Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

20
Jun 19

rohingya-crisis-894x504.jpg

(crédito da foto: Andrew McConnel/ACNUR)

E infelizmente, à falta de responsabilização (religiosa, geopolítica, geoestratégica, climática/ambiental, Europeia), os próprios refugiados tornam-se os "culpados" (por fugirem da morte... por tentarem sobreviver... porque foram expulsos... porque a "vida" está no país ao lado ou na travessia do Mediterrâneo "da morte").

20 de junho... as Nações Unidas instituíram, em 2000, este dia como o Dia Mundial do Refugiado, para a consciencialização da situação do refugiado no mundo.

1452883697_csNx3Sp.png

Numa altura em que se questiona, em Portugal, a criminalização da ajuda humanitária (seja pelas vias oficiais/Estados, seja pelas ONG's, seja pela vontade e vocação de cada indivíduo) é importante que a história não apague da memória colectiva a criança síria, de 3 anos, morta numa praia turca, em 2015: Alan Kurdi. Nem os milhares e milhares de "Alan Kurdis", de todas as idades e locais que estão deslocados.

A ACNUR (Agência de Refugiados das Nações Unidas) estima (em 2018) que mais de 70 milhões de pessoas, em todo o mundo, fujam da guerra, de perseguições e conflitos políticos, étnicos e religiosos, e da ausência de condições de sobrevivência (muito por culpa das alterações climáticas). Número que, em relação ao relatório de 2017, representa um aumento de 2,3 milhões de pessoas.
Das 70,8 milhões de pessoas... 25,9 milhões (50% são crianças, sendo que milhares estão sozinhas) foram forçadas a sair dos seus países por causa da guerra, conflitos e perseguições ou pela sobrevivência "natural"; 3,5 milhões de solicitaram refúgio (nomeadamente por razões políticas, sociais e humanitárias); e 41,3 milhões de pessoas são considerados "deslocados internos" (foram obrigadas a abandonar as suas casas mas permanecem no país). Os principais países de origem são a Síria, Palestina, Iémen, Sudão do Sul, Afeganistão, Ucrânia, Mianmar/Bangladesh, Somália, Burundi, Ucrânia,  África Subsaariana (República Centro-Africana, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Gâmbia, República Democrática do Congo, Uganda), Venezuela e El Salvador, Nicarágua e Guatemala (que atravessam o México para chegar aos Estados Unidos).
Portugal acolheu, até à data (desde 2015), 1674 refugiados que chegaram à Grécia, Itália e Turquia.

Retomando o número apurado de refugiados (25,9 milhões fora dos seus países de origem), contrariando o estigma instalado em muito do discurso europeu, 80% destas pessoas vive nos países vizinhos aos de origem (mesmo que em campos de refugiados).

E porque, nestas datas (ou por elas) é importante que a memória não se apague, nem que a história seja travada, fica a "memória" da Amnistia Internacional Portugal que lembra, e bem, as vítimas esquecidas de Mianmar que não podemos deixar para trás (e que aqui demos nota)

publicado por mparaujo às 21:56

30
Dez 18

A Segurança de Pessoas e Bens, a Saúde, a Justiça, o Ensino e a Política são os principais registos que marcaram o ano de 2018 em Portugal. Na mesma altura em que se assinalou o 20.º aniversário do prémio Nobel da Literatura atribuído a José Saramago e num ano em que o “Presidente dos Afectos” é, para muitos dos portugueses, uma das principais figuras.

da Tragédia…
Volvido um ano após os acontecimentos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Ansião, Sertã, Pampilhosa da Serra e Penela (junho de 2017) e ainda Leiria, Seia, Nelas, Oliveira do Hospital, Penacova, Monção, Mira e Vagos (outubro 2017), Portugal volta a viver, em 2018, duas novas tragédias que envolveram, infelizmente, vítimas mortais, danos ambientais, sociais e económicos.
Agosto volta a ser “madrasto” no que respeita aos incêndios, desta vez, assinalado em Monchique, ardendo 27 mil hectares de floresta e mato (o maior incêndio da Europa), perdendo-se 50 casas e registando-se 50 perdas de habitações, 41 feridos e 49 pessoas desalojadas, marcando ainda o “mau estar institucional” entre Bombeiros e Protecção Civil que se acentuaria no final do ano.
Em outubro, o furacão Leslie (o maior em Portugal desde 1842) atingia o país, com ventos entre os 180 e os 190 km/hora, provocando mais de 2000 mil ocorrências, 28 feridos, 61 pessoas desalojadas, milhares de habitações (mais de 300 mil) sem electricidade e deixando um rasto de destruição, principalmente nos distritos de Coimbra (Figueira da Foz) e Leiria.
Novembro trouxe à memória dos portugueses o trágico acontecimento, em 2001, com a queda da ponte Entre-os-Rios, em Castelo de Paiva. Apesar dos riscos evidentes, anunciados e alertados em 2014 por vários relatórios, a incúria humana e a irresponsabilidade do Estado (Central e Local) foi o suficiente para que 5 pessoas perdem-se a vida com o colapso de parte da estrada municipal 255, em Borba, provocada pelo deslizamento de um grande volume de rochas, blocos de mármore e terra para o interior de duas pedreiras contíguas.
O lema dos bombeiros portugueses, “vida por vida”, ganhou uma dimensão arrepiante e sinistra, neste último mês do ano, às portas do Natal. Quatro elementos do corpo técnico do INEM perderam a vida quando, depois de transportarem uma doente em estado grave, de 76 anos, com problemas cardíacos, para o Hospital de Santo António, no Porto, regressavam à base, para Macedo de Cavaleiros (Bragança). O helicóptero (uma aeronave Agusta A109S) ao serviço do INEM, cairia na Serra de Santa Justa, Valongo, após embater numa antena de comunicações vitimando o piloto João Lima, o copiloto Luís Rosindo, o médico Luís Vega (de nacionalidade espanhola) e a enfermeira Daniela Silva. À boa maneira portuguesa a tragédia, infelizmente como de costume, originou um conjunto de tentativas de desresponsabilização por parte da NAV, ANPC e do próprio INEM.

da Política…
Foram a política, os políticos e os casos político-partidários, que marcarem fortemente a agenda de 2018, no ano em que se assinala o último Orçamento do Estado da coligação parlamentar que suporta o Governo socialista (a chamada “geringonça”), em vésperas de um ano de 2019 que será marcado por forte contexto eleitoral (eleições europeias e eleições legislativas).
O ano abriria com uma mudança de liderança, de estratégia e, até, de paradigma (pelo menos em rotura com o passado bem recente) no PSD, com a eleição (54,1% dos votos), em janeiro, de Rui Rio para a presidência do partido. Mas se a vontade expressa pela maioria dos militantes sociais-democratas e o desejo em romper com o período de Passos Coelho, com o espectro do liberalismo e o regresso à social-democracia (génese e identidade do partido) resultou numa desejada e apetecida eleição de Rui Rio (face à alternativa Santana Lopes), a verdade é que este primeiro ano de liderança do ex-Presidente da Autarquia do Porto trouxe “a lume” e à evidência o que de pior sempre caracterizou o PPD-PSD: uma “fome” desmesurada e incontrolada de alguns pela cadeira do poder partidário. Não durou muito, embora dure há demasiado tempo, a surgirem as incompreensíveis e dispensáveis vozes críticas internas: Luís Montenegro, inconformado com os resultados das directas e eterno fiel apoiante de Passos Coelho; a tagarelice e a “detracção”, por tudo e por nada, a que se juntam as adivinhações políticas, de Marques Mendes; a ambição e obsessão pelo palco mediático de Pedro Duarte, fazendo regressar aos bastidores e corredores do Partido um dos “espíritos” mais indesejáveis do PSD: Miguel Relvas.
Mas o ano de 2018 não foi, para o Governo e para o PS, um período fácil, fazendo antever um conjunto de desafios políticos agravados e complexos para o próximo ano. O número elevado de greves (mais do que no período intenso da Troika e da governação PSD/CDS) e a instabilidade social, têm colocado a nu e exposto as fragilidades e os falhanços governativos em áreas tão estruturantes num Estado de Direito como na Educação (seja no ensino básico e secundário, seja no ensino universitário), na Justiça ou na Saúde. Sem esquecer a questão da mobilidade, dos transportes, da empregabilidade (baixou a taxa de desempregados mas aumentou a precariedade laboral com a diminuição de vínculos contratuais) e na vertente social (há, em Portugal, 1,8 milhões de pobres, a taxa de poupança familiar regista, em 2018, valores mínimos de há duas décadas, e está perto do “alerta vermelho” o risco inerente ao aumento do crédito ao consumo por parte dos portugueses e das famílias).
Afinal, a austeridade (e eventualmente o tão badalado “diabo”) andam por aí, existe, é visível no dia-a-dia dos portugueses, mesmo que camuflada por uma colossal carga fiscal estruturada nos impostos indirectos. Os dados estão lançados para o próximo ano, com o fim da “paz social” com os sindicatos (Arménio Carlos, Secretário-geral da CGTP-IN, afirmou há poucos dias, logo a seguir à mensagem de Natal, que “2019 vai ser um ano quentinho e não é bluf”) e o fim da “união de facto” política (já que não chegou a haver “casamento”) com o BE e com o PCP.
A par da gestão das finanças públicas, com o impacto das cativações e da falta de investimento público nas áreas de responsabilidade a crescida das Funções Sociais do Estado, seria a Defesa Nacional a gerar um complexo caso de gestão política, abalando a estrutura governativa de António Costa. O “Assalto a Tancos” gerou impactos muito negativos na opinião pública quanto à confiança no Estado, nas Instituições e nas Forças Armadas, para além da demissão (pessoalmente, injustificada) do ex-Ministro Azeredo Lopes. Demissão aproveitada para uma remodelação governativa em pastas relevantes como a Economia, a Saúde (em permanente tempestade social e caos governativo), a sempre polémica Cultura, para além da Defesa (face aos acontecimentos). E a história política repete-se para o Governo socialista de António Costa: tal como aconteceu em 2017, perante a tragédia dos incêndios e do caos na Protecção Civil, dando origem à demissão da então Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, há neste governo alguma dificuldade em gerir situações de crise, em assumir ou atribuir responsabilidades, em gerir as dificuldades e as adversidades. Tudo corre bem no “mar de rosas”… mas à primeira ondulação mais forte, perante um mar mais agitado ou revolto, o caos político e governativo instala-se demasiadamente fácil.
Uma última nota política de análise a 2018 tem a ver com a relação do Governo (Administração Central) e as Autarquias, apesar do “mapa rosa autárquico” saído das eleições de 2017 e a presença no Governo de alguns ex-autarcas, a começar pelo próprio Primeiro-ministro. Exemplo claro dessa dificuldade são os soluços nos investimentos e a gestão dos Fundos Comunitários e, essencialmente, as polémicas e a confusão e balbúrdia inerentes ao processo de Descentralização de competências e responsabilidades para os Municípios.
Este ano de 2018 deixou ainda uma marca histórica no seio da família socialista. A 2 de maio rebentava a bomba no n.º 2 do Largo do Rato. Um conjunto (significativo) de principais figuras do Partido Socialista e do Governo, após a divulgação de eventual caso de corrupção envolvendo o ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, vieram a público demonstrar Vergonha (o adjectivo mais usado) pelo impacto político dos casos José Sócrates e Manuel Pinho (curiosamente o processo Marquês conheceu, este ano, uma alteração da condução judicial do processo para a fase de instrução com a troca do juiz Carlos Alexandre pelo juiz Ivo Rosa, para além de mais um “caso” e polémica com o histórico do processo a desaparecer do sistema informático).

