Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

04
Set 13

Publicado na edição de hoje, 4 de setembro, no Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Aveiro e o turismo fluvial

Quando escasseia a contribuição económica suscitada pela presença, significativa, da vertente da produção, as comunidades (concelhos, regiões) tendem a procurar outras áreas de desenvolvimento económico que permitam a sustentabilidade das regiões.

Uma das alternativas poderá ser a do recurso à fixação da área dos serviços e/ou da tecnologia, aliás numa necessária e pertinente ligação com a excelência da Universidade de Aveiro.

Outra, porém, poderá recair na exploração e no investimento nos patrimónios naturais existentes.

No caso de Aveiro, havendo a dificuldade de fixação de indústrias produtivas de média e grande capacidade de investimento (para além dos exemplos da Vulcano, Funfrap, Portucel, C.A.C.I.A., Aleluia, Martifer ou a LoveTiles/Margrés) também é um facto que, infelizmente, vão rareando os investimentos (tem sido adiado o anunciado alargamento da área de produção da Portucel), outros vão fechando as portas pela crise gerada (Fábrica Campos, Casal, Mavirel, Makro, …) e gorou-se a oportunidade de ver implantada a fábrica das baterias Nissan/Renault, por exemplo.

Não sendo desejável que Aveiro perca este objectivo estrutural para a economia do Concelho e da Região, para além da necessidade de se repensar e reformar as áreas industriais existentes (Cacia, Taboeira e Mamodeiro), a verdade é que o Município tem de ser capaz de encontrar formas de contrabalançar esse défice produtivo: a aposta no turismo e, mais concretamente, naquele que está directamente relacionado com a Ria de Aveiro.

O tema tem tido, curiosa e felizmente, alguns ecos nas campanhas eleitorais aveirenses (ou, pelo menos, de alguns). Do meu ponto de vista pessoal com alguma pertinência. Aveiro tem tido, por força da realidade conjuntural dos últimos anos (quer no país, quer na região), bastantes dificuldades financeiras que permitam muitas “festas”. Mas há prioridades que não podemos descurar. Da mesma forma que existiu capacidade de financiamento para a necessária requalificação urbana do Alboi, Baixa de Sto. António, Parque D. Pedro (e envolvente, como as capelas) e o Parque/Fonte dos Amores, com inclusão da Casa da Sustentabilidade, também deverão ser consideradas outras prioridades de regeneração urbana: a urgência da Avenida; a zona nascente da Estação (antigo Bairro do Vouga e prolongamento da zona da Forca); a possibilidade de se criar uma nova mancha ambiental com a criação de um novo Parque da Cidade na zona nascente da Av. 25 de Abril; a Baixa de Vilar; a zona lagunar; o Rio Novo do Príncipe, a Ribeira de Esgueira, a zona ribeirinha de Eixo, a Pateira de Requeixo… e, principalmente, o aproveitamento ambiental, turístico, lazer e desportivo da zona da antiga Lota e de todo o esteiro que vai até ao Porto de Pesca da Gafanha da Nazaré. Esta era uma verdadeira aposta abrangente do ponto de vista de desenvolvimento económico, contemplando áreas como a educação e monitorização ambiental; a preservação da história e cultura ligadas ao salgado aveirense; a criação de condições para a prática desportiva náutica (envolvendo Sporting de Aveiro e Galitos, por exemplo, e ainda a realização de competições como o Triatlo ou a pesca desportiva); o desenvolvimento do turismo com a criação de uma marina de recreio, restauração e hotelaria); actividades ligadas ao ecoturismo.

A área é navegável, existem marinhas de sal que podem ser reabilitadas, existe o Ecomuseu da Troncalhada, existem bons acessos (como o caso da A25) e existe espaço geográfico suficiente (a antiga lota, o TIR/TIF, as marinhas, o antigo porto comercial, …).

É, claramente, uma área privilegiada para a promoção da regeneração urbana, ambiental, cultural e desportiva. Infelizmente, pela periferia (mesmo que encostada à malha urbana) essa zona lagunar da cidade teima em ficar esquecida e abandonada, apesar do potencial económico suficiente para dinamizar Aveiro e a Região. Pena que o projecto Pólis não tenha tido a possibilidade de criar mais valor nessa zona envolvente ao limite da cidade.

Para além disso, é indiscutível que a promoção de investimento desta natureza e nesta área traria uma mais-valia evidente ao turismo e ao próprio comércio em Aveiro.

Haja vontade, capacidade de inovação e criatividade para a promoção de investimento.

Não fiquemos apenas pela sobrecarga dos canais urbanos que muito dificilmente aguentarão tanta concorrência e tanto usufruto desse património natural e do postal aveirense que é o Canal Central Urbano da Ria.

Num futuro, qualquer dia, tudo quisemos e tudo perdemos, por irreparáveis que serão os danos que estão a ser causados no canal e nos muros urbanos da Ria.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 10:25

18
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 18 de agosto, do Diário de Aveiro (sem a foto cujos créditos corresponde ao site da Rádio Renascença).

Cagaréus e Ceboleiros

“Vida por Vida”… levado à ‘letra’

“Vida por Vida” é o conhecido lema dos bombeiros portugueses.

O Verão é uma época do ano que deveria ser lúdica, cheia de prazer e gozo, resultado de uma merecido descanso após um ano laboral. Mas com ele não vem apenas o sol, a praia, o mar (ou os rios e albufeiras) e o calor… este, principalmente, traz um verdadeiro flagelo: os incêndios.

Infelizmente é um processo cíclico que marca, de forma dramática, o país e esta época do ano.

