Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

26
Mai 13

Publicado na edição de hoje, 26 de maio, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

Mobilidade (in)segura

Ao nível das redes sociais não tem havido descanso, nos últimos dias quanto à participação cívica, ao debate e à reflexão sobre mobilidade ciclável na cidade, ao ponto da temática me merecer, publicamente, uma terceira reflexão: “a questão da segurança na circulação ciclável na cidade de Aveiro”. Será ou não um mito? Ou se quisermos, relembrando o artigo de quarta-feira passada, mais uma desculpa para a não alteração de hábitos de mobilidade. Por uma questão de gestão de espaço e esquematização de conceitos/ideias permitam-me o recurso a simples tópicos, que espero resultem na contribuição para um eventual debate/reflexão. Importa destacar que a referência se situa no âmbito da mobilidade quotidiana (e não o lazer ou desporto).

1. A insegurança é, face a múltiplos factores sociais e à conjuntura actual, uma preocupação acrescida nos dias de hoje: as crianças não brincam livremente na rua como há uns anos (valentes); não se anda facilmente a pé por determinados sítios ou a determinadas horas, entre outros exemplos. Na mobilidade, especificamente na ciclável, a insegurança prende-se, essencialmente, com dois factores: um ao nível da prática/aprendizagem, da experiência e da confiança; e outro ao nível das acessibilidades e infraestruturas.

2. Por norma, em centros urbanos com a dimensão e escala da cidade de Aveiro, infraestruturas dedicadas, ciclovias, canais próprios, são sinónimo de maior segregação da bicicleta e mais facilitadores e promotores do excessivo continuado uso e recurso ao automóvel que, assim, se vê “dono e senhor” da rede viária. Além disso, Aveiro não tem, salvo raras excepções, zonas problemáticas de excesso de velocidade de tráfego. Aliás, com o aumento do volume automóvel surgem os conflitos de circulação e, normalmente, diminuem as velocidades, de forma natural.

3. A implementação de ciclovias sem que para tal haja dimensão viária, nem condições físicas, para tal, tornam-se mais rapidamente num problema do que na solução. Veja-se a marcação da ciclovia na Avenida (onde ela ainda possa ser visível) com estacionamento sobreposto ou o perigo que existe para o ciclista quando algum carro estacionado decida abrir a porta do lado do condutor. Por outro lado, a implementação de ciclovias para uma mobilidade quotidiana tem, em espaço urbano, naturais conflitualidades com cruzamentos, rotundas ou necessárias mudanças de direcção (principalmente à esquerda). Excluindo, com muito esforço, a Ponte de Praça, Aveiro não tem zonas de conflito acentuado e tem a particularidade de ser extremamente plana.

4. Face aos dados (último censos) que nos revelam que 90% das deslocações em bicicleta se efectuam nas freguesias periféricas, é curioso que os ciclistas se mostram mais seguros face a vias com maiores velocidades de tráfego, mesmo que com eventual menor volume. Recordo que durante vários meses, numa das acções do projecto ciclável LifeCycle houve alunos a deslocarem-se, diariamente, entre Azurva e a escola EB 2,3 de Eixo de bicicleta pela “assustadora” EN230.

5. É evidente que, para facilitar a segurança, tem de haver uma complementaridade de informação e prevenção, tal como, por exemplo, foi feito pelo projecto LifeCycle no exemplo referido (foto). Se a política de mobilidade for direcionada para o uso e recurso da mobilidade ciclável terá, forçosamente, de existir uma prioridade para a bicicleta na partilha do espaço público com o automóvel, tal como prevê o recente estudo para a requalificação da Avenida (sem ciclovias projectadas).

6. Por último, quanto menor for a segregação (salvo evidentes situações de conflito) e maior for o uso da via pública por parte da bicicleta, maior será a acalmia do tráfego e maior será o respeito do automobilista pelo ciclista. Em Paris, com o interessante projecto de mobilidade Vélib (20 mil bicicletas fabricadas em Águeda e cerca de mil parques), não existem canais dedicados. Nas zonas de claro conflito (não se compara Aveiro a Paris) a circulação faz-se partilhando os canais de BUS mas com definida prioridade da bicicleta sobre o transporte público.