da Justiça…
Contrariando algum sentimento generalizado, quer na sociedade, quer no universo político (com excepção do PS), António Costa e, por decisão última e final, Marcelo Rebelo de Sousa, optaram por substituir a liderança da Procuradoria-Geral da República, não reconduzindo Joana Marques Vidal e nomeando para o cargo Lucília Gago.
Um ao depois... continua por se encontrar a eventual responsabilização pela aparente ilegalidade e irregularidades na reconstrução das casas em Pedrógão Grande, num processo que deveria envergonhar o país; todos… sociedade, autarcas, instituições, partidos, políticos e Governo/Estado.

Dos Direitos Humanos…
Esta é, e há-de ser sempre, do ponto de vista pessoal, uma das principais preocupações e acções/intervenções cívicas (a par da política e do jornalismo/comunicação).
Se Portugal engloba, ao fim de 44 anos, o conjunto de países da primeira linha na defesa e garante dos direitos humanos, há ainda alguns percursos que devem ser percorridos e situações ou contextos que merecem um combate permanente.
A título de exemplo: O número de mulheres assassinadas em contexto de intimidade ou relações familiares próximas atingiu as três dezenas (mais seis do que no ano passado) e cerca de 20 viram a sua vida atentada. Em Portugal, no ano de 2018, todos os dias, cinco crianças são vítimas de crimes sexuais.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres corresponde a 58 dias de trabalho pago, sendo mais elevada entre profissões mais qualificadas e com maior nível de escolaridade. As mulheres, em Portugal, ainda ganham 15,8% menos do que os homens, colocando o país no top europeu da disparidade salarial.
No ano em que se assinalou o 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos há ainda um caminho a percorrer em Portugal no que respeita ao racismo, à xenofobia, à inclusão e integração, à igualdade de género, aos atentados contra a dignidade humana, situações que se agravam com o crescimentos dos populismo e extremismos. A espelhar estas realidades, quando se pensa que os atropelos aos mais elementares direitos só acontecem na distante África, no complexo Médio Oriente ou no turbilhão social da América do Sul, num ano, em Portugal, a UNICEF registou 80 casos de mutilação genital feminina, fazendo aumentar para cerca de 240 os casos de raparigas e mulheres excisadas.

retrospectiva_1078445042.jpg

publicado por mparaujo às 23:37

29
Dez 18

A história da Humanidade, ao longo dos séculos (AC e DC), sempre teve períodos, mais ou menos longos, de conflitualidade entre os homens e os povos/nações. Foi, também, nesses contextos que as civilizações delinearam os seus futuros.
No período contemporâneo, na primeira metade do século XX, as duas Grandes Guerras (1914-1918 e 1939-1945) foram o reflexo visível dessa conflitualidade.
No entanto, o Mundo soube sempre acolher períodos alargados de paz (ou alguma paz) e de coabitação entre as Nações, mesmo no chamado período da “Guerra Fria”. Até que chega a data de 11 de setembro de 2001, precedida, uma década antes, pela Guerra do Golfo (1990-1991) e imediatamente sucedida pela invasão do Iraque (março de 2003). Desde então o Mundo deixou de ser seguro e pacífico, tolerante e inclusivo, promotor dos Direitos Humanos e da Igualdade, Fraternidade e Liberdade.
Volvidos que estão 28 anos (1990-2018) este ano que agora se presta a terminar é, infelizmente, o espelho dessa realidade: conflitualidade geopolítica e geoestratégica permanente, terrorismo, desprezo pelos valores e pela dignidade humana, crescimento dos extremismos e dos populismos.
Atentados, ataques, violência, manifestações de intolerância, racismo, xenofobia e homofobia, fome, guerra, violação das liberdades e direitos fundamentais, são alguns contextos que descrevem o retrato do ano de 2018. Aos quais podemos ainda adicionar uma natureza madrasta, como que a querer vingar a maneira como o Homem a vai (mal) tratando e desprezando.

da Guerra…
O Médio Oriente, juntamente com África Subsaariana e Central, são duas zonas do globo em permanente explosão. A guerra civil na Síria, em sete anos (2011-2018) matou mais de 511 mil pessoas, das quais cerca de 40 mil neste ano, desalojou 5,6 milhões de sírios, dos quais 2,6 milhões são crianças. Geograficamente mais patente na região de Guta, Damasco, o conflito e os seus impactos estão ainda longe de terem terminado, apesar do recente, e internamente polémico, anúncio de Donald Trump de retirar as forças americanas da região (o Estado Islâmico agradece).
Dura desde 1948 o conflito que opõe Israel à Palestina, tendo a Cisjordânia, o Líbano e a Síria como fronteiras, sem esquecer o histórico colonialista britânico (1917-1947). Após um considerável número de acordos, de avanços e recuos, a conflitualidade naquela zona, onde a Faixa de Gaza é o seu expoente, é diária mas conheceu em 2018 um exponencial de atentados e vítimas que já há alguns anos não se conhecia: 265 incidentes/atentados resultaram em 14 israelitas mortos e 137 feridos; já no que respeita aos palestinianos os dados oficiais indicam 295 mortos e mais de 29 mil feridos (segundo dados da OCHA/ONU). Importa ainda recordar que foi em maio deste ano (14 de maio) que Trump ordenou a mudança da Embaixada Americana de Tel Aviv para Jerusalém.
Mas é o Continente Africano que regista o maior número de conflitos, mortes, feridos, desaparecidos, desalojados, fome e pobreza: Argélia, Burundi, Chade, Egito, Libéria, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Saara Ocidental, Somália, Sudão, Tunísia, Uganda, entre outros conflitos regionais, étnicos e políticos. Só na última década a ONU estima que morreram, por força da guerra neste continente, cerca 5 milhões de crianças com idade inferior a 5 anos.

