Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

31
Jan 20

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O Brexit passou à história... segue-se o "day after".

O Reino Unido deixa hoje, definitivamente, a União Europeia às 23h00 portuguesas e inglesas (fuso GMT) e às 24h00 da União Europeia. O Brexit pode, finalmente, abrir o champanhe, sem, no entanto, recordar que "a procissão ainda vai no adro" e que há muito ainda por discutir até ao final de 2020 (pelo menos).

Para já, há duas questões incontornáveis? Quem perde mais com a saída do Reino de Sua Majestade da UE? O que reserva o futuro após o 'day after'?

Reino Unido
Em 1973, a então CEE acolhe mais um Estado membro: o Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Volvidos apenas dois anos, em 1975, o primeiro referendo coloca à prova a permanência na Comunidade Europeia: 67% vota pelo sim à continuidade.
41 anos depois, num claro erro político e uma desastrosa estratégia geridos por David Cameron (à altura, Primeiro-ministro eleito pelo Partido Conservador - apesar da sua preferência pública pelo "no deal"), os partidos Trabalhista, Aliança da Irlanda do Norte, Verde, Liberais Democratas, Partido Nacional Escocês, Sinn Féin, Partido Unionista do Ulster, entre outros, não foram suficientemente capazes de contrariar muito do populismo e demagogia que sustentaram os discursos "deal" de partidos como o Partido Conservador, Partido Unionista Democrático, Aliança Antiausteridade, Voz Unionista Tradicional ou o Partido da Independência (do extremista e eurocéptico Nigel Farage), como exemplos.
A 23 de junho de 2016, 51,89% dos eleitores 'britânicos' votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia (contra 48,11% que optaram pelo "no deal" e pela permanência). O Brexit iniciava, assim, um período de mais 3 anos de altos e baixos, avanços e recuos, mais dúvidas que certezas, até à aprovação final, a 9 de janeiro deste ano (330 votos a favor e 231 contra) no Parlamento Britânico, da saída oficial do Reino Unido da União Europeia (31 de janeiro de 2020).
São muitas feridas que o Brexit deixa bem abertas. Primeiro, a memória do fatídico dia 16 de junho de 2016, quando a parlamentar trabalhista Jo Cox foi assassinada em Bristol por defender a permanência na União Europeia. Além disso, são evidentes, públicas e inequívocas as brechas políticas que o Brexit criou na própria união do Reino: Escócia e Irlanda do Norte à cabeça: a luta secular pela independência e, no caso dos segundos, acresce ainda o eterno desejo unionista (as duas irlandas numa só). Além disso, há uma fractura imensa na sociedade britânica, nas instituições e até nas famílias... e vai demorar a sarar.
A troco de um conjunto de populismos nacionalistas e chavões eurocépticos, aos quais se juntou o crescente sentimento anti-imigração, os britânicos (mais os ingleses e galeses) escolheram perder peso económico, político e estratégico.
A permanência na União Europeia, apesar de todas as circunstâncias e conjunturas, dava ao Reino Unido o conforto do peso internacional do bloco europeu, conferia-lhe dimensão política, assegurava-lhe capacidade negocial e económica. Com a saída os súbditos de Sua Majestade ficam dependentes de si mesmos (apenas), do resultado dos acordos com a União Europeia, fragilizados economicamente, dependentes da sua relação umbilical com os Estados Unidos da América (não sendo, nos dias de hoje, uma clara "segurança", nem uma aconselhável opção).
Como toda o sua altivez e vaidade nacionalistas e perseverança monárquica (mesmo a cair aos bocados), lá continuarão a conduzir pela esquerda.

União Europeia
A UE, com eventuais perdas menores, não deixa de sentir um sabor amargo neste contexto de rotura.
É inquestionável a sensação de fragilidade política que leva a colocar em causa o presente e o futuro da Comunidade. É óbvio que a União Europeia tem uma quota parte de responsabilidade neste Brexit porque se uns quiseram sair, a UE não foi capaz de ter arte e engenho para conseguir manter a sua unidade e não perder uma "peça de peso" na sua estrutura, perdendo o seu centro financeiro e ficando reduzida ao eixo franco-alemão (centro político e centro económico) com evidente supremacia do dinheiro/economia em relação à política.
Mas há mais... se é um facto que as vozes eurocépticas foram diminuindo no seu mediatismo (o que não significa que tenham desaparecido ou perderam peso e força), optando por aguardar novos desfechos e novos episódios, a União Europeia tem, a partir de hoje, enquanto durarem as negociações e os acordos que se seguem, desafios muito complexos para ultrapassar, sem que a União Europeia perca a sua essência, os seus valores e o seu sentido de unidade. Se os processo negociais resultarem em benefícios desproporcionados, com clara vantagem para o Reino Unido, isso pode ser manifestamente visto pelas vozes anti-UE como uma porta relativamente fácil para, face a potenciais crises políticas e sociais, surgirem novos Euroexits. E há 'bons' exemplos de quem não ensaie muito para colocar em causa a sua permanência, independentemente das vontades de integração da Turquia, Croácia, Albânia, Bósnia-Herzegovina, Islândia, Kosovo, República da Macedónia, Montenegro (a grande maioria destes países com fortes constrangimentos sociais, culturais e políticos).
Será, claramente, a forma como a União Europeia se projecte no presente e perspective o seu futuro, juntando processos 'pacíficos' de alargamento, e consiga criar fortes laços de unidade e integridade, com uma política forte de coesão social, de crescimento económico e financeiro, de ganhos e fortalecimento geoestratégico e geopolítico, que minimizará os impactos (haverá sempre) negativos do Brexit.

Day After
Se muitos pensam que o Brexit é o fecho e o fim de um ciclo podem "tirar o cavalinho da chuva". Este bem pode ser, como canta Sérgio Godinho, "o primeiro dia do resto das nossas vidas". E ainda a "procissão vai no adro".
Muitas horas, muitos dias, muitos avanços e recuos, hão-de acontecer, pelo menos, até ao final do presente ano. Serão negociados muitas contrapartidas, muitas regras e procedimentos, muita legislação que salvaguarde, agora, interesses contraditórios e opostos, nomeadamente aqueles que se sustentam na economia e nas relações comerciais e na livre circulação de pessoas e bens.

Mesmo que o processo seja, para já, irreversível (não sei se o será definitivamente... o que pode criar, no futuro, outro grande e complexo problema à União Europeia: um hipotético regresso - como? em que moldes? de que forma? igual a um outro qualquer pedido de adesão?) muita água irá correr por debaixo da ponte.

A história continuará... a vida também. Mas para o UK e para a UE nada será como dantes... há um antes de 31 de janeiro de 2020 e um depois do Brexit.

publicado por mparaujo às 21:08

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