Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

29
Dez 14

mundo.jpgO início do ano de 2014 foi assinalado pelo retomar do “braço-de-ferro” entre a Rússia e a União Europeia e os Estados Unidos. Desde a queda do Muro de Berlim, num ano em que se comemorou o 25º aniversário sobre esse marco histórico, que o chamado Bloco de Leste (Pacto de Varsóvia, URSS, Cortina de Ferro) sofria um colapso total, sentido essencialmente na adesão de ex países do Bloco de Leste à União Europeia e à Nato, algo que a Rússia ainda não conseguiu “digerir”. Algo que se deverá agravar com o retomar das relações entre Havana e Washington. Com a crise na Ucrânia, a tensão em Donetsk e a anexação da Crimeia, regressou a memória da “guerra fria”, agora sob a capa de uma “paz fria”.

Mas se este retomar do conflito geopolítico provocado pela Rússia de Putin demorou cerca de 25 anos, as consequências dos ataques a 11 de setembro de 2001 ao “coração económico, militar e político” norte-americano tornaram o mundo num autêntico barril de pólvora político-ideológico-religioso. Quando alguns esperavam que o radicalismo e o extremismo acalmassem com a morte de Bin Laden e o fim da Al Qaeda, o mundo acordou para uma nova realidade no conflito ideológico-religioso extremista: o surgimento do Estado Islâmico, persistente nos conflitos que tem gerado, nomeadamente, no Iraque (a insurreição sunita), mas também espalhados por vários pontos do mundo, sendo estimado um número de cerca de 2000 execuções por parte dos radicais islâmicos.

A conflitualidade bélica foi ainda nota dominante de novo com os confrontos na Faixa de Gaza entre Israel e a Palestina provocando inúmeras mortes e deixando um rasto de destruição, principalmente na zona palestiniana.

E se o mundo é abalado por um inúmero de vítimas, a maioria inocentemente, provocado pelos conflitos bélicos, 2014 registou ainda um outro flagelo: o surto de Ébola que assolou a África central: quase 7700 mortes, cerca de 20 mil casos confirmados, regiões completamente isoladas, transformaram este flagelo numa página bem negra deste ano que agora termina.
Mas 2014 teve outros acontecimentos e características que o marcaram como um ano significativamente convulsivo.

Do ponto de vista político o continente africano foi (e é), nestas últimas 52 semanas, um autêntico “barril de pólvora” social e da luta pelo poder. Há mais de um ano que a República Centro Africana é um país devastado por uma interminável vaga de violência inter-religiosa, e que já levou à apresentação de demissão do Presidente e do Primeiro-ministro (Michel Djotodia e Nicolas Tiangaye, respectivamente). Enquanto Moçambique, depois de alguns períodos de conflitualidade entre o Governo de Maputo e a Renamo, foi a votos com a contestação dos resultados por parte do principal opositor à Frelimo, continua a instabilidade política e social na República Democrática do Congo e em Burkina Faso. Por outro lado, processos eleitorais livres e democráticos trouxeram estabilidade e esperança a outras nações africanas, como por exemplo a S. Tomé e Príncipe e à Guiné-Bissau (readmitida na União Africana, após 2 anos de suspensão, retomadas as relações com a União Europeia e os apoios monetários internacionais). Importa, no entanto, não esquecer toda a polémica e controvérsia que se gerou em torno da inqualificável adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mesmo conhecendo-se o seu historial ditatorial e repressivo e não existindo qualquer manifestação do uso da língua portuguesa.

Mas as crises e as circunstâncias políticas marcaram igualmente a Europa. O crescimento do sentimento de aspiração à independência sustentou a realização do referendo na Escócia que abalou o sistema político britânico e, em Espanha, idêntica pretensão da Catalunha forçou o Governo de Rajoy a usar a força constitucional para barrar as pretensões dos catalães. Por outro lado, ainda em Espanha, no meio de um enorme abalo real por força do desgaste que o processo judicial instaurado à Infanta Cristina e ao seu marido tem gerado, o Rei Juan Carlos renunciou ao trono, sucedendo-lhe o seu filho Filipe, proclamado Filipe VI, Rei de Espanha. Além disso, França e Itália viveram também alguma turbulência política com alterações forçadas na governação: François Hollande viu-se na “obrigação política” de substituir Jean-Marc Ayrault por Manuel Valls no lugar de primeiro-ministro; em Itália, sucederam-se processos conturbados de formação de governos.
O principal destaque na política europeia vai para as eleições para o Parlamento Europeu que ficaram marcadas pelo aumento dos grupos extremistas e anti-europeístas. O luxemburguês Jean-Claude Juncker é eleito para a presidência da Comissão Europeia pelo Parlamento Europeu (sob alguma contestação devido a acusações sobre eventuais fraudes fiscais no Luxemburgo enquanto foi primeiro-ministro), ao recolher no hemiciclo de Estrasburgo 422 votos a favor, 250 contra e 47 abstenções. Mas a aprovação da sua "Comissão " não foi pacífica, iniciando o mandato apenas no início de novembro.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil, após o desaire futebolístico do Mundial, foi a votos e reelegeu Dilma Rousseff num processo eleitoral marcado pela surpresa do candidato que forçou a realização de uma segunda volta e que foi derrotado por uma margem significativamente pequena de votos, Aécio Neves, não deixando grande margem governativa à actual presidente brasileira.

