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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

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Rosa (em) Choque

O flic flac à retaguarda de António Costa

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Está tudo em suspenso quanto ao desfecho final das eleições legislativas do próximo dia 30 de janeiro. Poderá vencer o PSD? Poderá vencer o PS? Que aritmética parlamentar irá proporcionar o resultado eleitoral? Haverá, novamente, um partido vencedor que não governa e um derrotado que forma governo? Teremos nova e reformulada geringonça (à direita ou à esquerda)? Estará mesmo posta de parte uma eventual maioria, seja do PS ou do PSD?

Há, pelas várias sondagens e amostragens realizadas e publicas, um conjunto de incertezas que só serão desfeitas - pelo menos algumas - durante a noite do próximo domingo.

Mas há, manifestamente, duas certezas.
Começando pela última, que diz respeito ao day after eleitoral, é praticamente certo que Marcelo Rebelo de Sousa, um dos impulsionadores da actual crise política e destas eleições antecipadas (mesmo sem a responsabilidade directa nos pressupostos políticos que a originaram), vai ter uma colossal dor de cabeça e um enorme berbicacho para resolver: que Governo legitimar e de que forma. É que ao Presidente da República, o ano de 2021 (já para não falar do pós-eleições legislativas de 2019... com a clara incerteza quanto à estabilidade da geringonça), tem corrido quase sempre ao contrário: eleito, em janeiro, com cerca de 60% de abstenção (apenas votaram perto de 40% dos eleitores, seria o mês de outubro, de forma inédita na democracia portuguesa, a ditar o chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e a confirmar, politicamente, as "ameaças" de Marcelo Rebelo de Sousa - a dissolução do Parlamento.

A outra certeza reside no facto de toda a estratégica política de António Costa e, obviamente, do PS ter sofrido um revés significativo e ter obrigado o líder socialista e (ainda) Primeiro-ministro a uma campanha triste e cinzenta, sem chama, cheia de incoerências e contradições. Também aqui, no caso de António Costa, o tiro saiu pela culatra.
É hoje, inquestionável, que o PS e António Costa sempre desejaram - e contribuíram para tal, nem que seja pela inércia ou pelo bloqueio - a crise política e o chumbo do Orçamento, como pretexto para as eleições antecipadas. Cansado do BE e do PCP, demasiadas vezes forçado à aprovação de medidas a contragosto, ideologicamente afastadas das linhas programáticas do Partido ou incompatíveis com os compromissos e as regras europeias, António Costa viu, nesta crise política e sabendo das já avisadas ameaças presidenciais de Marcelo, uma manifesta oportunidade de se libertar desta "pressão à esquerda", da linha vermelha soarista intransponível, e tentar conquistar uma maioria absoluta (50+1) que lhe garantisse a "liberdade governativa". E aqui surgiu o primeiro falhanço da estratégia socialista e daquele tantas vezes rotulado de um "estratega político" (sem pretender questionar a experiência política de António Costa). Falhou a percepção de que tal realidade seria possível, falhou a forma como esse "sonho socialista" foi politicamente aproveitado e valorizado na campanha eleitoral. Primeiro, por acusar, exclusivamente, BE e PCP de serem os responsáveis pelo chumbo e pela crise, como se as responsabilidades não fossem tripartidas. Segundo, por ter, pública e literalmente, colocado uma pedra em cima da geringonça e ter afastado, determinantemente, o seu regresso. Terceiro, pela permanente obsessão para com o PSD, levando António Costa a cair num dos mais básicos e infantis erros políticos: a vitimização de terceiros, a calúnia e a deturpação das ideias e mensagens de alheios.
E correu tão mal a António Costa que o  líder socialista, a pouco mais de uma semana do acto eleitoral, se viu obrigado a alterar, quase que para o oposto, o seu discurso e a sua estratégia, ao aperceber-se que a maioria absoluta, não sendo impossível, tornou-se (em parte por culpa própria) numa miragem. Mas até neste contexto, Costa não tem sido, em nada, feliz:
- o eleitorado já percebeu que a tentativa de colagem do PSD ao Chega, o fantasma da "linha vermelha" à direita, apenas tem como objectivo promover o voto na extrema-direita para, aritmeticamente, dividir o eleitorado à direita do PS, facilitando a sua vitória;
- o eleitorado não compreende, nem aceita, que, provocada a crise, com responsabilidade do Partido Socialista e do Governo, António Costa venha, agora, ressuscitar a "Geringonça 3.0" para se manter no poder - e apenas pelo poder - (e tal, como em 2015, nem ser o vencedor das eleições) depois de tudo o que disse e o que aconteceu, depois de ter agitado, em pleno debate e frente às televisões, a bandeira do Orçamento 2022, o tal que foi recusado e que deu origem ao enterro da Geringonça e à crise política;
- a ausência da clarificação de posições políticas quanto à governabilidade e opções de negociação no quadro parlamentar, deixou dúvidas no eleitorado, até mesmo, no eleitorado socialista;
- a opção estratégica, em plena campanha e, anteriormente, nos próprios debates, do foco no PSD e menorizar a importância da valorização do programa e do compromisso do PS com os portugueses e o país, deu origem a um conjunto de erros, de escorregadelas, de posicionamento mediático que beneficiou Rui Rio e o PSD.