dos Direitos Humanos…
São diferenciadas as formas e diversos os contextos de violação dos mais elementares e fundamentais direitos humanos: contra a vida e a sua dignidade, o direito à diferença, a liberdade de pensar e exprimir, a alimentação, a saúde, o trabalho, a habitação, a paz e a segurança.
O ano de 2018 foi, infelizmente, repleto de realidades que merecem nota de destaque para que não se apague a memória, por uma questão de respeito, de solidariedade, de alerta. E para prestar merecida homenagem e tributo aos mais de 300 ativitas mortos no mundo, só porque não qquiseram deixar de defender os maisl elementares direitos universais. Destes, tornou-se rosto mediático a ativista e política brasileira (a América Latina é a região com mais ativitas mortos, presos, torturados e perseguidos) Marielle Franco, crítica da ações indiscriminadas da Polícia Militar, política em ascensão (apontada como eventual prefeita do Rio de Janeiro ou deputada federal em Brasília), assassinada aos 38 aanos, em março de 2018.
Além disso, o Mundo, em 2018, não soube, não quis, foi incapaz, foi indiferente, falhou na protecção das crianças. Na República Centro Africana a UNICEF estima que 1,5 milhões de crianças necessitam de ajuda humanitária. 5.000 crianças foram mortas ou mutiladas no Afeganistão. 4,2 milhões de crianças encontram-se em risco de desnutrição aguda grave na República Democrática do Congo. Cerca de 1.800 crianças foram recrutadas na Somália para a guerra. No conflito na Síria, o tal que Trump diz já não existir, 870 menores foram mortos. No Iémen, para além das 5,2 milhões de crianças que se encontram em risco de fome, 1.427 foram assassinadas em 2018.
Mas os conflitos armados não contemplam apenas a morte e a fome. O número de deslocados e refugiados é assustador: a ONU estima em mais de 68,5 milhões de pessoas. No caso dos refugiados, assunto que tem assombrado a União Europeia pela inoperância e incapacidade política e social em o enfrentar, o ano de 2018 foi relativamente próximo (embora “em baixa”) de 2017 e, felizmente, longe dos valores mais altos da última década. Mesmo assim, o movimento de refugiados no mediterrâneo ainda foi significativo: mais de 118 mil migrantes chegaram, por via marítima, à Europa e 2.241 pessoas morreram durante a travessia.
A questão das migrações e dos refugiados conheceu, em 2018, um especial relevo no continente americano, não estando muito longe, na dimensão dos refugiados que chegam à Europa oriundos do Médio Oriente e do Norte de África. A crise humanitária na América Central e do Sul, sustentada na pobreza, na falta de trabalho, na instabilidade política e nos conflitos armados, em países com a Venezuela, El Salvador, Honduras, Guatemala, Nicarágua (134 mortos desde abril nos confrontos contra o governo), levou cerca de 200 mil migrante até ao sul do México na expectativa desesperada de entrarem nos Estados Unidos.
No país onde supostamente a liberdade e a segurança são referência histórica centenas de milhares de americanos tomaram as ruas nas cidades dos Estados Unidos no maior protesto pelo controle de armas chocados por mais um massacre numa escola na Flórida, em março.
São já cerca de 700 mil refugiados Rohingya que fugiram de uma campanha militar brutal em Mianmar (antiga Birmânia) para o Bangladesh, crianças pequenas massacradas diante dos pais, raparigas e mulheres violadas em grupo enquanto as suas famílias são torturadas e mortas, aldeias incendiadas e arrasadas.
Mas é também nos países ditos civilizados que o ano de 2018 assinalou atropelos aos Direitos Humanos inadmissíveis em pleno século XXI. Por exemplo, neste ano, no Japão, foram realizadas 15 execuções por enforcamento.
Destaque, em 2018, para a atribuição (dupla) do prémio Nobel da Paz, distinção envolta em algumas polémicas como, por exemplo, a manutenção do Nobel (2012) à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; ou a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh. Finalmente, este ano, regressa a "normalidade": oO Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, "pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado" (ambos Prémio Sakharov em 2016). Denis Mukwege é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora. Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 2014, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses depois conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra (é a primeira Embaixadora da Boa Vontade para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano das Nações Unidas).

das Tragédias Naturais…
A “mãe” natureza marcou, de forma assustadora e trágica o ano de 2018, com inúmeras mortes e uma devastação de dimensões sinistra.
Os sismos, erupções vulcânicas e os tsunamis na Indonésia, Filipinas e Vietname. As cheias e as inundações, na Índia, China, Japão e Guatemala. Os incêndios em Espanha, na Grécia e nos Estados Unidos.

da Política…
Com o aproximar da Tomada de Posse do próximo Presidente do Brasil, a eleição de Jair Balsonaro foi um dos acontecimentos políticos do ano de 2018, deixando antever um futuro preocupante, incerto e instável para um dos principais países da América do Sul.
Se sempre foi questionável a eleição e a presidência de Donald Trump à frente dos destinos da maior potência mundial, o espelho da desorientação governativa é bem patente no número histórico de demissões na Administração Trump: são já mais de 20, das quais se destacam áreas importantes como a Defesa, a Segurança, as Finanças.
Mas a Europa viveu, em 2018 (com prolongamento para 2019), momentos políticos de especial importância e impactos.
A crise política em Inglaterra está ainda longe de terminar e de ser conhecido o seu final. O Brexit tem trazido uma instabilidade política e governativa complexa e de difícil gestão para Theresa May e para o Partido Conservador britânico, deixando o país e a União Europeia em suspense e incerteza. O referendo à continuidade dos britânicos na União Europeia foi um claro "erro de casting" e tornou-se na expressão profunda da grave crise política e social em Inglaterra.
Atravessado o Canal da Mancha, os últimos meses deste ano trouxeram muitas dores de cabeça a Emmanuel Macron com uma intensa e significativa movimentação social nas ruas francesas, nomeadamente em Paris, protagonizada pelos “Coletes Amarelos”, que tem trazido uma instabilidade social difícil de gerir e que tem potenciado um efeito dominó na região (Bélgica, Holanda) com impactos políticos e sociais ainda por avaliar de forma segura.
Aqui ao lado, na vizinha Espanha, 2018, a par dos significativos casos de corrupção, Mariano Rajoy não superou as movimentações e manifestações pela criação de uma República independente na Catalunha e sucumbiu politicamente às eleições do dia 1 de junho e que elegeram o socialista Pedro Sanchéz.
O ano político também foi feito de algum flop e desilusão. A cimeira histórica entre os líderes da Coreia do Norte (Kim Jong-un) e Coreia do Sul (Moon Jae-in), que decorreu no simbólico Paralelo 38, a zona desmilitarizada que marca a fronteira entre os dois países, fazia perspectivar a implementação de um conjunto de medidas para a "completa desnuclearização" da península coreana. Fazia… porque na prática apenas resta o abrandar dos testes nucleares, sem que haja provas dadas da redução do programa nuclear Norte-Coreano.

2018-04d89905222cb8cd73910cfff821bd38-1200x600.jpg

publicado por mparaujo às 02:16

18
Nov 18

brasil_por-um-fio.png

Nada é mais importante que a vida. Nada se compara à luta pela sobrevivência perante a doença, a guerra ou a fome. Tomemos como exemplo a crise humanitária dos refugiados da África subsaariana, norte de África e do Médio Oriente (como exemplo, a Síria) e a permanente e constante busca diária pela sobrevivência e pela fuga à morte, mesmo que isso signifique mergulhar no completo desconhecido e incerteza.

Mas há outros contextos e realidades que tocam o limiar desta sobrevivência e que merecem também a nossa atenção e preocupação. É o caso da instabilidade social, económica e, principalmente, política que se faz sentir, nos dias de hoje, em vários (bastantes, diga-se) países da América Central e do Sul. À qual se acrescenta um significativo número de catástrofes naturais, numa região do hemisfério para a qual a natureza é madrasta.
São milhares de mexicanos, hondurenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, haitianos, costa riquenhos, venezuelanos que chegam em caravanas de deslocados e migrantes à fronteira mexicana com os Estados Unidos.
À semelhança dos refugiados que atravessam a incerteza do Mediterrâneo, este milhares de migrantes fogem da pobreza, da fome, da violência e da degradação política dos seus países.
Não será por isso de estranhar que Portugal, por um conjunto de circunstâncias históricas e culturais, venha a sentir, muito em breve, esta realidade com milhares de brasileiros.
Não vale a pena escondermos a realidade... o Brasil caminha, perigosamente, para o abismo ditatorial. Ironicamente, através de um "normal" processo democrático que transformou essa mesma democracia na única escolha possível: à direita ou à esquerda, o mesmo resultado prático, a opção sobre um dos extremismos sem alternativa equilibrada ou moderada. Escusam, por isso, PCP e BE virem com falsos moralismos e demagogias balofas, como se mesmo ao lado, na Venezuela, a degradação e corrosão da democracia não fosse uma realidade visível e deplorável, com consequências humanitárias inquestionáveis. A verdade é que seja qual for a origem da deterioração política não há ditaduras de esquerda, nem de direita: há ditaduras, ponto. É de uma descarada hipocrisia política vir, para o caso do Brasil, rasgar vestes quanto a "estar em curso um poder de cariz ditatorial no Brasil" ou "recear a degradação democrática e pedir vigilância da comunidade internacional", quando se aplaude, orgulhosamente, um regime e uma realidade como a da Venezuela.
Aliás, sobre os populismos e os extremismos radicais deveria ser de leitura obrigatória o livro "How Democracies Die" ("Como Morrem as Democracias" - editora Vogais) da autoria de dois especialistas da Universidade de Harvard em ciência política,  Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e publicado este ano a propósito da eleição de Donald Trump.