Este flagelo dos incêndios, que proliferam de norte a sul, deixa o país à beira de um ataque de nervos. É um problema repetido verão após verão, desleixado ao nível governamental e local: planos municipais de prevenção, maioritariamente, inexistentes; falhas na prevenção; falhas nos recursos a disponibilizar aos bombeiros (corte no financiamento de cerca de 30%) e protecção civil; e, muitas vezes esquecido, falhas na elaboração e aplicação de um plano de (re)florestação nacional consistente e estável.

Sem um combate permanente e uma acção constante planeada, anualmente, o país perde (“arde”) a nível económico, ambiental e social. Mas mais importante que as perdas do país é o desespero vivido por muitas famílias e comunidades que vêem os seus bens, total ou parcialmente, destruídos.

Para além das questões ambientais, económicas e sociais, os fogos servem igualmente para um desfile de opiniões, críticas, acusações. Curiosamente, seja qual for o sector da sociedade civil (autárquico, político, cidadãos, governo) os Bombeiros são, em alguns casos, o alvo preferencial das criticas: ou porque demoraram a surgir para o combate ao incêndio; ou porque são ineficazes e falta-lhes estratégia; ou porque são adjectivados de ‘amadores’, mal preparados e mal formados (esquecendo-se que são considerados dos melhores bombeiros do mundo); ou porque são descuidados, precipitados e negligentes.

Depressa as pessoas se esquecem de que, na hora da aflição, é a eles que recorremos em primeiro lugar (muitas vezes, e são várias as histórias conhecidas, por tudo e por nada). Depressa as pessoas se esquecem de quem perde a vida pelos outros, pelos bens dos outros, só pelo serviço comunitário, pelo espírito de missão e voluntariado, de forma desinteressada… são os bombeiros. E, infelizmente, são já muitos os que partiram (segundo os dados dos Bombeiros de Portugal, desde 1980 e até à sexta-feira passada – incêndio na Covilhã/Peso, faleceram 104 bombeiros no combate a incêndios). A média estatística poderia trazer valores (pouco mais de três mortes por ano; este ano registam-se, à data, duas mortes) que correriam o risco de parecerem irrelevantes, não fosse o caso de se tratarem de vidas humanas. Nem uma que fosse, seria, por si só, algo que se lamentaria, como se lamenta que todos estes 104 bombeiros tenham perdido a vida, só porque por vontade própria e por vocação pessoal decidiram dedicar o seu esforço e a sua vida aos outros. A gratidão é dos gestos mais nobres na relação humana. Não seria mais que uma evidente obrigação uma maior atenção (reconhecimento social e apoio financeiro) do Governo, das Autarquias, das comunidades e dos cidadãos para com as corporações de bombeiros e pelos seus voluntários. Pessoalmente, só posso dizer: Obrigado.

O mais recente trágico falecimento de um bombeiro na Covilhã (do qual o relato dos acontecimentos explicado, por exemplo, pelo presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Soares, quer na RTP, quer no Diário de Notícias de sexta-feira, é, no mínimo, “arrepiante”) faz trazer à memória, não só os factos acima descritos, como, de novo, as notícias relacionadas com a situação insustentável dos Bombeiros Novos de Aveiro, agravadas neste mês (depois das últimas dificuldades sentidas em Abril passado).

Hoje, as comunidades e Aveiro, em particular, têm de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições em diversos sectores e áreas. É o caso de algumas vozes tornadas públicas (por exemplo, na Assembleia Municipal), às quais me junto, que defendem a fusão das duas corporações de bombeiros, dando-lhes uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.

Questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável.

O contrário, face às novas realidades sociais e económicas que vivemos (e que muito dificilmente verão “melhores dias”, num futuro próximo), poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência, não apenas dos Bombeiros Novos, mas, eventualmente, das duas instituições.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 13:39

11
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 11 de agosto, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Regeneração histórico-cultural

Há duas semanas a menção neste espaço recaiu sobre o Sal (Salgado Aveirense) como referência do património social e cultural da história de Aveiro. Aí foi focado um dos aspectos mais importantes para a vitalidade e sustentabilidade de uma comunidade: a sua regeneração urbana como factor de preservação da história e cultura dessa mesma comunidade. Embora o conceito de regeneração/reabilitação no campo do planeamento urbano seja bastante abrangente, não recaindo exclusivamente sobre o edificado, o facto é que uma das importantes vertentes da história do Salgado Aveirense reside no seu património edificado – os palheiros do sal, para além, obviamente, das marinhas.

Apesar do Salgado Aveirense, que marcou, juntamente com a cerâmica, o património histórico de Aveiro, ter vertentes ambientais, económicas, sociais e culturais que definiram um passado da cidade e da região e que marcaria o seu futuro, o seu edificado (os Palheiros do Sal), concretamente o que ainda resta na zona envolvente ao Canal de S. Roque é parte importante e relevante desse património e dessa história que construíram Aveiro. A temática tem sido, recentemente, alvo de “atenção” por parte de vários aveirenses após o conhecimento público da eventual perda dos Palheiros do Sal do estatuto de Imóvel de Interesse Público. Curiosamente, para não usar outra adjectivação, após o despacho de homologação do Ministério da Cultura, em 2003, que classificou os “Palheiros do Sal” como Imóveis de Interesse Público que os mesmos, por falta de publicação em Diário da República, mantêm a inqualificável situação de “em vias de classificação”.