7. Perigo e insegurança é o uso indevido e incorrecto da bicicleta com a circulação nos passeios, nas passadeiras, em contramão, etc. Isso sim, é clara insegurança rodoviária. A maior ou menor sensação de segurança resultará sempre da maior ou menor experiência ciclista, tal como com a maior ou menor aptidão para conduzir um automóvel.

Nota final: exclui-se, propositadamente, da reflexão o estado das vias porque esse é um factor limitativo para a mobilidade ciclável, como para os malfadados amortecedores dos automóveis.

publicado por mparaujo às 14:01

22
Mai 13

Publicado na edição de hoje, 22 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Modos suaves… uma questão cultural?

A União Europeia consagrou o ano de 2013 como o Ano Europeu do Cidadão. Um dos objectivos passa por uma participação mais activa dos cidadãos, não só no conhecimento e nas causas europeias, mas também nas suas comunidades e nos meios onde estão envolvidos. Como referi na edição de domingo (“Entre a Proa e a Ré… Paixão pelas BUGA”) sem qualquer constrangimento no aproveitamento do mediatismo eleitoral, mas sem entrar em partidarismos ou politiquice, surgiu um espaço de participação cívica para o debate de ideias e conceitos em torno da mobilidade, mais concretamente em relação à mobilidade ciclável e à BUGA (Repensar a BUGA). No início do projecto, concretizado nos finais de 1999 e princípios de 2000, à semelhança do que acontece em países como a Holanda, a Bélgica ou a Dinamarca, o objectivo era muito claro: promover junto dos aveirenses, no seu quotidiano, um meio de transporte que facilitasse as deslocações, mesmo que pontuais, de curta distância, permitindo uma melhor qualidade de vida na cidade, uma melhor mobilidade urbana. No entanto, rapidamente a BUGA se converteu, por força da tipologia do seu uso, num projecto de lazer de alguns aveirenses e uma marca de turismo para quem nos visita. E esta realidade deve ser bem ponderada quando queremos falar de “Repensar o Projecto BUGA”. Que tipo de projecto? Que tipo de mobilidade?

Ao envolver-me num projecto europeu coordenado em Aveiro pela, à data, responsável pelo Gabinete de Mobilidade da Autarquia, Eng. Arminda Soares, (o projecto Life Cycle), foi notório através das acções realizadas junto das escolas, da Universidade (com o Prof. José Carlos Mota), das empresas, da própria cidade, que não existe uma cultura, uma mentalidade, de mobilidade suave, concretamente, com o recurso à bicicleta. As razões podem ser diversas e todas aceitáveis e válidas. Mas a verdade é que a bicicleta não é ainda, ou deixou de ser, um modo de mobilidade do quotidiano dos aveirenses nas suas deslocações casa-emprego, casa-escola, ou acções pontuais. Sem deixar de ser importante, a bicicleta é um recurso de lazer ou de mobilidade saudável (saúde e bem-estar). É muito difícil que esta realidade se altere. A mentalidade e a cultura do automóvel, o comodismo e um aparente bem-estar social, relegam a bicicleta (e por arrasto o projecto BUGA) para realidades muito distintas da mobilidade urbana. Não é uma questão de segurança ou insegurança rodoviária, não é uma questão de infra-estruturas dedicadas (até porque há muitos estudos e teorias que defendem a partilha do mesmo espaço entre bicicleta e automóvel, quer para benefício da primeira, quer por questões de acalmia de tráfego, salvo raras excepções para situações de claro conflito com a circulação, nomeadamente com vias rápidas onde a velocidade é mais elevada, ou a tipologia viária permite corredores, ciclovias ou canais dedicados) nem será uma questão de equipamentos (até porque o valor de uma bicicleta não é, hoje em dia, assim tão elevado). É, notoriamente, uma questão cultural. Basta olharmos os dados que o Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território, da Universidade de Aveiro, recentemente divulgou: um excessivo número de distâncias de muito curta duração, temporal e métrica, realizadas em automóvel, e um número muito reduzido (contrariando os valores da região, como por exemplo, Ílhavo e Murtosa) de viagens com recurso à bicicleta (1351, sendo que a grande maioria, cerca de 90%, se realiza nas freguesia limítrofes e não na malha urbana). Um dado que, durante o projecto, se mostrou óbvio: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… e o mundo é feito de mudanças”. Há cerca de três/quatro décadas, não mais, terminava-se a quarta classe (hoje 1º ciclo) e recebia-se uma bike nova de prenda; hoje recebe-se uma consola, um iphone, um computador. Há cerca de três/quatro décadas, não mais, terminava-se o curso superior e recebia-se de prenda a carta e o carro (na maior parte dos casos, em segunda mão ou até herdado); hoje, termina-se o 12º ano, entra-se na universidade com a carta e o carro novo. Há cerca de três/quatro décadas, não mais, brincava-se na rua, aprendia-se a andar de bicicleta na rua; hoje não há espaços (parques e zonas verdes) para que os mais novos brinquem ou aprendam a andar de bicicleta. A mobilidade ciclável em Aveiro é uma questão cultural e política: são urgentes políticas, sem grandes custos, mas permanentes (sem serem pontuais ou focalizadas) para que haja uma clara alteração de mentalidades e cultura. A bicicleta não é sinal de inferioridade, mas sim de igualdade social na diferença como encaramos a mobilidade e o futuro das cidades.