Infelizmente, é expectável olharmos para o Brasil com uma enorme apreensão porque o que se aproxima em janeiro de 2019 não é nada positivo: convulsões sociais, violência, autoritarismo, degradação das liberdades, dos direitos e garantias dos cidadãos. E bastaram as horas e os dias imediatos aos resultados da segunda volta eleitoral para perceber o destino da "Ordem e Progresso" brasileiros: as medidas estratégicas anunciadas (a liberalização das armas, os atentados à liberdade de expressão, opinião e de imprensa; a intenção de mudar a embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém; o perigo da militarização do regime; ...) as suas ligações estreitíssimas à Igreja Universal do Reino de Deus; o xenofobismo e racismo latentes e religiosamente defendidos, a promoção da desigualdade social, e as primeiras felicitações de Maduro, de Erdogan, de Janos Ader ou de Trump.
Aliás, quanto ao presidente dos Estados Unidos, nunca fui, nem sou, admirador de Donald Trump (bem pelo contrário). Mas quando adjectivam Bolsonaro como o "Trump da América do Sul" a primeira reacção que tenho é: "tomara que fosse". Não pela personificação política mas porque, infelizmente, a estrutura política e das instituições democráticas brasileiras são muito mais frágeis que a democracia americana, apesar de tudo.

Não será, por isso, de estranhar que os consulados portugueses no Brasil venham, no próximo ano, a receber um elevado número de pedidos de asilo, de dupla nacionalidade ou de vistos e que Portugal venha a ver entrar pelas suas fronteiras um considerável número de cidadãos/famílias brasileiros. Estaremos nós preparados para esta onda de migração?

Estará a América do Sul preparada para um aumento das caravanas migratórias por força da permanente instabilidade geopolítica, da pobreza, da degradação da economia e da democracia, da violência?

Transformar-se-á, ainda mais, a fronteira do México com os Estados Unidos da América num novo "Mar Mediterrâneo", tal como o encaram, ainda hoje, os milhares de refugiados do Médio Oriente e de África às portas da Europa (Malta, Itália, Grécia, Espanha)?

Apesar de ser a menos imperfeita de todos os regimes, a democracia não pode, às mãos do populismo, do extremismo, do radicalismo e, acima de tudo, da indiferença (a pior de todas as "armas") transformar-se na "coveira das sociedades".

E os dados assustam as consciências: 230 milhões de pessoas vivem fora do país em que nasceram; há cerca de 14,2 milhões refugiados no mundo; 10 milhões de pessoas em todo o mundo são consideradas "apátridas" – nenhum país as reconhece como nacional; ou cerca 33,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas permanecendo dentro do seu próprio país (deslocados internos). (dados: amnistia internacional)

78477972_TOPSHOTA-Venezuelan-migrant-woman-heading

publicado por mparaujo às 16:36

02
Nov 18

Amal Hussain.JPG

Mas há um turbilhão de sentimentos: revolta, solidariedade, impotência, comoção, choque, desassossego, (...).

E há igualmente uma premissa que importa, desde já, destacar: não colhe o argumento "cá também há situações de..." ou "isso é lá longe, o que conta são os 'nossos'". Não! Não é assim...

Primeiro, a vida, os direitos e a dignidade humana são universais e não conhecem fronteiras.
Segundo, existem realidades e contextos bem distintos.
Terceiro, a preocupação por aqueles que estão ao nosso lado não implica sejam esquecidos ou ignorados os que estão longe.
Por último, esse tipo de argumento (tão ouvido no que respeita à problemática dos refugiados/migrantes) serve, na maioria dos casos, para esconder uma total (seja perto ou longe) indiferença, apatia, marasmo, comodismo, insensibilidade.

Não foram tão poucas as vezes que aqui se deu conta que há muito mais para além do gravíssimo contexto da conflitualidade com o islamismo, que ultrapassa as vivências com os atentados terroristas na Europa ou nos Estados Unidos. Há todo um Norte e Centro de África e um Médio Oriente que vive, há décadas, assolado pela guerra, pela morte, pela fome, pela exploração por terceiros das suas riquezas... completamente ao abandono, onde impera a total ausência por um qualquer respeito pela vida e pelos direitos humanos.

A ciência e a tecnologia evoluem a cada nano-segundo... mas as sociedades e os homens teimam em manter um estado de primitivismo, medievalismo e arcaísmo gritantes (apesar de nos situarmos em pleno século XXI).

A informação e a comunicação atingem uma velocidade estonteante mas cada vez há uma maior conflitualidade entre as pessoas e as nações... Há riqueza e, simultaneamente, mais pobreza... Há melhores condições de vida mas morre-se de fome...

O Índice Global da Fome em 2018 revela que 821 milhões de pessoas passam fome.
Segundo os dados recentemente revelados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, Organização Mundial da Saúde, Divisão da ONU para a População e pelo Banco Mundial, em 2017, morreram 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos e mais 900 mil crianças entre os  5 e 14 anos. Não há argumentos suficientes para se ser indiferente ao facto de, em 2017, tenham morrido todos os dias 15 mil crianças devido à guerra; à escravatura, onde as crianças são 25% das vítimas (ainda há leilões humanos em 2018, por exemplo, na Líbia, onde se vendem pessoas por pouco mais de 100 euros); à escassez de alimento e água; à falta de condições elementares de saúde (vacinação, tratamento médico, etc) ou de infraestruturas básicas como o saneamento.
A maioria das mortes ocorreu na África Subsariana, no Médio Oriente e no Sudeste Asiático, numa lista considerável de países como o Chade, Madagáscar, Serra Leoa, Iémen, Zâmbia, Burundi, República Democrática do Congo, Eritreia, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Síria, Gabão, Gana, Maurícias, Senegal, ou o Sri Lanka... e por aí fora. Países sujos nomes, para muitos, são "perfeitos desconhecidos".

Mas são países com rostos, com vidas...

Infelizmente vamos vivendo à "custa" de símbolos, de rostos, de imagens que se tornaram referência em diversos contextos: o pequeno Aylan Kurdi, a criança síria de apenas 3 anos, encontrado morto sobre a areia de uma praia na Turquia, em 2015; a jovem, Malala Yousafzay, de 17 anos, que sobreviveu a um ataque de talibãs em 2012, Nobel da Paz em 2014, e que luta pelo direito universal à educação das crianças; a jovem síria Doaa al-Zamel, uma das 11 sobreviventes de um naufrágio que vitimou 500 refugiados no mar Mediterrâneo, e que publicou a sua história no livro "Uma Esperança mais Forte do que o Mar", escrito em conjunto com Melissa Fleming, então directora de Comunicação e porta-voz do ACNUR; ou Clemantine Wamariya, que aos 6 anos atravessou sozinha, com a irmã, sete países, andou de campo de refugiados em campo de refugiados, para fugir do genocídio no Ruanda, acabando por encontrar os pais, 12 anos depois, num dos programas da Ophra.

Ontem a pior das notícias corria o mundo. A imagem da criança Amal Hussain, de 7 anos, colhida pelo fotojornalista Tuler Hicks do The New York Times, tinha-se tornado o "rosto" e o "símbolo" da crise alimentar e da fome no Iémen. É mais uma das fotos, das imagens, dos "rostos" tornados referências que NUNCA DEVIAM EXISTIR. A criança Amal não resistiu ao estado debilitado do seu corpo e do seu organismo e acabou por falecer num campo de refugiados a SEIS QUILÓMETROS DE UM HOSPITAL. Vergonha!

Se isto não indigna, não revolta, não inquieta, que a indiferença e a apatia esbarrem nos números que acrescem: a Cimeira Mundial de Defensores de Direitos Humanos, realizada esta semana, em Paris, revela que, em 2017, 312 activistas de direitos humanos foram assassinados (o dobro do registado em 2015); 4.400 trabalhadores humanitários foram vítimas de ataques graves ao longo das duas últimas décadas, dados revelados a propósito do Dia Mundial da Ajuda Humanitária, celebrado a 19 de agosto.

