Na tomada de posso do XX Governo Constitucional reinava um ar pesado, cinzento, nos rostos dos Ministros e Secretários de Estado, como que a deixar antever algum conformismo quanto uma governação efémera.
Se, apesar da conjuntura política e das movimentações estratégicas à esquerda, dúvidas e esperanças houvesse quanto à possibilidade do XX Governo ter durabilidade, tudo se desfez com o enorme erro de casting na escolha de alguns ministros. As polémicas em torno da "subida" de Secretário de Estado a Ministro do proposto ministro da Saúde são conhecidas, as substituições dos ministros da Educação, Saúde e Justiça, podem ter uma leitura negativa para a Governação dos quatro últimos anos. Mas não ficamos por aqui.
Não foi preciso esperar muito tempo para algumas revelações ministeriais de "bradar aos céus". Choveu muito, forte e feio, a natureza quis mostrar "quem manda". Que o digam as gentes de Albufeira, em particular.
Aproveitando os fugazes momentos mediáticos que o curto tempo de governação proporcionará aos membros do XX Governo, as luzes da ribalta política tolheram o bom senso e a credibilidade do Ministro da Administração Interna, Calvão da Silva.
Já não bastava a polémica ligação do Professor de Direito de Coimbra a Ricardo Salgado (caso BES) com a justificação de singela prenda a "doação" de 14 milhões de euros de um construtor civil ao "ex dono disto tudo", para a primeira intervenção pública espelhar a capacidade política de parte do XX Governo Constitucional.
Basta as principais afirmações sobre as cheias e os consequentes estragos em Albufeira, para além da lamentável morte ocorrida.
Sobre os estragos provocados pela chuva extremamente intensa, na zona comercial de Albufeira.
"Cada um tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro".
Sobre eventuais faltas de seguro, o ministro afirmou que "é uma lição de vida".
No que respeita à lamentável morte de um cidadão nem sempre é fácil escolher as palavras certas nestes momentos, mas há limites.
"Ele, que era um homem de apelido Viana, entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado".
Quanto à "força da natureza" e à chuva intensa que se fez sentir.
"A fúria da natureza não foi nossa amiga. Deus nem sempre é amigo". "(...) porque a força da natureza, na fúria demoníaca, embora os ingleses digam que é um acto de Deus, um 'act of God' (...)".
Era escusada tanta polémica política e constitucional em torno da actual conjuntura política.
Era escusado tanto esforço à esquerda para derrubar o Governo.
Porque agora percebemos que a curta duração do XX Governo Constitucional e o anunciado derrube no Parlamento é, afinal de contas, um "act of God" porque nem sempre Deus é amigo.
Um 'recado' ao futuro ex-Ministro da Administração Interna: Deus às vezes não é nosso amigo porque não merecemos.