É indiscutível que o desaparecimento ou mesmo a transformação dos palheiros significa a perda de uma parte considerável da história aveirense e logo quando é notícia o aumento do número de marinhas (de sete para oito) para a safra deste ano (ver Diário de Aveiro de 26 de junho de 2013). É certo que é apenas mais uma (por enquanto) mas contribui para que uma parte significativa e importante da história e identidade aveirense não desapareça. Para isso já bastam os barreiros, a cerâmica, o azulejo, os moliceiros sem proa e a “raiar o veneziano”, as muralhas, o aqueduto, as várias festas (Sra. das Febres, por exemplo) e feiras (a da cebola). O facto é que a tradição e a identidade se mantém com o “dia da botadela” nas marinhas da ‘Santiaga da Fonte’, ‘Passã’, ‘Troncalhada’, ‘Grã Caravela’, ‘Senitra’, ‘Peijota’, ‘Puxadoiros’ e ‘18 Carbonetes’ (pelos menos de forma conhecida).

Com a promoção e criação em inúmeras localidades e recônditos do país de diferenciados centros de interpretação e educação, tendo a autarquia adquirido e preservado uma das poucas marinhas em safra como ecomuseu (Marinha da Troncalhada), parece ser indiscutível que é desejável que uma parte da história do salgado aveirense seja também preservada: os palheiros. Nem que seja como centro interpretativo ou “museu do sal”, incluindo parte comercial como, por exemplo, da flor do sal, artefactos, trajes ou até moliceiros. Não apenas como mera transformação urbanística ou arquitectónica (não tem qualquer significado ou sentido passar por um bar ou restaurante na zona do Canal de S. Roque e dizer” aqui foi um palheiro de sal”) mas como preservação da cultura e história aveirense.

É um facto que a reabilitação do edificado, concretamente em edifícios degradados e devolutos, tem falhas legais enormes que desresponsabilizam proprietários (sejam privados ou públicos) e as próprias comunidades. E neste caso a especulação imobiliária falou mais alto que a história e a cultura. Ao ponto da autarquia não conseguir reaproveitar o Palheiro do Sal do qual é proprietária. E, neste caso, deveria ser exemplo até para os proprietários privados. Porque o que está mesmo em causa não é o conjunto de “Palheiros” que se situam na zona sudoeste do Canal, até porque estes foram transformados e perderam a sua identidade. O que está mesmo em causa é o conjunto de “Palheiros” na zona nordeste e que, apesar do estado de degradação, ainda representam a história do Salgado de Aveiro.

Com o aproximar de um novo quadro de apoios comunitários, com tantas parcerias público-privadas e memorandos de entendimento, com financiamentos adequados, não será difícil encontrar e captar verbas necessárias para a regeneração e preservação histórico-cultural dos “verdadeiros” Palheiros do Sal e criar um centro de interpretação ou museu interligado com a Marinha da Troncalhada, o Sal e a Ria de Aveiro, conservando a identidade da sua história e das suas gentes.

Uma boa oportunidade para, em ano eleitoral e face aos compromissos que assumirão com os cidadãos, os candidatos à gestão da autarquia aveirense olharem para a importância de se preservar a identidade da comunidade como factor de desenvolvimento e de progresso. Tal como sugere a Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património ao elaborar uma carta de recomendação sobre a reabilitação urbana e a protecção do património dirigida a todas as candidaturas das próximas eleições autárquicas. No “Enquadramento Geral” dos objectivos da carta de recomendação, entre outros, podemos destacar: "a reabilitação urbana é um vector fundamental do desenvolvimento urbano sustentável, inteligente e inclusivo (em sintonia com o postulado na Declaração de Toledo de 2010) e que por isso tem que ser assumida como uma estratégia urbana integrada. Uma estratégia que se legitima por argumentos de natureza diversa: (…); de natureza social (identidade local; qualidade do ambiente urbano e de condições de vida; novas centralidades; coesão e inclusão social); (…); de natureza histórico-cultural (a cidade, nas suas múltiplas dimensões - patrimonial, morfológica, funcional, social, económica, imaterial – como bem colectivo que importa preservar e que contribui para a atractividade das cidades); (…)."

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 14:19

04
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 4 de agosto, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Farav 2013: de novo o Rossio?!

A Feira de Artesanato, que hoje termina, voltou a ocupar o espaço do Rossio, na sua 34ª edição. Entendo que a repetição da realização no Rossio da principal Feira de Artesanato de Aveiro se deva ao facto das entidades organizadoras acharem que esta localização é bastante positiva para o sucesso da FARAV.

Duas notas prévias. Por motivos de férias coincidentes com a realização do evento não pude visitar a feira. Por outro lado, desconhecendo o balanço que possa ser feito pelas entidades promotoras do evento (AveiroExpo, Câmara Municipal, “A Barrica” e o Instituto de Emprego e Formação Profissional), por uma questão de coerência com tudo o que defendi desde 2009, atrevo-me a repetir a minha convicção e opinião sobre a realização da FARAV no Rossio.

As razões que levaram à sua transferência do Parque de Exposições de Aveiro para uma das zonas centrais da cidade, em 2010, prenderam-se com a pouca afluência de público e fraca visibilidade do certame. Realidades que são um facto e que os dados estatísticos vinham confirmando, ano após ano. Acrescia a esta conjuntura alguma insatisfação dos artesãos e expositores.

