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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Para além do Mundial da Vergonha... também o Mundial da Hipocrisia

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Chegou ao fim um dos mundiais de futebol mais polémicos e controversos.

Não pela questão desportiva ou competitiva, mas sim pela questão social e pelas suspeitas de corrupção, não apenas na atribuição da organização da prova ao Qatar e ao envolvimento da FIFA, mas pelos mais recentes acontecimentos no seio do Parlamento Europeu, envolvendo uma (Eva Kaili) das 14 vice-presidências deste órgão.

Este não foi apenas o Mundial da Vergonha… o que por si só era mais que suficiente. E não vale a pena o argumento da comparação com outros países ou outras provas, porque boicotes, críticas e condenações/acusações sempre houve. Muito menos o argumento de que as críticas surgiram quando já nada ou muito pouco havia a fazer. Não é verdade… desde a atribuição da organização da prova ao Qatar, cerca de 2011, que têm sido várias a vozes e condenações de organizações como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch, por exemplo.

A verdade é só uma… é altura de desmistificar o chavão de que o futebol é uma escola de valores. Não é. Não o é do ponto de vista social, da inclusão, da igualdade, da defesa dos mais elementares direitos, ao nível da corrupção e da justiça. Seriam longos e extensos os exemplos. Mas não deixa de ser irónico que a França, finalista derrotada deste Mundial 2022, seja o país de Michel Platíni, ex jogador da Juventudes numa altura em que o clube transalpino se viu, alegadamente, envolvido em casos de combinação de resultados, ex presidente da UEFA, eleito de forma muito pouco clara e transparente e que acabaria por ser condenado, em maio de 2016, pelo Tribunal Arbitral do Desporto, e suspeito de alegada corrupção na atribuição, em 2010 do Mundial de 2022 ao Qatar.

Mas se este Mundial de 2022 é, por tudo o que já foi apontado, no Mundial da Vergonha, a prova pode ser considerada, igualmente, como o Mundial da Hipocrisia.

Hipocrisia pela forma como os políticos e o poder político encarou todos os casos de atropelo aos Direitos Humanos e à Liberdade, salvo algumas raras exceções, como, por exemplo, a Alemanha. Mesmo no caso português, é lamentável e condenável o envolvimento das três principais e mais altas figuras do Estado, nomeadamente na presença no Qatar, que nem o ténue ou insignificante posicionamento público sobre os direitos humanos conseguiu atenuar. E o futebol é tão hipócrita e tão vazio de valores que a única justificação que se encontra para a opção política portuguesa tomada por Marcelo Rebelo de Sousa, Augusto Santos Silva e António Costa seja o facto de Portugal se ter candidatado a organizar, juntamente com a Espanha, o Mundial de 2030. Uma mera (e hipócrita) ação de charme institucional.

Mas a hipocrisia, diga-se, não se limita ao futebol, em si mesmo ou às suas instituições (como a FIFA), e ao poder político. Trespassa para a própria sociedade, para o universos comercial, financeiro e empresarial/económico, e, ainda, para a própria comunicação social.

Com as tímidas referências aos dados trágicos que envolveram a preparação do mundial de futebol e ao regime político e poder no Qatar, há o outro lado perverso num universo que deveria ser de isenção e transparência: horas infindáveis de reportagens, diretos (jogos e não só), comentários e programas. Milhares investidos, outros tantos (ou muito mais) de receitas, à custa de uma prova assombrada pelos contextos conhecidos. Mas a isso também muito do jornalismo desportivo já nos habituou: mais preocupado com casos, casinhos e polémicas, com uma manifesta falta de isenção, muito conivente e subserviente com o próprio sistema.

Muitos poderão dizer que já terminou, está encerrado o assunto.
Não está… há vidas que não regressam, há memórias trágicas que ficam e o Qatar não ficou mais "humanizado" e respeitador dos fundamentais direitos humanos.

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FORGOTTEN TEAM