Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

23
Set 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 23 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ser o dono da solidariedade

Excluindo uma ténue e frustrada tentativa de colar a situação trágica dos refugiados à campanha eleitoral, a verdade é que os partidos souberam, até à data, não politizar, nem partidarizar, o sofrimento humano de milhares de pessoas que procuram o seu sonho, que fogem da morte à porta de casa, mesmo que, pelo desespero, tenham que enfrentar a morte. Apesar disso, há ainda, volvidos quarenta anos após o 25 de Abril, quem entenda que a solidariedade pertence à esquerda, tal como a cultura (a esquerda é elitista, a direita é pimba), a liberdade e a democracia (o trauma do 25 de novembro). Só que a solidariedade não tem dono, não é pertença de ninguém; é um dever cívico, social, humanitário que cabe a todos, e do qual ninguém deve e pode retirar proveito, louros ou aplausos.

Por isso, é estranho que o BE de Aveiro tenha levado, na passada sexta-feira, o tema à Assembleia Municipal de Aveiro para o confronto político-partidário, colando (voluntariamente ou não, não é isso que está em causa, nem vou fazer juízos de valor nesse sentido) a tragédia dos Refugiados ao momento eleitoral que atravessamos, seja pelo questionar político da Câmara Municipal, seja pelo confronto partidário e ideológico, principalmente com os partidos à direita. Não faz sentido.

Este é um grave problema humanitário, social e geopolítico que importa debater, consciencializar e não deixar morrer. E, como já o disse aqui várias vezes, a Europa tem responsabilidades, não apenas na forma desconcertada, criticável e condenável como tem gerido o fluxo de entrada e acesso dos refugiados aos países do “velho continente”, mas também pela forma, directa ou indirecta, com mais ou menos participação activa, como olha e sempre olhou para o Médio Oriente, para o Norte e Centro de África. A responsabilidade é única? Não… é imensamente repartida, seja pelos países árabes vizinhos, seja pela ONU, pela NATO, pelos Estados Unidos, pela Rússia e pela China. Mas a Europa tem responsabilidades. Teria sido um exercício político diferente se o BE Aveiro tivesse abordado a questão por esse prisma, e, para tal, não precisava da Assembleia Municipal de Aveiro para palco. Tem a campanha, os seus próprios meios, a rua (enquanto contacto com o povo).

É que a responsabilidade política, social, humanitária e cívica, não se confina apenas às quotas de acolhimento de refugiados, pelo cumprimento, mais ou menos, escrupuloso dos tratados internacionais (por exemplo, os resultantes da Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949). Há um grave problema na origem, há um grave problema no destino, que urge e importa resolver, por todos (estados, instituições internacionais, sociedade civil, cidadãos), sem esquecer, no caso português e europeu, o que nos ensinou a história: (mesmo sem guerra) os fluxos de emigração nacionais nas décadas de 50 e 60; o regresso de milhares de refugiados e retornados da guerra colonial no pós 1974; o fluxo de judeus que fugiram da Alemanha, Polónia, Áustria, recordando aqui o papel de Aristides de Sousa Mendes, por exemplo; a fuga em massa de refugiados húngaros na crise política daquele país em 1956. E é importante recordar a história, mais não seja porque este problema não é de agora, nem é dos dias de hoje: reza a história dos factos que o primeiro fluxo de refugiados deu à costa europeia em 1992, na “tradicional” Lampedusa, e no início da década de 2000 já Malta era “invadida” por inúmeros refugiados, sem esquecer Ceuta e Melilla que tanta dor de cabeça dão a Espanha.

Não faz sentido partidarizar uma questão que, embora também política, tem a preocupação de muitos (infelizmente não de todos): Estado, Instituições Sociais (basta ver o recente exemplo da criação da Plataforma de Apoio aos Refugiados), Igreja, Autarquias (individualmente ou em associação), Freguesias e Cidadãos (os portugueses angariaram/deram 50 toneladas de bens para ajuda dos refugiados). Ao poder político cabe encontrar respostas e soluções políticas e sociais. A todos cabe a responsabilidade da solidariedade. Importa é não deixar “morrer”.

publicado por mparaujo às 09:43

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