publicado por mparaujo às 07:48

19
Mai 13

Publicado na edição de hoje, 19 de maio, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

Paixão pelas BUGA

Nestes últimos tempos, em Aveiro, muito se tem falado de política de mobilidade (ou da eventual falta dela). O tema tem vindo a público pelo concurso dos quatro parques de estacionamento e da concessão do estacionamento à superfície, pela concessão do transporte público de passageiros ou pela extinção da MoveAveiro. Altura para relembrar alguns projectos que envolveram a autarquia como o LifeCycle, o ActiveAccess ou o projecto Rampa, embora este mais vocacionado para as acessibilidades. Normalmente e na maioria dos casos a acessibilidade (complementar ou em ‘oposição’ à mobilidade) implica investimento (pequeno ou volumoso): intervenção no espaço público, na rede viária ou construção de novas vias, no edificado, a título de exemplo. Já a mobilidade, apesar da maioria das suas vertentes e da sua aplicabilidade requerer, igualmente, investimentos e recursos financeiros, também é um facto que algumas das suas políticas sustentam-se numa alteração de costumes, de cultura, de princípios, de hábitos quotidianos, sem custos ou com encargos diminutos. E estes princípios dizem respeito a todos: à autarquia e a entidades reguladoras (promoção de políticas e medidas) e aos cidadãos, no que se refere à concretização das mudanças de mentalidades e hábitos.

O que importa aqui reflectir é este papel de inclusão dos cidadãos, porque agentes activos, no desenvolvimento e na promoção de uma mobilidade sustentável. É óbvio que a mobilidade, para ser eficaz e ter eficiência, não deve ser sectorizada. Quanto mais abrangente, mais diversificada, mais complementar nas suas vertentes, mais sustentável ela será. No entanto, tem-se falado muito de trânsito, de estacionamento, de parqueamentos, de automóveis, de pontes e túneis, da MoveAveiro, da sua extinção, concessão e privatização, mas, curiosamente, pouco relevo e papel se tem dado a um sector, projecto, que já deu prémios, que foi referência na mobilidade urbana, mas que tem ficado na zona mais escura/cinzenta do debate: as BUGA. Muitas soluções podem ser encontradas para a (re)vitalização do projecto. Um projecto que iniciou o seu percurso em finais de 1999 e início de 2000, essencialmente, na altura, à semelhança duma Dinamarca ou Holanda, para permitir novas formas de mobilidade urbana aos aveirenses, acabou por se tornar, fundamentalmente (com responsabilidade de todos) numa vertente turística (mais até que de lazer), ao ponto de, em 2007 ou 2008 (sem precisão), o Turismo do Centro ter realizado um inquérito a quem visitava Aveiro. À pergunta sobre a referência simbólica de Aveiro, quando se esperava que a maioria respondesse os Ovos-Moles ou os Moliceiros, eis que surge a BUGA como a mais referida. Houve quem se esforçasse por não deixar cair o projecto (lembro-me do papel, quantas vezes inglório, da ex-coordenadora da mobilidade na autarquia, a Eng. Arminda Soares), a própria autarquia tentou reformular o conceito e o papel do projecto, “esbarrando” nas dificuldades conjunturais, estruturais e financeiras conhecidas (às quais se junta a ausência de projectos de investimento ao nível do QREN). E se a Câmara Municipal e a MoveAveiro têm, apesar das dificuldades, mantido o seu funcionamento, a bem da verdade e por uma questão de justiça, há alguém que se recusa, determinantemente, a deixar “morrer” o projecto: o Sr. Alcino. Exemplo de dedicação, de entrega, de paixão pela “sua” causa, mesmo que com teimosia ou alguma aversão à mudança, o facto é que, com o seu cansaço, alguma desilusão, mas sentido de responsabilidade e zelo, a ele se deve a sobrevivência da BUGA na cidade.

