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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Seja qual for a dimensão pandémica da realidade... há pessoas a morrer.

Mereciam melhor comunicação. Porque a comunicação importa em tempos de pandemia.

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Num contexto tão particularmente excepcional como o que vivemos desde fevereiro (pelo menos) o maior ou menor sucesso das medidas de excepção que importa implementar para a mitigação deste (ou de outro) surto pandémico como a COVID-19 depende, em grande parte, da forma como o colectivo, a sociedade, encara a realidade e assume a gravidade dos factos e do contexto.
Questões sem resposta, interrogações com respostas dúbias ou generalidades, indefinições ou, ainda mais grave, informação contraditória, levam, claramente, ao laxismo, ao facilitismo, à quebra de regras e normas, à desconfiança e à critica fácil em relação às tomadas de decisão.
Se à comunicação social se exigiu (e exige, permanentemente) um rigor acrescido na informação, a denúncia de informação falsa ou de populismos crescentes, um combate a contextos de exclusão e de ataque aos mais elementares direitos humanos, bem como se pediu que fosse um (importante) veículo complementar de apelo e alerta públicos permanentes...
às várias entidades - comunidade científica, Governo, Direcção-Geral da Saúde/DGS e Organização Mundial da Saúde/OMS, por exemplo) - exigia-se, no mínimo, um maior cuidado na comunicação.
O exemplo da nossa DGS é, consideravelmente, questionável e criticável: o excesso de repetição que leva à banalidade da informação por falta de novidade (pelo menos, relevante), o cansaço público originado por uma incompreensível e injustificável presença mediática diária (as conferências de imprensa DGS x Ministério da Saúde) tem tido como resultado informação contraditória, correcção repetida de dados e números, uma desaconselhada exposição pública que leva, por um lado, ao desgaste e a alguma descredibilidade, por outro, à exposição perante a confrontação com a óbvia e lógica interrogação jornalística ou da sociedade e que se traduz, muitas vezes, na incapacidade de resposta precisa e lógica.
Se o receio, medo, insegurança, percepção e compreensão da realidade levaram a um comportamento louvável de grande parte dos portugueses, seja no confinamento, seja, agora, no desconfinar da vida, também não deixa de ser verdade que tudo poderia ter sido mais fácil e mais rápido se a dúvida, a desconfiança e o descrédito não tivesse assolado tantos portugueses e sectores da sociedade, levando-os à quebra ou não aceitação das regras.
Mas não só...

Não se coloca em causa o facto de estarmos perante um contexto e uma realidade que a todos apanhou de surpresa, para a qual as pessoas, entidades, países e organizações internacionais não tinham qualquer plano estratégico pronto, qualquer política prevista ou acções preparadas. Mais ainda... não se coloca em causa que, do ponto de vista da ciência ainda há muito caminho a percorrer e muita descoberta por fazer e provar.
Mas precisamente por isso, por todo este desconhecido, o rigor na informação, a precisão e estratégia da comunicação deveria ter sido muito mais cuidada.
Não é expectável atingirem-se, de forma mais eficaz e eficiente, objectivos traçados para a mitigação da pandemia quando em apenas 1 mês (ou mês e meio) os cidadãos e entidades com responsabilidade de decisão e planeamento (empresas, associações, autarquias, etc.) foram confrontadas com incoerências como estas:

  • Afinal, devemos ou não usar máscaras?
    No princípio de abril, a OMS e a DGS diziam que o uso de máscara (fora do contexto hospitalar) podia aumentar o risco de contágio.
    A meio de maio, o uso de máscara "social" passa, em dias, de aconselhável a obrigatório, assumindo-se como responsabilidade colectiva (em alguns casos sujeito, inclusive, a multa).
  • A OMS e a DGS apelaram, e ainda hoje apelam, ao excessivo (em termos de quantidade) e permanente cuidado com a higienização e lavagem das mãos, com a roupa e calçado ou com a limpeza regular de espaços. Posto isto que valor tem esta informação se não desvalorizar toda a mensagem até à data difundida?
    «OMS sem provas conclusivas de contágio do novo coronavírus através das superfícies».
  • Durante várias semanas, a documentação oficial da DGS referia o uso de máscara "OU" viseira. Até que, face à confusão instalada, nomeadamente através da posição de vários médicos, os cidadãos (a quem a medida se aplicava) viram-se confrontados com a obrigatoriedade do uso de máscara "E" viseira.
  • A meio de maio, Michael Ryan, director-executivo da OMS para Emergências Sanitárias, tantas vezes repetido pela DGS, Governo e Presidente da República, declarou que, na pior das hipóteses, o novo coronavírus pode nunca desaparecer, passando a fazer parte do "dia a dia" da população.
    Curiosamente (ou não), Karol Sikora, que já foi chefe do programa de oncologia da OMS e é, actualmente, director médico do Centro Oncológico de Rutherford, afirmou (poucos dias depois de Michael Ryan) que «há uma possibilidade real do vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida».
    Então porque é que há malta que não há-de querer e poder ir à praia ou à Festa do Avante?
  • Já no final deste mês, há 4 ou 5 dias, o acima referido Michael Ryan, da OMS, alertou que «não podemos supor que os números de novas infecções vão continuar a descer», advertindo que «temos alguns meses para nos preparamos para uma segunda vaga».
    No mesmo dia, da mesma OMS, foi a vez de Maria Neira, directora do departamento de Saúde Pública da OMS, considerar «cada vez mais improvável uma segunda vaga do novo coronavírus».

Não colhe aqui qualquer subscrição da condenável decisão do, cada vez mais, inqualificável Donald Trump de abandonar a OMS (tal como o declarou ontem... mesmo que amanhã ou daqui a um par de dias venha afirmar que não foi nada disso que quis dizer... vamos esperar para ver).

A verdade é que tantas incoerências e contradições, tanta indefinição tornada, perigosamente, pública (pela OMS e DGS) levam, legitimamente, a que cidadãos, empresas, associações e entidades comecem a questionar as medidas até agora aplicadas (confinamento, desconfinamente, Estado de Emergência e Estado de Calamidade), os impactos que as restrições tiveram, têm e terão na sociedade, na vida das comunidades, na economia e acção social.
E isto, este reflexo nas pessoas, deveria ter sido uma preocupação constante na comunicação da OMS, da DGS/Governo e da Comunidade Científica.

Sejam muitos ou poucos, seja qual for a dimensão pandémica, há pessoas a perderem a vida, há uma sociedade que vai ter que pagar uma factura demasiado alta.
E isso é que deve importar.