Isto não é (em) Portugal... mas vivemos todos no mesmo mundo e planeta (cada vez mais pequenos). E é tão fácil ajudar (há muitas formas, meios e entidades para escolhar)

(crédito da foto: Tuler Hicks/The New York Times)

publicado por mparaujo às 22:09

02
Set 18

Somos relativamente permissivos e influenciáveis pelo mediatismo e pelo colectivismo no que toca à tragédia, à desgraça e à morte.
Forma muitos os que assumiram a corrente do "Je Suis Charlie" quando em janeiro de 2015 se deu a barbárie do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Mesmo que até à data grande parte nunca tivesse ouvido falar do jornal, nem das suas posições editoriais significativamente polémicas (nomeadamente no que respeita às religiões e crenças). Uns (colectivos e individuais) manifestaram-se porque faz parte dos seus olhares pelo mundo a questão dos Direitos Humanos e das Liberdades e Garantias de qualquer cidadão (no caso, seja o direito à vida, o direito à ofensa e o da liberdade de expressão, opinião e imprensa). Outros porque foram sensibilizados pelas manifestações públicos e assumiram a causa. Há ainda os que o foram... porque sim.
Volvidos alguns meses, os direitos e liberdades depressa viraram a página da revolta popular.
Nem mesmo os trágicos atentados que percorreram a Europa fizeram abalar, significativamente, essa indiferença ou esquecimento prematuros.
Esquecemos a Síria, Iraque, Afeganistão, Somália, Nigéria, Birmânia, Sudão, Iémen, África Central, ... mantemo-nos (mais ou menos) indiferentes ao facto da  FAO (Food and Agriculture Organization), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, anunicar cerca de 224 milhões de pessoas subnutridas no continente africano;
ou, segundo a UNICEF, que uma criança morre a cada dez minutos no Iémen por falta de alimento;
ou ainda, como a ONG "Save the Children" sublinhava, em maio último, que mais de mil milhões de crianças vivem em países confrontados com pobreza extrema, 240 milhões estão em ambientes de guerra e que 575 milhões de meninas vivem em sociedades onde os preconceitos sexistas são um problema extremamente grave.

criança-morta-síria-refugiados-europa.jpg

Faz hoje precisamente 3 anos (setembro de 2015) que a imagem do corpo do pequeno Aylan Kurdi (com 3 anos de idade) caído na areia de uma praia turca chocavam o Mundo (ou grande parte dele).
À data esperava-se que a atrocidade e o impacto da imagem fosse suficiente para alterar mentalidades, políticas e acções, fossem elas dos Governos, de entidades, dos cidadãos, das comunidades ou da própria União Europeia. Até hoje... depressa esquecemos o simbolismo da altura de Aylan Kurdi. Qualquer morte é, por si só, estúpida, muito mais quando se trata de uma criança com apenas 3 anos... mas Aylan Kurdi deu à costa sem vida, com a vida perdida, para "nada".
A União Europeia, os Estados e Nações, os políticos, Governos e políticas, as comunidades, as instituições e a maioria dos cidadãos continua sem saber lidar com esta catástrofe humanitária de quem foge aos horrores e à morte movidos pela guerra de alguns contra alguns, sem qualquer preocupação pelos outros TODOS.
Cresce a xenofobia, o racismo, a indiferença, na Europa...
ganham expressão preocupante os extremismos e os radicalismos (que tanto combatemos no lado de quem faz a guerra e atenta contra a vida do Outro)...
aumenta a instabilidade social pelos confrontos na rua (são já 18 os feridos nos recentes e actuais protestos contra a migração e os refugiados, em Chemnitz na Alemanha)...
é preocupante a incapacidade da União Europeia de lidar com esta realidade, indiferente ao fortalecimento nacionalista e de extrema-direita no eixo Húngaro-Italiano...

E esquecemos... demasiadamente rápido.

A título de exemplo, em apenas três dias (29 junho a 1 de julho de 2018) morreram afogadas ao largo da Líbia mais de 200 migrantes.

O Mediterrâneo continua a ser, simultaneamente, a porta da salvação e o cemitério dos que tentam fugir à morte da guerra ou da fome.

As portas da Europa e o a própria União Europeia (cada vez mais indiferente e menos solidária e livre) continua a ser o Muro que ofusca a janela da esperança de milhares e milhares de PESSOAS.

Tão simples quanto isto: PESSOAS.

publicado por mparaujo às 20:18

13
Dez 17

Nas várias reflexões e análises aqui feitas sobre a questão dos Refugiados e das milhares de vítimas que preenchem os fundos do Mediterrâneo, sempre defendi que a União Europeia (e a própria comunidade internacional) não está isenta de responsabilidades pelo que se passa nos vários pontos do globo (médio oriente, norte e centro África, como exemplos) e pela realidade vivida por milhares de pessoas.

Também não foi isenta de críticas a União Europeia por causa do deplorável e abjecto acordo firmado com a Turquia sobre a questão dos Refugiados.

Isto, obviamente, para além da forma como a União Europeia não soube e não quis encontrar soluções humanitárias para minimizar o desespero de que fugiu à morte para tentar encontrar nova vida na Europa.

De facto, tal como afirma a Amnistia Internacional, algo estranho estaria a acontece para, de repente e sem que houvesse grandes alterações da realidade, desde 2006, o número de refugiados que surgia às portas da Europa mediterrânica ter reduzido em mais de 70%.

Percebe-se agora porquê... muitos dos refugiados já não conseguem fugir da "zona da morte", conforme notícia igualmente o jornal Público. E com a responsabilidade e conivência da Europa.

54cda5958a705b3ec5f88b370ae0e4430aae1e04-1920x580.(fonte da foto: amnistia internacional)

 Untitled.jpg

publicado por mparaujo às 14:54

10
Dez 17

23673610_542549446100295_6700370580597637120_n.jpg

(crédito da foto: facebook... celebração do dia internacional dos direitos humanos)

Há 69 anos, precisamente a 10 de dezembro de 1948, no período do pós-Guerra, foi proclamada a Carta Universal dos Direitos Humanos, sustentada nas atrocidades do conflito da II Guerra Mundial e também no direito natural que fundamentou, por exemplo, a Magna Carta (1215), a declaração de Independência dos Estados Unidos (1776), a Revolução Francesa (declaração dos direitos do homem e do cidadão em 1789) ou a criação da ONU em junho de 1945.

Em 1968, a UNESCO declarou o dia 10 de Dezembro como o Dia Internacional dos Direitos Humanos com o claro objectivo de promover uma cultura de defesa incondicional dos direitos universais.

Volvidos todos estes anos e muitos milhares da história da humanidade, não deverá haver tantos acordos, declarações, compromissos, tão violados e rasgados como a Declaração Universal do Direitos Humanos.

E a realidade que sentimos mais ou menos próxima, mais ou menos tocante, não deixa dúvidas (sem pormenorizar já que, infelizmente, os casos são mais que numerosos):

É a falta da liberdade de expressão e de opinião que resulta em prisões, perseguições e mortes;

São os casos dos países que impõe as suas vontades contra as vontades de autodeterminação de outros;

São os milhares de refugiados que fogem da morte à procura de uma esperança de vida, mesmo que ténue;

É a pobreza, a falta de cuidados de saúde, de educação, de justiça, seja nas nossas comunidades ou, por exemplo, de forma gritante, no continente africano (cada vez mais esquecido);

São as perseguições pela crença/religião, pela orientação sexual ou raça, em tanto do dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas;

São os crimes de abuso sexual e tráfico humano, dos quais, por exemplo, podemos destacar a pedofilia e mutilação genital feminina ou o tráfego de crianças no Gana (“Filhos do Coração”).

Há ainda a violência doméstica, a homofobia, a xenofobia, as desigualdades de género, que caminham lado-a-lado com a vida do dia-a-dia das nossas comunidades.

É este o NATAL de muitas pessoas espeladas pelo mundo.

Por último, quando há, infelizmente, quem procure nas organizações activistas promoções individuais/pessoais e procuram tirar proveitos e benefícios próprios (veja-se o caso da associação “Raríssimas”) não posso deixar de referir e dar nota do trabalho da Amnistia Internacional (no caso partícula da secção portuguesa) e da Associação “Filhos do Coração” da jornalista da TVI, Alexandra Borges.

Natal 2017.jpg

publicado por mparaujo às 12:46

29
Nov 17

mw-1440.jpg

(crédito da foto: Getty)

Basta percorrer a página portuguesa da Aministia Internacional (deveria ser um hábito para todos) para percebermos que o Mundo tem permanentes conflitos que condicionam, atropelam e ofendem os mais básico, elementares e fundamentais Direitos Humanos. Conflitos que, infelizmente, passam longe dos holofotes do mediatismo, passam longe da "nossa porta", mas que merecem especial e cuidada atenção e acção: o desrespeito pela dignidade da vida humana (Farid al-Atrash e Issa Amro, colonatos israelitas; ou "eu acolho", crise dos refugiados); os presos políticos e/ou de consciência e a liberdade de opinião e expressão (Clovis Razafimalala - floresta Madagáscar; Tep Vanny - Camboja; Taner Kılıç - Turquia); as exclusões e crimes étnicos (Taibeh - deportação da Noruega para o Afeganistão; população rohingya em Myanamar/Birmânia); ataque à liberdade de informação (Shawkan - Egipto; jornalistas na Turquia), entre muitos outros casos (apenas exemplificados aqui através de algumas das petições abertas).

Acresce aos exemplos referidos a promoção aqui assumida do projecto da jornalista da TVI, Alexandra Borges (Filhos do Coração) contra a mercantilização e tráfico de crianças no Gana.