Contará, agora, com a “ajuda” de um projecto de participação cívica, sem politiquices ou partidarismos, aproveitando legitima e naturalmente, o mediatismo eleitoral autárquico para, pelo menos, “Repensar a BUGA”.

A ver vamos…

publicado por mparaujo às 08:36

30
Mar 11
Publicado na edição de hoje, 30 de Março, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
A opção somos nós!



Por comodismo, por natura, por dificuldades diversas, temos sempre o “mau hábito” de “sacudir a água do capote” e ficar comodamente, mesmo que criticamente, à espera que o Estado, as Instituições, o Poder (nacional, regional ou local) resolvam todos e quaisquer problemas (apesar de reconhecer alguma incapacidade de resposta e de responsabilidade pelos estruturas de gestão da nação).
É este um estado generalizado, corrente, de grande parte da sociedade: criticamos, mas, ao mesmo tempo, resignamos. A título de exemplo…
Recentemente a Câmara Municipal de Aveiro lançou um vídeo promocional do uso da bicicleta (realizado por Miguel Mendes, apresentado em Sevilha e divulgado no Youtube – busca por “Aveiro Lifecycle”), enquadrado no âmbito dos objectivos de um projecto europeu de mobilidade saudável – Life Cycle – do qual a autarquia aveirense foi parceira oficial (o projecto termina no próximo mês de Maio). Durante cerca de dois anos, a coordenação do projecto promoveu um conjunto de iniciativas, ao nível das escolas, das empresas, da universidade, da comunidade aveirense em geral, com o objectivo principal de promover o uso da bicicleta como modo saudável de mobilidade no quotidiano dos cidadãos. Um modo saudável que passa pela questão da saúde, da qualidade de vida, da mobilidade e da melhoria do espaço urbano. Um modo saudável que promovesse a bicicleta e a colocasse em equidade com o automóvel no que respeita à mobilidade e ao direito ao uso do espaço urbano, nomeadamente nas vias rodoviárias.
Mas a verdade é que a generalidade das pessoas acha isto um facto importante, em muitos casos uma necessidade e uma urgência. Muitos dos que visionaram o vídeo acharam-no espectacular, muito bom… mas continuamos a ver as ruas de Aveiro com carros, a não termos sítio onde estacionar, a não haver espaço para uma mobilidade sustentável e sustentada.
E o que fazemos? Muitos de nós aveirenses, onde por “mea culpa, me incluo.
Criticamos, com razão, a falta de espaços verdes, de lazer, espaços que permitam que as crianças aprendam a andar de bicicleta (quando antigamente o fazíamos na rua – hoje, não se brinca na rua). Afirmamos que Aveiro é uma cidade plana, amiga do ambiente, ciclável.
Mas somos igualmente capazes de encontrar insegurança onde, na prática, ela não existe ou é uma percepção errada da realidade. Quão inconscientes são os milhares de estrangeiros que já experimentaram andar de bicicleta na nossa cidade?
Esperamos por uma BUGA e desculpamo-nos com um sistema que espera novo relançamento de imagem quando, hoje, é tão simples ter bicicleta própria.
Desculpamo-nos com as condições climatéricas. Desculpamo-nos com as exigências do dia-a-dia, stressante, preenchido com inúmeros afazeres pessoais e profissionais.
No fundo, tudo serve, para mantermos o conformismo, a rotina, a apatia e a resignação.
Como diz o texto promocional “(…) existe aquilo que tu escolhes fazeres porque tudo na vida são opções (…). Aveiro escolheu a bicicleta”. E nós?!
publicado por mparaujo às 09:35

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