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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Penálti Falhado...

o mesmo será dizer: bola ao lado com a baliza escancarada.

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Relembro, antes de tudo: em março, todos nós batemos muitas palmas à janela e à varanda como reconhecimento pelo trabalho dos (todos) Profissionais da Saúde. Já na altura, mesmo com a vénia devida, lançava um... MAS!

Continuando...
Estava tudo a correr demasiado bem para não se desconfiar que, nos momentos mais importantes e cruciais, tínhamos que bater no fundo da parolice e da decência (ou da falta dela).

Há um inquestionável impacto da pandemia em todos os sectores da economia e da sociedade: comércio, serviços, educação, SAÚDE, mobilidade, banca, ensino, indústria, ..., Cultura, Animações e Festas e Romarias, Turismo e Desporto. Qual a que tem mais valor ou importância? Defendo que a vida humana e a saúde pública, por mais sacrifícios, confinamentos e isolamentos, por maior que seja a queda financeira ou a perda económico-social. Por maior que seja a alteração das nossas rotinas ou as privações que possamos passar, estar vivo é sempre melhor que estar morto (e não é ironia Jet7).

Da procura de oportunidades no meio da crise, encontrámos, inexplicavelmente, populismos e irresponsabilidades políticas em vez de soluções e medidas que combatam a realidade que vivemos.

É inaceitável que, na conjuntura que atravessamos, haja a incapacidade do Governo de contrariar "lobismos" desnecessários e dispensáveis, inaceitável que o futebol continue a ter esta capacidade de minar a política e a nobel arte de governar.
Se fosse possível questionar o país sobre a ausência do futebol nestes meses de pandemia talvez o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-ministro e o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol percebessem (espero eu) a falta que não fez, nem se sentiu, na sociedade e nos portugueses. Se o futebol, os clubes e os jogadores mereciam regressar à sua actividade regular como aconteceu com outros sectores e actividades da sociedade, não questiono. Mesmo que seja importante relembrar que há quem continue "confinado" e impedido de exercer a sua actividade profissional e obter, legitimamente, os respectivos rendimentos para a sua (sobre)vivência.

Mas assistirmos, com toda a pompa e circunstância (mesmo que condicionada), ao anúncio da realização da Final Eight da Liga dos Campeões é, no mínimo, de um surrealismo inexplicável. Como é inexplicável o interesse e o supremo valor para o país de tal realização.
Deixemo-nos de parolices e populismos: há, face a toda a realidade que vivemos e aos dados com que nos deparamos diariamente, um risco incontrolável no aumento exponencial de turistas e concentração de pessoas (o PIB turístico não pode sobrepôr-se à saúde pública... ninguém, nem dada, pode ser mais importante que a realidade e a saúde de cada um de nós).
Por outro lado, há duas questões que mereceriam um cabal e claro esclarecimento público: que outros países europeus se candidataram à realização da prova? Ou só sobrámos mesmo nós? ou ainda... que custos tem um evento desta natureza? justificam os riscos? justificam os ganhos turísticos no imediato ou a longo prazo? Não acredito... nem creio.

Mas o mais grave de tudo isto... e DEMASIADO GRAVE.

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Do ridículo à parolice dispensável... passando por uma imensurável falta de respeito e reconhecimento (numa tentativa falhada de agradecimento).

Não vou qualificar a intervenção do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol... cumpriu o seu papel.
Mas como cidadão, como português e como solidário com o sofrimento de todos os que (foram) estão infectados e, principalmente (ao caso), para com TODOS os profissionais de saúde - Médicos, Enfermeiros, Voluntários, Auxiliares e Administrativos ou Bombeiros - que têm sido profissionalmente inexcedíveis, ENORMES, HERÓIS no verdadeiro combate à pandemia... só porque a vida está acima de qualquer outro valor. Mesmo, e principalmente por, que seja a vida do outro.

O Presidente da República afirmou que a realização de tal evento desportivo era um prémio para todos os Portugueses... Prof. Marcelo, da minha parte DISPENSO (sem qualquer "obrigado"). A minha parte do prémio pode entregar às festas ilegais (ou não autorizadas) e a todos os que acham que quebrar regras, normas e cuidados fundamentais é coisa de Homem e que isto tudo não passa de um "resfriadozinho ou uma corrente de ar". DISPENSO prémios da treta.

Solidariamente, este seria o verdadeiro e oportuno momento para, de facto, APLAUDIR os Profissionais de Saúde, honrar a memória do Médico do Hospital Curry Cabral que faleceu, ontem, no Hospital de S. José, vítima da COVID-19 contraída no exercício da sua missão profissional, e dizer ao Primeiro-ministro que entregue a Taça da Liga dos Campeões Europeus (o "Merecido Prémio aos Profissionais da Saúde") ao seu governo e ao ministério da Saúde. E, principalmente, não ofenda os Profissionais da Saúde, o seu esforço e sacrifício, todo o seu heróico empenho no combate à COVID-19.
O MERECIDO PRÉMIO ficou por atribuir quando, em março e abril, não havia material, equipamentos, testes e condições de segurança para o combate à pandemia, nos Hospitais e Centros de Saúde de norte a sul deste país.
O MERECIDO PRÉMIO ficou por atribuir quando toda a Função Pública recebeu o elevado 0,3% de aumento, em abril, e os Médicos e Enfermeiros ficaram sujeitos a um lapso informático.
O MERECIDO PRÉMIO ficou por atribuir em cada reivindicação de mais recursos para o SNS, mais recursos humanos no SNS, melhores condições para tratar e salvar os outros.
O MERECIDO PRÉMIO ficou por atribuir quando é necessário encerrar serviços e cuidados de saúde para ser possível dar resposta à COVID-19.
O MERECIDO PRÉMIO é ouvir o apelo dos Profissionais da Saúde e das suas estruturas para as condições da saúde, para as respostas urgentes às outras patologias que também vão, infelizmente, vitimando muitos portugueses.

O MERECIDO PRÉMIO é evitar que uma questionável, criticável e suspeita final da Liga dos Campeões Europeus de Futebol, venha potenciar, de forma incontrolável, directa ou indirectamente, os riscos (já por si só evidentes e factuais) de uma escalada epidémica no país.

Porque importa (de novo) lembrar:

  • A Organização Mundial da Saúde alertou, hoje, para uma nova e perigosa fase da pandemia, em calara aceleração, após o registo de um número recorde de casos positivos, à escala mundial: 150 mil novos casos assinalados nas últimas 24 horas.
  • A pandemia em Portugal está longe de controlada, combatida, e continuam inúmeras as incertezas quanto ao sucesso do nosso desconfinamento (descontrolado).
  • Da afirmação (meramente economicista) do "quantos mais visitantes, melhor será para o país", importa ter em conta que a Dinamarca (e a Áustria) como exemplo, reabriu fronteiras para países da UE excepto para Portugal e Suécia; que na China, por exemplo, tudo parece apontar para o surgimento de uma segunda vaga - na Alemanha está identificado um ressurgimento de significativo número casos positivos - e na Nova Zelândia, semanas depois de anunciada a erradicação do vírus, a primeira-ministra Jacinda Ardem teve de voltar a fechar o país.

Por cá... é sempre melhor distrair o povo com a bola. Enquanto de discutem penáltis não se fala da realidade do país.

Andando e rindo...