Poderíamos ainda referenciar a proliferação dos atentados sob a bandeira do Estado Islâmico, muito para lá dos olhares da velha e agastada Europa.

Mas é mais simples, mais cómodo, menos inquietante, mais volátil, entretermo-nos com a possível deslocalização a norte dos medicamentos; com os 200 € per capita pagos nas conferências governativas; na diabolização do eucalipto ou nas rendas energéticas; no irrisório aumento do IRC acima dos trinta milhões de lucros; ou na palavra dada, palavra desonrada do Governo (e já não entro no futebol porque é promessa pessoal, a bem da sanidade mental, riscar a modalidade do vocabulário público). E não somos capazes de uma simples e mera posição político-administrativa de isentar o pagamento do IMI a quem viu desaparecer o património que tinha (habitação ou empresa) por culpa do fogo e da incapacidade de resposta do Estado.

Ou seja... é demasiado fácil desviar as atenções, criar ruído sobre o essencial: a defesa da vida, das liberdades e garantias mais elementares para a digna existência de qualquer cidadão.

É, por isso, gritantemente preocupante, abjecto, deplorável que, em pleno século vinte e um, na recta final de 2017, haja seres humanos escravizados e mercantilizados por 330 euros (um cêntimo que fosse seria condenável). Não bastava milhares de pessoas que ao fugirem da morte em países como o Senegal, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Níger ou Gâmbia (entre outros tantos em África) encontram o inferno da escravatura na Líbia.

 mw-1024.jpg

 (manifestação na Suécia... crédito da foto: Getty)

publicado por mparaujo às 20:29

25
Nov 17

featured-image-index.jpg

Em dezembro de 1999 a Assembleia Geral das Nações Unidas designava o dia 25 de novembro como o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher.

Mas em 1993, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovava a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Aí era definido o conceito de "violência contra a mulher": «todo acto de violência baseado no género que tem como resultado possível ou real um dano físico, sexual ou psicológico, incluídas as ameaças, a coerção ou proibição arbitrária da liberdade, que pode ocorrer tanto na vida pública como na vida privada». (fonte: ONU)

Para que se possa pôr fim a este flagelo social há que assumir, colectivamente, que a violência contra a mulher é uma inquestionável violação dos direitos humanos.

Violação que se reveste com distintas roupagens:

  • a descriminação de género (num estudo divulgado há cinco dias, 44% dos europeus afirmam que as mulheres foram feitas para tarefas domésticas);
  • as desigualdades laborais e salariais (em Portugal os homens ganham mais 17,8% que as mulheres);
  • o machismo e sexismo;
  • os atropelos culturais e religiosos (como por exemplo a mutilação genital feminina);
  • a diferenciação de direitos, liberdades e garantias;
  • a deplorável e condenável misioginia;
  • e, ainda, a violência física e o femicídio.

Ainda sem o ano ter terminado (a cerca de 30 dias do seu final) 2017 regista 18 mulheres assassinadas vítimas de violência doméstica e ainda o registo de 23 tentativas de femicídio. Sem contar com os inúmeros casos de silêncio, de casos não registados e não denunciados.

Sem título.jpg

publicado por mparaujo às 21:54

17
Jun 17

b55de85f1234ea77660cce723db6af27.jpg

O Eurodeputado (MEP) socialista Manuel dos Santos referiu-se à deputada socialista na Assembleia da República, Luísa Salgueiro, como "a cigana", entre outros "mimos". Tudo a propósito da anunciada candidatura de Lisboa a sede da Agência Europeia do Medicamento e toda a polémica que tem envolvido esta opção do Governo de António Costa, acusado de centralista.

Duas notas prévias que têm apenas relação com a opção governativa. Primeiro, a total amnésia parlamentar, muito por força do clima eleitoralista que se aproxima (autárquicas 2017), já que a Assembleia da República tinha aprovado por unanimidade a opção do Governo em candidatar a capital portuguesa a eventual sede da agência europeia. Segundo, é, no mínimo, curiosa esta posição dos críticos que bradam a todos os ventos contra o centralismo de Lisboa mas que apenas o conseguem trocar pelo centralismo nortenho do Porto, esquecendo, da mesma forma, que o país vai muito para além da foz do Tejo e da foz do Douro.

Quanto à afirmação do MEP socialista...

Toda a acusação racista e xenófoba é, em qualquer circunstância e proferida por qualquer pessoa, condenável e criticável. O contexto toma outras proporções quando proferida por quem assume funções políticas públicas, face à responsabilidade acrescida pelo seu papel e missão, sendo obviamente afirmações deploráveis, inaceitáveis e condenáveis (a todos os níveis.... públicos e judiciais).

E não pode estar em causa se as acusações são proferidas por um político socialista ou de um qualquer outro partido, bem como não pode estar em causa que as mesmas sejam dirigidas a outro político, seja do mesmo partido ou não. Afirmações racistas e xenófobas são-no em qualquer circunstância e condenáveis e inaceitáveis em qualquer contexto.

Daí que a questão em causa mereça uma posição firme do PS e do Primeiro-ministro, até porque as mesmas são totalmente desprovidas de qualquer objectividade ou fundamentação. Nem poderiam ter nunca...

É por isso igualmente incompreensível posições públicas assumidas, interna e externamente ao Partido Socialista. Haver quem queira justificar as acusações com o argumento da ironia é, no mínimo, desonestidade intelectual e surrealismo. Haver quem queira desculpar o eurodeputado só porque no PS há quem também não tenha o cuidado com a verbalização (o que até é verdade e com exemplos bem recentes) não é minimamente aceitável.

Mas pior ainda é que há, no seio do PS, quem fique indignado só porque há socialistas frontais, directos, como, por exemplo, Porfírio Silva, que vieram a público, sem quaisquer rodeios, confrontar o eurodeputado e acusá-lo publicamente (já que as suas afirmações também foram públicas), não só em defesa da camarada deputada mas igualmente porque as acusações são, a todo e qualquer nível, inaceitáveis. O argumento de que há locais próprios, dentro do aparelho do Partido, para se tratar da questão é apenas cobardia política e incoerência dado que não seria de estranhar que a posição fosse manifestamente diferente se a realidade tivesse como palco outro partido político.

Seja de um político de qualquer partido, seja de um político do PS, seja de um deputado ou de um eurodeputado, seja de um político no exercício de funções públicas (mesmo que correspondendo a posição meramente pessoal), seja de um mero cidadão, há limites e fronteiras que não são admissíveis ultrapassar.

E estas são clara e objectivamente inultrapassáveis...

Declaração Universal dos Direitos Humanos
Artigo 2 ° - Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente, de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento, ou de qualquer outra situação.
Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território independente, sob tutela ou sujeito a alguma limitação de soberania.

Constituição da República Portuguesa
ARTIGO 13.º (Princípio da igualdade)
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

publicado por mparaujo às 12:05

31
Mai 17

18765790_10213390493738473_2382756631619272103_n.j

não publicado na edição de hoje, 31 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os falsos moralismos

Decorreu, no final da passada semana, a Cimeira da NATO que reuniu os principais países na Bélgica.

Entre os vários acontecimentos destaca-se o discurso do Presidente dos Estados Unidos que, entre outros temas e outras críticas, aborda a questão dos refugiados. Só que, à “boa maneira” de Donald Trump, a questão, fruto da recente vivência trágica dos acontecimentos em Manchester – Inglaterra, é analisada pelo pior prisma e de forma intelectualmente desonesta.

Continua-se, quando dá jeito em termos de retórica política e para desviar as atenções sobre responsabilidades não assumidas e/ou escondidas, a misturar a tragédia humanitária que envolve esta crise dos refugiados com o problema do terrorismo.

Não há nenhuma prova da relação entre o ciclo migratório dos refugiados, nomeadamente os do Médio Oriente, e os actos de terrorismo que se fazem sentir, principalmente, na Europa nos últimos anos. Os atentados terroristas foram planeados, organizados e praticados por cidadãos europeus de plena condição, independentemente das suas origens. E alguns destes actos nem ligação ao Estado Islâmico têm, basta recordar, por exemplo, o massacre na Noruega (22 de julho de 2011) ou alguns dos acontecimentos recentes nos próprios Estados Unidos.

Focando-nos nas palavras xenófobas de Donald Trump, que afirmou, a determinada altura do seu discurso, que era urgente e essencial dureza para com os refugiados que, segundo o próprio, não se sabem quem são, nem de onde vêm.

A verdade é que este exercício de responsabilizar quem sofre directa e pessoalmente os impactos da guerra e da permanente violação dos direitos humanos, de responsabilizar quem tenta, num último e derradeiro acto de desespero (mesmo que a morte seja encontrada nas águas do Mediterrâneo) fugir à morte na guerra ou às mãos das atrocidades das forças do Estado Islâmico, é, no mínimo, um deplorável e inaceitável discurso de populismo e falso moralismo. Ninguém se refugia por vontade própria, por escolha de vida, por uma opção migratória. Os refugiados (não confundir com processos de emigração) são-no por uma questão de sobrevivência, por uma imposição conjuntural face aos conflitos que outros riam e exploram nas suas localidades, regiões ou países.

