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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

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Pensar a economia do futuro

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 17 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Pensar a economia do futuro

A “Plataforma Cidades”, grupo de reflexão cívica sediado em Aveiro, vai promover, no próximo dia 19 (terça-feira – 18.30 horas), na Fundação Engenheiro António Pascoal, um debate sobre a “Economia do Futuro”, centrado no recente trabalho de investigação coordenado pelo Professor João Ferrão, investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, financiado e publicado (dezembro de 2004) pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: “Que economia queremos?”, numa visão de cidadãos, empresários e autarcas, para a Economia do Futuro. Não é de todo irrelevante e uma questão semântica falar-se de “economia do futuro” e não o “futuro da economia”. Resulta da urgente necessidade de inversão do foco do desenvolvimento, transformando a economia num meio para o referido desenvolvimento e não num fim em si mesma, gerando a inevitabilidade do repensar de conceitos, estratégias, políticas e comportamentos de todos: cidadãos, empresários, comunidade científica e políticos. Várias foram as questões que estruturaram o estudo e que foram colocadas às três tipologias de inquiridos: que futuro queremos? qual o papel da economia nesse futuro? que tipo de economia deve ser projectada? entre outras, tendo por base três conceitos: a economia de crescimento (modelo vigente); a economia verde (melhor gestão dos meios e recursos) e a economia do bem-estar (transformação acentuada da economia e da sociedade). A inevitabilidade do impacto da crise de 2007/2008 e da realidade portuguesa antes e após 2011 (não é de todo possível uma reflexão séria e consciente sem esta vivência) levam-me a rejeitar o primeiro cenário pelos efeitos que tem gerado na sociedade, sendo óbvia a indesejável continuação do caminho percorrido e dos resultados gerados e que criaram todo este cenário. A economia de crescimento verde não se afigura como prioridade, já que figura apenas como uma fração da estruturação e do papel da economia, independentemente da importância da gestão dos meios e recursos naturais limitados.

Sendo de todo improdutiva qualquer projeção do futuro, dada a volatilidade e a total incerteza do amanhã (“o que hoje é verdade, amanhã poderá ser mentira”), a necessidade de se repensar radicalmente o papel da economia no futuro das sociedades passa por construir, hoje, de forma consistente, realidades que sustentem o amanhã. E a principal mudança deve estar focada na construção do novo paradigma económico: a pessoa como o centro de qualquer modelo económico (aliás, reflexão proferida, não há muito tempo, pelo Papa Francisco no seu discurso na União Europeia). Quando a economia for capaz de assumir como foco o valor do trabalho, como fator gerador de riqueza (o mais relevante, para não dizer o único) e de estabilidade social, aí sim será garante claro do desenvolvimento social e económico das comunidades. Sem esta alteração do paradigma, sem esta valorização da importância do “trabalho”, não faz qualquer sentido repensar políticas e estratégias de flexibilização de horários e políticas laborais, de dinâmicas sociais no seio das empresas (melhorias das condições de trabalho, respostas às necessidades familiares, etc.), de eventuais aumentos da carga fiscal (individual ou coletiva) como fator de melhoramento das respostas e do papel social do Estado, entre outras. Por mais vontades que surjam acabará por vingar a atual economia de crescimento e muito dificilmente se diminuirá o desemprego; permanecerão ou aumentarão as desigualdades sociais, os contextos de pobreza e o limiar de sobrevivência aos quais já nem alguns grupos ativos (com emprego) muitos portugueses escapam; não haverá capacidade de investimento; faltará capacidade aos cidadãos e às famílias de gerar consumo sustentado (sem os riscos do recurso às fragilidades e instabilidades dos sistemas financeiros – crédito) com eventuais impactos negativos na produtividade e sustentabilidade do tecido empresarial; manter-se-á a instabilidade social; permanecerão os impactos negativos na sustentabilidade do Estado e do seu papel social, seja em que modelo for.

Resta a todos, a todos os sectores, sociedade, tecido empresarial, comunidade científica, decisores políticos, uma urgente alteração de conceitos, de visão, de comportamento, de políticas, que coloquem a economia ao serviço da pessoa, com a urgente importância do valor do trabalho, seja a nível quantitativo (monetário), seja a nível a qualitativo. Pela melhoria do bem-estar.