No final da edição de 2009, numa entrevista que efectuei para o Boletim Municipal, foi-me transmitido que aquela edição tinha sido a melhor dos anteriores cinco anos (com cerca de 150 expositores). Recordo ter inquirido alguns dos visitantes e ter encontrado, por exemplo, quem tenha vindo, propositadamente, de Oliveira de Azeméis até Aveiro para visitar a feira. A par do artesanato havia ainda a vertente gastronómica que era uma excelente atractividade. Mas lembro, igualmente, as palavras do presidente da Associação dos Artesãos (A Barrica), Evaristo Silva que focou a necessidade de se repensar a feira, de cativar os artesãos, e, fundamentalmente, da importância que existe na necessidade dos aveirenses se sentirem mais ligados à FARAV (a par de uma maior atracção de público à exposição). Daí que insista na minha (modesta) perspectiva. Como sempre defendi, entendo que a FARAV deveria manter-se no Parque de Exposições. Apesar da centralidade não acho que seja por se realizar no Rossio que a FARAV se vá aproximar dos aveirenses, nem que aquele espaço seja o mais adequado para o certame (seja pelas infra-estruturas reduzidas, seja pelas acessibilidades, pelo trânsito, pelas escassez de estacionamento – no fundo, a centralidade situa-se no meio de muito caos urbano). E não colhe, por comparação, por exemplo, o argumento da distância ou da localização do Parque de Exposições. A Feira de Março sobe o seu número de visitas ano após ano, a Automobilia tem sempre “lotação” esgotada, a Expofacic em Cantanhede tem já uma mega dimensão e o Festival do Bacalhau, no Jardim Oudinot – Ílhavo, para onde se deslocam milhares de aveirenses, ou até as simples(?) “feiras dos 28”. Daí que a questão da distância ou localização seja secundária (se não teríamos de fazer regressar a Feira de Março ao seu local de origem: o mesmo Rossio).

A questão da FARAV, como eventualmente a Feira do Livro, passa por dimensioná-la, estruturá-la, quem sabe repensar a sua duração, mas principalmente torná-la mais atractiva, promovendo, a par do artesanato, outros momentos e motivos de interesse para os cidadãos.

Porque não repensar alguns dos acontecimentos que, isoladamente, vão proliferando no calendário e refundir?! Não me parece descabido existir uma Feira do Artesanato, da Gastronomia e do Livro simultaneamente e no mesmo espaço físico. Ou ainda acrescentando o Festival de Folclore.

Reconhece-se, hoje, que o sucesso de adesão do público à tradicional e histórica Feira de Março, em parte, se deve também ao cartaz musical que a complementa (tal como noutras feiras, noutros locais). Seria interessante que a Feira de Artesanato pudesse ter a mesma complementaridade cultural com qualidade e que cativasse a população e os turistas que acorrem a Aveiro, nesta altura do ano.

Por último, tal como um congresso se deve realizar no espaço próprio – o Centro de Congressos; o teatro e a dança devem ocupar a sua “casa” natural e por excelência – o Teatro Aveirense; o futebol deve encher as bancadas do Estádio Municipal de Aveiro; as exposições devem abrir portas no Museu da Cidade ou nas Galerias Municipais; do mesmo modo, as feiras por excelência devem merecer o seu destaque e a sua valorização no seu espaço próprio – o Parque de Exposições de Aveiro, sem querer menosprezar a realização de eventos no espaço público.

Há que valorizar uma feira que merece um destaque e um lugar privilegiado em Aveiro: a FARAV, pelos seus 34 anos de existência.

publicado por mparaujo às 14:51

28
Jul 13

Publicado na edição de hoje, 28 de julho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Património e Identidade.

O que melhor determina a consciência de sentido de comunidade é a sua identidade. O que melhor consolida essa identidade é a sua história (o seu passado que determina um presente e projecta um futuro), a sua cultura (a sua realidade social, as suas vivências culturais) e o seu património. Património este que projecta a história e a cultura que determinam a identidade de uma comunidade. Património este que se sustenta nos recursos naturais, no edificado e nas vivências culturais e sociais. E que património é este que estabelece a identidade aveirense?

A sua história assente em mais de um milénio de existência (segundo reza o documento testamentário de 959 de Mumadona Dias), os mais de 250 anos como cidade, a presença de Santa Joana Princesa (filha do Rei D. Afonso V), a perda e a recuperação da Diocese, as lutas entre os liberais constitucionalistas e os absolutistas, terra dos grandes parlamentares como José Estêvão. Da sua identidade social poder-se-á destacar a economia (infelizmente com reflexos numa evidente queda industrial, salvo raras excepções) assente na cerâmica e da azulejaria, na abertura da barra, na centralidade das acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, no desenvolvimento crescente do seu pólo universitário, na pesca, mas igualmente na escolha como referência de “terra das liberdades” com a realização dos três Congressos da Oposição Democrática. Como referência cultural importa relevar a sua cultura popular (as várias festas que se realizam na cidade e no concelho), o papel dos marnotos e das salineiras, a importância da Arte Nova ou o seu património religioso. Por outro lado, lamenta-se a perda física da muralha ou do aqueduto do Côjo. Mas há ainda a resistência dos bairros mais típicos como o da beira-mar, do Alboi, da Misericórdia, da zona de Sá. Entretanto, novas ‘culturas’ foram marcando uma nova identidade em Aveiro: a tecnologia potenciada pela universidade, as BUGA, a manutenção dos moliceiros como turismo.