E nestes cabem muitos dos que hipocritamente se desresponsabilizam pelas posições e opções geopolíticas e geoestratégicas que tomam.

Que moral tem Donald Trump para actuar ou exigir dureza para com os refugiados se ainda hoje morrem em sucessivos atentados milhares de pessoas no Iraque ou no Afeganistão (supostamente salvo pela intervenção americana)?

Que legitimidade tem Donald Trump para se apresentar como exemplo internacional ou como salvador do mundo se ainda na semana passada “prestou vassalagem” a um dos maiores mercados de armamento, a um dos principais centros do conservadorismo e radicalismo islâmico e a um dos países que mais desigualdades e violações dos fundamentais direitos humanos, como é a ocidentalizada Arábia Saudita?

Que moral tem a União Europeia, a NATO, a Rússia, a China, o Canadá ou os Estados Unidos para responsabilizarem terceiros pela forma como se auto-desculpabilizam pela situação na Síria, no Íemen, no Iraque, no Afeganistão, no Congo, no Sudão, na Nigéria, na república Centro África, na Somália, na Faixa de Gaza, entre outros?

Que moral tem a União Europeia para aclamar uma solução para a tragédia humanitária dos refugiados perante o condenável negócio que fez com a Turquia para tentar estancar um problema que, internamente, não soube e não quis resolver?

A questão do Terrorismo tem de ultrapassar as barreiras dos interesses económicos (petróleo e mercado internacional de armamento), tem de ultrapassar os interesses geoestratégicos das potências internacionais como se a vida dos povos e das nações fosse um mero jogo de xadrez, tem de ser solucionada, acima de tudo, através da diplomacia e da política e não da “força”.

A dureza que Donald Trump referia no seu discurso tem que ser, em primeira instância, para o assumir das responsabilidades de todos, pelo consenso nas actuações internacionais e pelo respeito primeiro pela dignidade humana e pelos direitos humanos.

O resto é a continuação da perigosidade dos populismos, dos extremismos e dos falsos moralismos.

publicado por mparaujo às 09:40

14
Mar 17

jkmpe.png

O mês de março iniciava-se com as polémicas, condenáveis e abjectas declarações do eurodeputado polaco a poucos dias do Dia Internacional da Mulher, aqui retratado (A questão de altura, força e QI.) e destacado pela equipa do Sapo.

Felizmente, as várias reacções junto do Parlamento Europeu viram alguma luz ao fundo do túnel. Não tenho a certeza de se ter feito justiça, mas pelo menos houve um sinal positivo por parte do Parlamento Europeu no que respeita à liberdade de expressão/opinião e a defesa da dignidade humana e dos mais elementares direitos humanos fundamentais, ao caso, os direitos das mulheres.

Repito que não sei se foi feita justiça mas pelo menos que sirva de exemplo e de aviso.

Na altura o eurodeputado polaco, Janusz Korwin-Mikke, afirmou, em pleno plenário e sem qualquer tipo de constrangimento ou pudor, que as mulheres devem receber menos salário do que os homens porque são mais fracas, mais frágeis e menos inteligentes.

Volvidos pouco mais de 15 dias o Parlamento Europeu sancionou o ignóbil eurodeputado com a exclusão do plenário por um período de 10 dias, a perda de ajudas de custo diárias durante 30 dias e a proibição de representar o Parlamento Europeu durante um ano.

É pouco perante o que esconde a afirmação proferida: o crescimento do fundamentalismo e do extremismo, a defesa da misoginia, do racismo, da homofobia e da xenofobia.

publicado por mparaujo às 14:44

02
Mar 17

Ou melhor dizendo... como a estupidez humana nos revela seres abomináveis e deploráveis. E não é, infelizmente, de tempos a tempos... é regular e frequentemente.

A notícia é, em primeira instância, revelada pelo El País (a fonte recolhida é através do Diário de Notícias).

Um eurodeputado polaco, Janusz Korwin-Mikke, em pleno Parlamento Europeu, afirmou, com justificações completamente surreais e vergonhosas, que as mulheres deviam receber menos salário que os homens porque, pasme-se, são "mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes". E as justificações são inqualificáveis: "sabem que posição as mulheres ocupavam nas olimpíadas gregas? A primeira mulher, digo-vos eu, ocupou a posição 800. Sabem quantas mulheres há entre os primeiros 100 jogadores de xadrez? Eu digo: Nenhuma". Isto.. assim, a seco.

Mas há, infelizmente, o outro lado da moeda desta condenável realidade.

Primeiro, é que a dita personagem foi eleita e houve quem nele votasse.

Segundo, numa foto recolhida de uma campanha eleitoral é perfeitamente visível, junto aos apoiantes do ignóbil eurodeputado algumas mulheres.

Terceiro, como é que é possível o Parlamento Europeu ter destas personagens pré-históricas, com afirmações políticas e públicas desta natureza, e, apesar da reacção de alguns eurodeputados, o Parlamento Europeu ainda ir reflectir e pensar se haverá ou não lugar a sanções?

Dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher... infelizmente ainda há muito para conquistar e percorrer. E estamos em pleno século XXI.

17105898_1466334703385847_1973901442_o.jpg

publicado por mparaujo às 16:45

01
Fev 17

800.jpg

publicado na edição de hoje, 1 de fevereiro, no Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os telhados de vidro contra Trump

Já o referi (escrevi) por diversas vezes que a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos é o maior erro da história da democracia nos dois últimos séculos. E não é por desrespeito pela infeliz decisão dos norte-americanos ou por pretender negar a importância do voto livre na essência da democracia. É precisamente a mesma democracia que me legitima a liberdade de expressão e de opinião sobre a decisão democrática dos eleitores norte-americanos.

Afigura-se um mandato na Casa Branca de alguém que de política, interna e externa, percebe muito pouco e faz da função de governação, curiosamente da maior potência mundial, uma brincadeira de jogos infantis ou alguém que acha que a Sala Oval serve os mesmos princípios que o gabinete onde gere (ou geria) os seus negócios (ainda está por saber se bem e de que forma). Mais ainda, alguém que se rodeia de pessoas que fazem da administração norte-americana o espelho dos bastidores e passerelles cor-de-rosa das esferas empresarial e financeira ou da chamada alta sociedade económica ou do ilusório “glamour” das capas de revista “Jet-X”. Governar os Estado Unidos e o que representam para e no Mundo não é o mesmo que gerir uma cadeia de hóteis, campos de golfe ou casinos.

Esta primeira semana da administração de Donald Trump foi mais que suficiente para exemplificar o que será o preocupante futuro dos Estados Unidos e do Mundo e foi também mais que suficiente para nos apercebermos do perfil do 45º Presidente dos Estados Unidos da América: autoritário e totalitário (veja-se o recente caso com a demissão da Procuradora-geral, Sally Yates, em que Trump encarna em si o poder político e jurídico/constitucional); sem respeito pela condição humana e sem preocupações sociais; sem respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos; com uma agenda e estratégia internacionais desastrosas, débeis e condenáveis. E mesmo para quem se apelida de guru empresarial é, no mínimo, questionável a sua visão da economia que não sobrevive, em modo algum, sem uma visão e estratégia global num mundo com cada vez mais menos fronteiras (seja pelas importações, pelas exportações ou pelo simples mercado).

Pior que tudo é a imagem e a percepção de um presidente que isolará os Estados Unidos do mundo, que diminuirá a importância geoestratégica e geopolítica dos americanos no panorama internacional (com benefícios óbvios para a política e os interesses de Putin), que deixará a Europa desamparada e sozinha, que dividirá internamente a América e rapidamente destruirá os princípios fundadores da terra do “Tio Sam”.

Mas as críticas internacionais, concretamente as europeias, a Trump são de uma enorme incoerência e falsidade. Rapidamente se levantaram vozes a condenar veemente a decisão de Trump em relação ao muro na fronteira com o México e à decisão sobre expulsão e impedimento de entrada de refugiados e imigrantes.

É, no mínimo, curioso que líderes e políticos de países da União Europeia e a própria União Europeia se insurjam, neste ponto (repito, neste ponto), contra Trump quando a Europa não soube minimamente tratar, com dignidade, respeito pelos direitos humanos, com estratégia política concertada, de forma solidária e consistente, o problema dos milhares de refugiados que surgiam nas costas mediterrâneas gregas e italianas ou que rompiam nas fronteiras terrestres do leste europeu (pela Turquia, Moldávia, Bielorrússia ou Ucrânia). Isto sem esquecermos as posições unilaterais de muitos países europeus que nunca mostraram solidariedade com os graves problemas que italianos e gregos viveram durante décadas a fio até que o flagelo entrou pelas suas fronteiras a dentro. Basta lembrar a vergonha que foi e é Calais, os camiões na Áustria ou os actuais campos de refugiados. Mais ainda, importa recordar às incoerentes vozes críticas o vergonhoso acordo entre a União Europeia e a Turquia para “vender o problema” e pagar aos turcos para resolverem algo que a UE foi incapaz de solucionar, transformando a vida humana, a vida humana mais fragilizada e mais necessitada, em mercadoria e moeda de troca.