Por fim, a surpresa do ano recai sobre a retoma das relações diplomáticas entre Havana e Washington, com mediação do Vaticano, e a perspectiva do fim do embargo a Cuba que dura há cerca de 50 anos, sem qualquer justificação ou impactos na actualidade.

publicado por mparaujo às 00:05

28
Dez 14

publicado na edição de hoje, 28 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Rebobinar Portugal 2014

Chegados ao final de mais um ano é inevitável recordar alguns dos momentos mais marcantes de 2014. Não nos podemos queixar da “riqueza” factual e de acontecimentos durante este ano que agora termina.

A Política em 2014. As eleições europeias marcaram uma aproximação entre as duas grandes forças políticas europeias: o Partido Popular Europeu e o Partido Socialista Europeu. Mas o acto eleitoral de 25 de maio ficava marcado pelo crescimento dos grupos mais extremistas, radicais e antieuropeístas. Em Portugal, as eleições para o Parlamento Europeu resultaram numa crise interna no Partido Socialista que não descolou do PSD/CDS e colocou em causa a liderança de António José Seguro. Apesar da sua característica europeia os resultados eleitorais de maio tiveram um forte impacto nacional. O PS, mesmo tendo sido o partido mais votado (e ter ganho as eleições), foi o que mais “sofreu” com o processo eleitoral: a inovação do processo das primárias para a escolha do candidato socialista a primeiro-ministro, em 2015, resultou na destituição de António José Seguro e na confirmação de António Costa à frente dos destinos dos socialistas. Além disso, 2014 ficou marcado pelas trapalhadas governamentais surgidas nos ministérios da Justiça e da Educação, através do novo mapa judiciário e da polémica envolvendo o programa Cituis, ou da surreal colocação de professores no início de mais um ano lectivo. Inacreditavelmente, os dois ministros “sobreviveram”.

A Economia em 2014. O ano é marcado pelo fim do programa de ajuda externa e a saída da Troika. O Governo mantém o discurso da recuperação financeira e económica do país, mas a UE, mesmo após o fim do resgate mantêm-se preocupada quanto às reformas necessárias para a consolidação das contas públicas e a melhoria da economia nacional. Entretanto, em 2104, Portugal terá despendido mais de sete mil milhões de euros com encargos com a dívida (juros e comissões no âmbito do empréstimo de resgate). Mas o colapso do BES, considerado o maior banco português, marcou definitivamente todo o panorama financeiro nacional com a queda da instituição bancária tida como o motor da economia portuguesa e a queda do maior mito da gestão bancária, Ricardo Salgado, envolvido numa teia infindável de ilegalidades e crimes, bem como numa guerrilha familiar. E o fim da influência do “dono disto tudo” (apresentando agora como “vítima disto tudo”) não teve apenas impactos no BES. Entre muitas empresas há a destacar, por exemplo, os danos colaterais provocados na PT e na Oi com as demissões de Henrique Granadeiro e de Zeinal Bava, e a incerteza quanto ao futuro da empresa de telecomunicações até então intocável.

A Justiça em 2014. Este foi, clara e indiscutivelmente, o ano do poder judicial. Com vários processos ainda em curso, como por exemplo os do BPP e BPN, o primeiro “abanão” da justiça veio através do acórdão do processo “Face Oculta”: o Tribunal de Aveiro condenou o antigo ministro e ex-vice-presidente do BCP Armando Vara é a cinco anos de prisão efectiva, o ex-presidente da REN José Penedos a cinco anos de prisão efectiva, em cúmulo jurídico, e o sucateiro Manuel Godinho a 17 anos e seis meses de prisão. Pouco tempo depois a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues é condenada a três anos e seis meses de prisão com pena suspensa, por prevaricação de titular de cargo político. Pelo meio surgia o caso dos Vistos Gold envolvendo cúpulas da administração central e que levou à demissão do então ministro da Administração Interna, Miguel Macedo. Não esquecendo ainda o arquivamento, por falta de provas e eventual prescrição, do processo da aquisição dos submarinos e que envolvia o nome do ministro Paulo Portas; ou ainda a total trapalhada do caso Tecnoforma que levou Pedro Passos Coelho a surreais “cambalhotas explicativas”. Mas a confirmação de que algo (resta saber se positivo ou não) estava a mudar na Justiça portuguesa surgiu nesta parte final do ano, no âmbito da operação “Marquês”, com a detenção nunca imaginada (nem vista) do ex-primeiro ministro José Sócrates, actualmente detido no estabelecimento prisional de Évora, em prisão preventiva, enquanto se desenrola a fase de instrução e o culminar das investigações. Processo que funde a justiça com a política, por mais que se queira delimitar as duas realidades: o envolvimento de ex-governante e ex-político; a “originalidade” na detenção de um ex-primeiro ministro; os impactos político-partidários que podem, eventualmente, influenciar as próximas eleições legislativas; entre outros. Mas não queiram, alguns, partidarizar a acção judicial, sendo que qualquer ‘vanglorização’ face aos acontecimentos acaba por ter o reverso da medalha. Basta que olhemos para outras investigações em curso envolvendo figuras políticas relevantes (Paulo Campos, PS; Filipe Menezes e Marques Mendes, PSD; como meros exemplos).
Que 2014 foi o ano da Justiça, pelas mais diversas e distintas razões, não haja qualquer dúvida.

publicado por mparaujo às 11:40

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