No entanto há uma realidade patrimonial que Aveiro teima em querer deixar “morrer”: o salgado aveirense. O sal foi, durante séculos, um produto e uma realidade social e cultural de enorme importância para o desenvolvimento económico e turístico de Aveiro. Quer na sua produção, quer na influência que exerceu em áreas paralelas como a salga do bacalhau e as indústrias químicas. No século XVI, com a expansão do comércio marítimo, ao mesmo tempo que Lisboa se convertia num dos mais importantes portos mundiais, Aveiro tornava-se, por força dos carregamentos de sal para os navios, um dos mais importantes portos nacionais e uma região de referência. Mesmo que dois séculos depois, por questões ambientais, a actividade da salinicultura e comercial de Aveiro tivesse ficado em risco, o esforço de todos os aveirenses pela necessidade da abertura da barra devolveu a expansão da região, da qual a explosão demográfica da altura é um exemplo claro dessa realidade. No entanto, volvidas as últimas duas décadas, Aveiro assistiu, passivamente, a um abandono da actividade e preservação das salinas. Factores económicos, ambientais, sociais, políticos contribuíram para o estado actual da perda desta nossa importante identidade regional e patrimonial. A paisagem natural desapareceu, os “montes” brancos rarearam, as salinas ficaram abandonadas, desprotegidas e degradadas, o peso económico do sal na região deixou de ter relevância e de ter sustentabilidade. As mais recentes gerações olham para o sal sem terem com ele qualquer sentimento de identidade regional.

Para além do Sal e das Marinhas há igualmente o abandono de outro aspecto patrimonial ligado ao salgado: os palheiros de sal no Canal de S. Roque. Exemplo claro da falta de preservação da história e da cultura aveirenses. Nem um exemplo para educação e pedagogia (centro documental) que poderia estar ligado à Marinha da Troncalhada e ao anunciado Centro Documental do Salgado, por exemplo, e não a sua especulação imobiliária ou a mera transformação em espaços comerciais e de lazer (bares).

Aveiro transforma-se mas perde uma realidade histórica e cultural importante que determinou, durante séculos a sua identidade.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 22:18

21
Jul 13

Publicado na edição de hoje, 21 de julho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Ria abaixo. Ria acima.

Na passada semana, neste mesmo espaço, referi-me à questão da taxa turística (“Taxar ou não taxar o turismo”), seja no que respeita ao sector hoteleiro, seja relacionado com os passeios de moliceiro nos canais urbanos da Ria. O regresso à temática da ”ria” prende-se como outros aspectos que me merecem especial atenção enquanto cidadão. Como, na altura, referi, a questão da taxa, mesmo que polémica entre operadores turísticos e autarquia, é, essencialmente, uma questão política de gestão autárquica e, na prática, uma questão de forma e aplicabilidade da taxa (já que não me parece, salvo raras excepções, que haja muita discordância entre as partes quanto à sua necessidade e objectividade).

Mas na temática do uso da Ria de Aveiro, nomeadamente em relação aos canais urbanos (precisamente aqueles que estão, agora, na alçada da gestão camarária), há outros aspectos que merecem uma análise, tão relevante quanto à taxa, mas que têm sido descuidados e que em nada abonam a favor da imagem turística da cidade e, muito menos, na preservação, promoção e representação do património histórico e cultural que é a Ria e o Moliceiro.

O primeiro aspecto prende-se com o excessivo número de operadores para um espaço fluvial tão exíguo como são os canais urbanos da Ria. O regulamento municipal de utilização dos canais urbanos da Ria define sete áreas. Se considerarmos a contiguidade óbvia entre o lago da Fonte Nova, o canal do Cojo, o canal Central e o canal das Pirâmides, e encararmos, naturalmente, como um canal no seu todo, restarão, para além “desse”, o canal de S. Roque e o canal do Paraíso (excluindo o canal da Praça do Peixe por se afigurar difícil o seu acesso aos passeios turísticos). Portanto, cerca de cinco operadores, com duas ou três embarcações, a navegarem neste espaço de três canais parece exagerado, não só em termos concorrenciais, mas para a própria preservação da ria e dos muros que a “suportam”.

Por outro lado, essencialmente por razões técnicas de navegabilidade, a “amputação” das proas dos moliceiros ou mercantéis têm gerado críticas legítimas dos aveirenses, para além da óbvia deturpação da imagem de um dos ícones culturais e sociais da história de Aveiro e da sua região. Mas se este pode parecer um aspecto relevante, ao analisarmos um dos objectivos da utilização dos canais urbanos para o turismo, será, salvo melhor opinião, dar a conhecer a cidade, as suas gentes, a sua cultura e a sua história. É isto que qualquer turista procura quando visita uma determinada localidade: a procura da sua identidade histórica. E tão importante como a proa levantada ou rebaixada, é o irrealismo (ou, se quisermos, o surrealismo) no que respeita, em primeiro lugar, ao vestuário: amarelos, laranjas, “às bolinhas”, imitações de outras localidades (como o Douro ou Veneza) nada tem a ver com a cultura e história de quem transportava moliço, sal ou produtos agrícolas (como as cebolas e as batatas para a feira que se fazia onde hoje está a Casa da Cultura e que a Junta da Vera Cruz, até há bem pouco tempo, retratou na Praça Melo Freitas). Além disso, diz a sabedoria popular, sempre certeira quando pretende “representar” a realidade, que “quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto”. Se é importante dar-se a conhecer a cidade, as suas gentes, a sua cultura e a sua história, não será pela ambiguidade da informação (quando, na maior parte das vezes, errónea ou omitida) que se prestará a melhor imagem histórica (presente e passada) de Aveiro. E isto deveria ser uma obrigatoriedade imposta pela autarquia através dos seus serviços de cultura, unificando a informação a difundir.