Todo esta areia na engrenagem eleitoral dos socialistas, felizmente (no meu caso), serviu para valorizar o papel de Rui Rio no PSD, as suas batalhas e vitórias internas e os interessantes resultados eleitorais autárquicos de 26 de setembro passado; serviu para fazer crescer a afirmação do PSD como alternativa governativa; e serviu, igualmente, para aumentar o número de indecisos que, na hora da verdade, poderão penalizar o PS, votando PSD.

É certo que há um conjunto de desfechos eleitorais possíveis, onde se encaixa, obviamente, a vitória do PS, mas há, por outro lado, uma incerteza enorme que poderá vir a ser penalizadora para as pretensões socialistas e garantir a vitória social-democrata.

E a verdade é que o PS tem, para já, duas manifestas derrotas, mesmo antes da contagem dos votos: perdeu o sonho da maioria e perdeu uma eventual "passadeira vermelha eleitoral" face aos dados que as sondagens e amostras têm apurado: umas eleições legislativas renhidas e disputadas.

post-scriptum: de tudo o que foi (mal e "deturpadamente") dito, há duas notas que, de uma vez por todas e a bem da verdade e da história política, importa destacar, acabando com mitos e fantasmas e com discursos demagogos e surrealistas:
1. Em relação ao valor da governação em (ou com) maioria, António Costa recebeu já o 'recado' do ex-socialista e ex-Primeiro Ministro, José Sócrates. Mas é importante não esquecer ou tentar querer passar uma esponja sobre a história política recente que António Costa foi membro do governo socialista liderado por José Sócrates, governação que levaria, mais tarde (por volta de 2011), o país a uma situação económico-financeira e social catastrófica. É certo que há heranças difíceis de digerir, mas isso não valida, nem legitima o apagar dos factos e da história. Uma história política que não esquece igualmente a forma como António Costa afastou António José Seguro da liderança do Partido Socialista.
2. E no que respeita a heranças, é ainda mais deplorável a comparação usual e abusivamente repetida entre a governação do país no período da Troika (2011-2015) e o contexto actual. Nunca tive qualquer empatia com Passos Coelho e a sua governação - aliás, bem pelo contrário - mas há que ser politicamente sério e honesto. Nem Rui Rio tem os mesmo valor programáticos que Passos Coelho no PSD, nem o posicionam, os dois, da mesma forma no espectro político nacional e muito menos a conjuntura política é a mesma. Portanto, não é sério dizer-se que Rui Rio é igual a Passos Coelho, nem uma eventual governação, hoje, do PSD será igual à de 2011-2015.
E António Costa, apesar de afirmar o seu contrário, sabe-o bem. Sabe que em 2011, o PSD e Passos Coelho foram obrigados a governar num contexto de intervenção interna e de um caderno de encargos assinado e acordado entre o PS e a Troika.
Além disso, António Costa, apesar de afirmar o seu contrário, sabe bem que o início da retoma e a recuperação económica, financeira e social aconteceu entre 2014 e 2015. Uma herança que permitiu a António Costa governar no seu "mar de rosas", com os únicos espinhos, curiosamente, bem vincados à esquerda.

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