despendeu, a sua massa crítica, o saber e o conhecimento necessários para o desenvolvimento social, cultural e económico; além disso, emigração significa um decréscimo de contribuições fiscais, e menos de 100 mil contribuintes afigura-se um valor considerável. Para além disso, esta realidade provoca um envelhecimento preocupante do país (face à baixa taxa de natalidade), correndo-se o risco da maioria dos “novos” emigrantes, num mundo tão globalizado, facilmente perderem as suas raízes e dificilmente regressarem a Portugal.
Se uma taxa de 15,3% de desemprego é uma boa notícia, importa reflectir sobre a realidade social que a sustenta e que é reflectida na “outra face da moeda”. E 15,3% escondem muito…