Imagino a diversidade de informação em relação ao actual edifício da Assembleia Municipal de Aveiro; ao que foi a zona das cerâmicas (Aleluia, Paula Dias, Campos, etc., etc.) e dos barreiros na área da Fonte Nova; o que foi o Cojo; o Rossio; a marinha da Troncalhada; os palheiros, o sal e a principal festa da cidade (na altura) que era a Sra. das Febres; o bairro da beira-mar; a linha férrea que serviu para a construção do Farol que é de Aveiro (embora erguido na Praia da Barra); a Arte Nova e os seus edifícios (alguns contíguos ao canal central); … .

Se continuar a ambiguidade que o próprio regulamento permite (basta ver o artigo 8º e 30º, como exemplos) continuarão os turistas, em cada viagem, a receber mais “um ponto, por cada conto” e a verem Aveiro transformada numa amálgama de “estórias” e realidades que nada têm a ver com a sua identidade. E lá continuaremos a ser, tristemente, a chamada “Veneza de Portugal”, que nunca foi e que infelizmente teima em permanecer.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 17:27

14
Jul 13

Publicado na edição de hoje, 14 de julho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Taxar ou não taxar o turismo.

O tema da taxa turística (ou das taxas turísticas) é assunto recorrente das conversas dos aveirenses e será, naturalmente, questão a abordar nas campanhas eleitorais, até porque a Ria e o turismo é já referência nos discursos de alguns candidatos, neste período de pré-campanha, por exemplo Ribau Esteves (“Aliança com Aveiro”) e Eduardo Feio (PS). A aplicação da taxa turística não é, no entanto, consensual na comunidade aveirense e, principalmente, nos “visados”: operadores de passeios na Ria e nos hoteleiros.

Entendo que a taxa aplicada às dormidas/estadias em Aveiro (taxa aplicada às unidades hoteleiras) não é, objectivamente, comparável com a taxa turística cobrada os passeios de moliceiro nos canais urbanos da Ria. Reconheço a legitimidade política da Câmara Municipal de Aveiro em cobrar a taxa sobre as dormidas/estadias em Aveiro, como forma de recolher financiamento (receitas) que permitam ao município algum investimento na promoção turística do Concelho. Aliás, medida partilhada e aconselhada a outras autarquias pela Associação Nacional de Municípios face à quebra acentuada de receitas municipais. Mas tal como há tempos afirmou o Secretário de Estado do Turismo, Adolfo Nunes, a sua aplicabilidade deixa algumas reservas. Mesmo que ache que não tenha impacto significativo no número de visitantes e turistas, entendo que posa existir alguma falta de capacidade de aplicação/cobrança da taxa, por parte da Câmara Municipal, mas, acima de tudo, deixa-me muitas reservas quanto ao retorno de benefícios por parte dos hoteleiros, já que os mesmo têm a sua própria autonomia na promoção turística ou o recurso a outras entidades que não o turismo municipal (por exemplo, os operadores, a sua associação ou o próprio Turismo Centro de Portugal).

Por outro lado, e precisamente em oposição à taxa nos hotéis, a aplicação de uma taxa turística nos passeios na Ria parece-me mais que justificada. Não sei se esta taxa, o valor em causa, a forma, o conceito, a eventual constituição de um fundo de reserva, etc. Isso seria outra reflexão. Mas é justificável a aplicação de “uma” taxa turística sobre os passeios nos canais da Ria. Primeiro, porque se trata de um bem público, de um espaço público, que é de todos os aveirenses, que é a imagem de marca de Aveiro (ou uma delas a par, por exemplo do salgado). O usufruto comercial deste espaço público, com receitas (legítimas) dos operadores, deve ter uma contrapartida para o bem público. Segundo, ao contrário do que acontece com as unidades hoteleiras, há, em teoria, um benefício directo do investimento público na actividade privada. Ou seja, “uma” taxa turística (seja ela qual for, na prática) significa uma contribuição para o investimento que a autarquia tem na responsabilidade de assumir a preservação dos canais urbanos da Ria, a limpeza, a preservação das suas margens, a manutenção do mobiliário público envolvente (por exemplo as pontes) e dos muros dos canais.

Mesmo que restem algumas dúvidas sobre o processo de aplicação, de fiscalização e de cobrança… mesmo que existam algumas reservas quanto à forma… não restam incertezas quanto à legitimidade da defesa do bem e interesse públicos que os canais urbanos da Ria têm para a cidade de Aveiro. Algo que, diga-se a bem da verdade, os operadores dos passeios turísticos nunca objectaram (pelo menos publicamente).

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 20:21

07
Jul 13

Publicado na edição de hoje, 7 de julho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Cidade agregada.

É pública a minha posição em relação ao processo da reforma administrativa do território (vulgo, agregações de freguesias). Entendo que é importante que o país faça uma reforma do poder local mas de forma abrangente e consistente, incluindo comunidades intermunicipais, municípios, freguesias, lei eleitoral, etc. O que aconteceu foi apenas a “reforma do elo mais fraco” e, mesmo assim, feita atropeladamente, sem a noção das realidades e das diversidades: por exemplo, interioridade, distanciamento geográfico e periferia, entre outros. E aconteceu mais. Aconteceu que, à semelhança da trapalhada das agregações “a régua e esquadro” das freguesias, a lei que regularia as Comunidades Intermunicipais foi chumbada pelo Tribunal Constitucional.

Mas também é verdade que em municípios como o de Aveiro (e a maioria do país) a agregação de freguesias urbanas, as da cidade, faz todo o sentido e tem, claramente, mais vantagens que inconvenientes.

Não vou ao extremo de defender, de forma radical, a sua extinção nas malhas urbanas. Acho que, apesar da duplicação de gestão territorial (freguesia e autarquia) e da “supremacia” das câmaras, a não existência de, pelo menos, uma junta de freguesia nas cidades desvirtua a identidade democrática mais próxima dos cidadãos, retira equidade em relação ao resto do município. Até porque o trabalho de uma Junta de Freguesia é mais do que a limpeza de valetas, as licenças dos canídeos ou a mera passagem de uma certidão ou uma autenticação de documentação. É um serviço de proximidade, nos tempos que correm de muita acção e preocupação social, de gestão do espaço público e de ser interlocutor da comunidade junto da autarquia.

No entanto, a redução/agregação de freguesias nos centros urbanos é, até por questões estruturais, desejável. Ter uma maior escala e dimensão pode trazer vantagens em termos de gestão de recursos e de resposta às necessidades das comunidades. Pena é que um dos grandes erros da lei aprovada (para além das mencionadas acima) foi a ausência de reformulação e reestruturação ao nível das competências e respectivos fundos. A continuidade da excessiva “dependência hierárquica” da respectiva Câmara Municipal nem é benéfica para a freguesia nem para a autarquia. Aliás, é algo que deixa muito a desejar quando a legitimidade democrática (por força do processo eleitoral) é a mesma.

Por outro lado, no caso da cidade de Aveiro (que já teve, na sua história, mais do que duas freguesias) há outras mais-valias. A cidade pode ganhar com a unidade, mantendo a diversidade dos seus bairrismos (beira mar, alboi, sá/barrocas, a parte central da Glória, Vilar). Pode ser mais inclusiva, nomeadamente com as novas zonas urbanas onde reside um grande número de “novos aveirenses”. Pode ser capaz de ganhar dimensão e melhorar respostas às necessidades sociais da cidade (ao nível do lazer, do desporto, do social, do urbanismo, do ambiente, da gestão do espaço público, …). Mas principalmente, tal como se quebrou a barreira da linha férrea com a abertura da cidade com o túnel de Esgueira e o da Estação, e a ligação da Alameda com a Avenida Central e a zona do Hospital/Universidade, também pelo facto de se inverter o significado e sentido da sua maior riqueza natural: a ria. O que foi, durante séculos de história, motivo de muitas “estórias”, divisões, rivalidades e conflitos, tem de passar a ser um factor de união das duas margens, de unidade urbana, de sentido de cidade.

Não se deve reduzir esta realidade à mera questão da localização da sede de Junta de Freguesia, agora agregada. A Freguesia unificada é muito mais do que um edifício. Tem de ser um conjunto de diversidades, de bairrismos, de sentido de comunidade, centrados numa dimensão de “pertença” a um espaço único, que tem identidade histórica, cultural e social comum, e que pode ter uma maior identidade se for mais do que a soma das partes: uma verdadeira cidade, na sua plenitude. Aliás, algo que deveria ter igual reflexo e projecção ao nível das Paróquias.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 23:16

30
Jun 13

Publicado na edição de hoje, 30 de junho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Centralidade regional.

Como referi no domingo passado, o título ‘Cagaréus e Ceboleiros’ resultará num conjunto de textos que apenas se cingirão a um “olhar sobre Aveiro”. Objectivamente, por uma questão de cidadania e de participação cívica (e pelo aproximar das eleições autárquicas de 2013), retirando toda e qualquer sustentação ou objectivo partidários (isso caberá a uma mera e simples opção pessoal, nos momentos e espaços próprios e se for caso disso).

A primeira abordagem à cidade tem a ver com a questão da centralidade regional e do peso político de Aveiro nessa mesma região. Aliás, tema comum e basilar na campanha eleitoral que se avizinha. E a questão toma contornos relevantes quando algumas vozes se ergueram contra a eventual saída da sede do Turismo Centro Portugal de Aveiro. Sejamos coerentes, consistentes e menos demagogos. Não é aqui que Aveiro perde a sua centralidade regional. Para um organismo que gere quase cem concelhos, que vai desde a Ria de Aveiro até à fronteira com Espanha em Castelo Branco, que juntou recentemente à zona de Viseu, Lafões, Coimbra e à zona costeira desde Ovar até á Figueira, o forte turismo religioso de Ourém e Fátima, nada será mais coerente e objectivo do que procurar uma centralidade para a sua gestão. O resto é demagogia.

Aveiro tem muito mais “centralidades” com que se preocupar e que a fariam, garantidamente, uma referência e a tornariam num peso político e económico para a região, para a ‘faixa A25’, para o centro de Portugal.

O valor do seu património natural mais rico: o mar e a Ria de Aveiro, o salgado e as marinhas, bem como a valorização do seu património histórico e cultural que é a cerâmica, o azulejo e a Arte Nova. A projecção da sua gastronomia e da sua doçaria conventual para além fronteiras, como é o caso dos Ovos Moles de Aveiro. A inovação e o saber através da mais-valia que é a Universidade de Aveiro (quarenta anos de costas voltadas para a cidade) e não permitir que se repitam mais casos como a perda de cursos relevantes como foi o caso do de Medicina. Importa referir que a UA mantém a posição entre as melhores universidades mais jovens do Mundo (com menos de 50 anos de existência), sendo a 66ª no ranking da revista britânica Times Higher Education (THE) e a melhor portuguesa (segue-se a Universidade do Minho em 85º lugar e a Universidade Nova de Lisboa em 92º). Aproveitando a referência à saúde, a importância que se reveste para o concelho um Hospital Central novo e com maior relevância estratégica. A capacidade de voltar a atrair investimentos de peso económico (economia e empregabilidade) significativos depois de gorada a construção da fábrica das baterias da Nissan-Renault, a saída da Makro, o abandono das zonas industriais (Taboeira, Cacia e Mamodeiro), a não ampliação da Portucel. A importância das acessibilidades como a ligação ferroviária do Porto de Aveiro a Espanha, a construção da ligação rodoviária Aveiro-Águeda ou a impotência em relação aos pórticos da malha urbana da A25 (Angeja e Estádio) e A17 (Oliveirinha). O recuo na construção do “Campus da Justiça” com implicações nas várias vertentes judiciais como o Tribunal Administrativo ou o Tribunal do Trabalho. O investimento no turismo ligado ao mar e à ria, tendo como pólo central a freguesia (praia e ria) de S. Jacinto, a única praia do concelho.

Do ponto de vista político, Aveiro tem de voltar a liderar a região, pela sua história, pela sua centralidade, pelas suas potencialidades, por ser a capital de distrito (enquanto ainda existirem).

Isto sim… são centralidades que importa conquistar e preservar, de forma veemente e com força política e social para garantir um concelho com projecção e peso estratégico na região. Só faz sentido se fizermos valer a nossa identidade e não estarmos apenas à espera de “identidade alheia” que faça o trabalho que nos compete como aveirenses (por natureza ou por adopção).

O resto são constrangimentos óbvios e lógicos de uma localização geográfica e da extensão organizativa e estrutural de uma entidade.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 15:17

23
Jun 13

Publicado na edição de hoje, 23 de junho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Razões e fins.

A expressão que dará origem, a partir de hoje, a um conjunto de textos (novos ou o retomar de antigos temas) que apenas se cingirão a um olhar sobre Aveiro, tem um contexto histórico e tradicional: a denominação das gentes de cada uma das margens do Canal Central da Ria (Vera Cruz e Glória). E a expressão que dá corpo ao título tem, nos dias de hoje, um contexto e uma realidade relevantes. Primeiro porque nasci “cagaréu” e cresci “ceboleiro” (vivendo, de novo, como “cagaréu”). Depois porque a cidade transformou-se numa única comunidade (freguesia) com toda a sua diversidade, diferenças e comunhões, por força de uma lei que tinha tudo para ser consistente, eficaz, abrangente, mas que, infelizmente, ficou muito longe das expectativas e se tornou foco de contestação e polémica. Sempre afirmei ser a favor de uma lei coerente e inclusiva no âmbito de uma reforma total do poder local (regiões, municípios, freguesias, processos eleitorais, autonomias, etc). Uma lei que tivesse em conta as especificidades das regiões e comunidades. Em relação à cidade, não vejo que tenha vindo “qualquer mal ao mundo” com a agregação das duas freguesias. Aveiro já esteve muito mais “retalhada” em pequenas “quintas”. A cidade e os aveirenses têm de olhar para a Ria não como factor de divisão, não para cada uma das suas margens, mas aproveitando este recurso natural como um símbolo ou circunstância de união, nas especificidades, nas diversidades, nas diferenças, nos bairrismos, tudo como um todo de uma comunidade única e não na simples soma das partes ou na sua fragmentação.

Face a este argumento e a este fundamento poder-se-á questionar ‘porquê só agora’. A resposta é simples. Não faltaram (à quarta e aos domingos, neste espaço) apontamentos escritos sobre a cidade; por uma questão de cidadania e de participação cívica; e pelo momento actual (o aproximar das eleições autárquicas de 2013). Principalmente, por estes dois últimos.

As várias candidaturas até hoje anunciadas às próximas eleições autárquicas têm procurado junto dos cidadãos, pelas mais variadas formas, auscultar as suas opiniões, procurar críticas e sugestões, quer para uma melhor compreensão da realidade do concelho e das freguesias, quer como contributos válidos e concretos para a elaboração de projectos eleitorais. Infelizmente (seja qual for o partido, essa é uma infeliz realidade transversal ao contexto político português) os apelos à cidadania, à democracia participativa, surgem em grande consistência nas fases pré-eleitorais e esquecidas depois. Mas é a democracia… pode não ser o modelo ideal mas é, garantidamente, o menos imperfeito.

Retirando toda e qualquer sustentação ou objectivo partidários (isso caberá a uma mera e simples opção pessoal, nos momentos e espaços próprios e se for caso disso), mantendo a essência política do direito à participação e ao exercício da cidadania, durante estes quase três meses que nos separam (cerca de 14 domingos) das eleições, que decorrerão a 29 de setembro, “Cagaréus e Ceboleiros” será um espaço de contributo, de “olhares críticos” (mas não acusadores), de sugestões, com o simples objectivo de ter a pretensão, pelo menos, de provocar alguma reflexão sobre a realidade de Aveiro e do Concelho (urbanismo, espaço público, mobilidade, desporto, cultura, regionalismo, bairrismos, …). Não será dirigido, especificamente, a ninguém ou a nenhuma candidatura, nem sei se serão reflexões que tenham qualquer impacto ou importância para as mesmas. Não será, muito menos, qualquer “acusação”, “crítica fortuita” ou elogios a qualquer das últimas gestões autárquicas (nem o dever profissional mo permitia). Mas permite-me o direito como cidadão, numa altura em que muito se falará de Aveiro, ter a liberdade de expressão e de opinião (tão consagradas constitucionalmente e tantas vezes banalizadas) de “pensar, reflectir, olhar e falar” sobre a cidade.

Como um aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 19:39

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