Por fim, importa também lembrar que era importante a Europa olhar para os seus próprios muros e para as suas inexistentes políticas de migração e de acolhimento a refugiados, recordando como exemplo, os recentes “muros” na Bulgária e na Hungria e as respectivas posições políticas dos seus líderes.

É importante que a Europa olhe ara os seus “telhados de vidro” e arrume primeiro a sua casa, sem que isso desculpe, em nada e de qualquer forma, a triste administração de Donald Trump. Em nada mesmo. Basta lembrar uma das últimas afirmações de Trump: “a tortura funciona”.

(créditos da foto: agência Reuters - tvi)

publicado por mparaujo às 09:58

18
Dez 16

alepo.jpg

publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

03
Ago 16

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

18
Mai 16

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpg

publicado na edição de hoje, 18 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Da indiferença crescente

O Observatório da Discriminação, através de um relatório publicado recentemente coincidindo com as comemorações, ontem, 17 de Maio, que analisa, avalia e divulga os dados referentes a 2015, refere que aumentou em cerca de 300% o número de denúncias de crimes motivados pelo ódio em função da orientação sexual e da identidade de género, em relação a 2014. Há um dado interessante no referido relatório que regista um aumento do número de denúncias o que reflecte uma maior consciencialização das realidades e, simultaneamente, uma maior confiança nas autoridades e no papel do sistema judicial. Mas a dúvida que fica é se estes dados, significativamente interessantes e reveladores de uma atitude mais crítica e acusatória para quem atenta contra a dignidade, a igualdade e os direitos humanos, reflectem igualmente uma mudança de atitude e de mentalidade, uma alteração positiva da mentalidade da sociedade e das comunidades.

Recordo aqui parte do que foi escrito no texto da passada semana sobre o Dia da Europa e o “estado de alma” da União Europeia (“Um sonho definhado”) e a forma inconsistente e falhada como a Europa tem tratado a questão dos refugiados. Isto, obviamente, a propósito da defesa dos direitos mais elementares e universais de cada cidadão, de cada pessoa.

Recentemente, a autarquia aveirense promoveu, entre as escolas com 3º ciclo do município, uma sessão da Assembleia Jovem Municipal. Não pretendendo fazer nenhum juízo de valor quanto ás propostas/moções que foram debatidas, houve uma relacionada com a questão da tragédia humana em torno dos refugiados que chegam, diariamente, às portas da Europa e que revelou interessante quanto à sua fundamentação e à sua discussão. E mais interessante porque também reveladora do interesse que os jovens depositam sobre esta realidade. A questão é perceber de que forma é que a maioria dos jovens olha para este problema, com que mentalidade, com que conceitos ou preconceitos. Aos fundamentos (previamente estudados pelo grupo de alunos proponentes da temática) apresentados (e bem apresentados, diga-se) acresce: após os movimentos sociais e políticos surgidos na Tunísia no final de 2010 e que rapidamente se prolongaram até à Líbia, ao Egipto, ao Bahrain, a guerra civil e a crise política e social na Síria (da qual, para a maioria dos cidadãos, a crise dos refugiados é o espelho mais visível) completou, no passado mês de Março, cinco anos. Nestes cinco anos provocou a morte a mais de 470 mil pessoas (segundo um texto do Expresso, com a assinatura da jornalista Helena Bento, tal significa mais da população da Islândia, por exemplo, e quase toda a população do Luxemburgo) cerca de 1,9 milhões de feridos e 4 milhões de refugiados (apenas 700 mil chegaram à Europa) segundo os dados da CNUR referentes a 2015. A tudo isto acresce um país completamente desbastado e destruído.

Mas se a frieza dos números é preocupante e reveladora, não menos inquietante é a forma como a Europa, a União Europeia e as suas instituições, os Estados-membros, não conseguem lidar, liderar e encontrar soluções para esta trágica crise humanitária. A incapacidade de assumir a responsabilidade, ou parte dela, pela crise que é vivida na região e pelo alastrar do Estado Islâmico, a forma como tem lidado com os refugiados como se fossem mercadoria, leiloados por quotas como se a realidade social e económica dos Estados-membros fosse igual aos olhos dos refugiados (a maioria com habilitações superiores e recursos financeiros), “comercializados económica e politicamente” com a Turquia, curiosamente o “fantasma” permanente do alargamento da União Europeia.

Mas não menos inquietante são os mitos que se criam na mentalidade de muitos dos cidadãos e na forma como olham para esta realidade: o receio (ou a desculpa) da entrada de extremistas radicais na União Europeia através do fluxo migratório dos refugiados (estes trocam o medo da guerra pela incerteza da travessia do Mediterrâneo, enquanto os primeiros são já cidadãos europeus de várias gerações e têm os seus próprios circuitos de mobilidade e de acção); a comparação (incomparável) entre os cidadãos nacionais que precisam de ajuda (face à pobreza, ao desemprego, etc) e os apoios que são dirigidos (repartidos) aos refugiados, numa preocupante criação de escalas de prioridades na solidariedade e no apoio humanitário (a maioria dos que aponta críticas aos apoios aos refugiados são os mesmo que nunca saíram do sofá para ajudar o “vizinho”); e, por último, o crescimento dos sentimentos de nacionalismo primário e extremista que leva à xenofobia, à homofobia, ao desrespeito pela igualdade e pelos direitos de todos.

Algo que, curiosa e preocupantemente, também cresce nos mais jovens.

publicado por mparaujo às 11:13

10
Dez 15

Dia Internacional dos direitos humanos.jpgHoje celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Há 65 anos, precisamente a 10 de dezembro de 1948, no período do pós-Guerra, foi proclamada a Carta Universal dos Direitos Humanos, sustentada no atrocidades do conflito da II Guerra Mundial, mas também no direito natural que fundamentou, por exemplo, a Magna Carta (1215), a declaração de Independência dos Estados Unidos (1776), a Revolução Francesa (declaração dos direitos do homem e do cidadão em 1789), a criação da ONU em  junho de 1945.

Volvidos estes 65 anos e muitos milhares da história da humanidade, não deverá haver tantos acordos, declarações, compromissos, tão violados e rasgados como a Declaração Universal do Direitos dos Homens.

Hoje, 10 de dezembro de 2015, com óbvia naturalidade os olhares e a opinião pública voltam-se para a tragédia e a crise dos refugiados na Europa. Facto inquestionável e mais que evidente.

No entanto importa não esquecer que há "mais vida" para além dos refugiados (infelizmente).

Há a falta da liberdade de expressão e de opinião que resulta em prisões, perseguições e morte.
Há a pobreza, a falta de cuidados de saúde, de educação, de justiça, por exemplo no continente africano (mais gritante e mais esquecido).
Há a perseguição pela crença/religião, orientação sexual ou raça, em tanto do dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas.
Há os crimes de abuso sexual e tráfico humano, dos quais, por exemplo, podemos destacar a pedofilia e mutilação genital feminina.
Mas há ainda as coisas "simples(?)" como a violência doméstica, a homofobia, a xenofobia, a desigualdade de género, que caminham lado-a-lado com a vida no dia-a-dia das nossas comunidades.

Teresa Pina - AI Portugal.jpgPor último, importa ainda aproveitar a efeméride para recordar o trabalho que foi realizado por Teresa Pina (ex-jornalista da SIC e ex-assessora) que deixou, ontem, a direcção executiva da Amnistia Internacional - Secção Portuguesa.

Nestes últimos quatro anos, sem querer promover juízos de valor, nem juízos qualitativos, sobre as diversas direcções executivas da AI - Portugal, nestes 34 anos de existência, a verdade é que o país voltou a ouvir falar da AI (infelizmente pelas razões óbvias da sua missão). Fica, aproveitando o dia, o merecido registo.

publicado por mparaujo às 11:29

25
Nov 15

Apesar do ano de 2015 (que ainda não terminou) registar um decréscimo no número de mortes (menos 14 que em 2014) que resultaram de violência contra as mulheres (não só a doméstica, entenda-se), 27 mulheres assassinadas são sempre números que envergonham em pleno século XXI ( 2,5 mortes/mês). Bastava uma para a indignação... simplesmente.

A par destes números avançados pelo Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) acresce ainda 33 vítimas de tentativa de homicídio.

Para além das tipologias mais "visíveis", como a violência física, a violação, a escravidão, a mutilação genital, entre outros, importa lembrar também as tipologias "silenciosas": injúria, difamação, o isolamento, a coação sexual, a violência psicológica e a intimidação, o domínio económico, por exemplo.

dia internacional de luta contra a violencia da mu

publicado por mparaujo às 11:39

13
Nov 15

refugiados.jpgA discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais.

Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Sendo essa, por diversas vezes, uma realidade presente aos olhos de muitos de nós ou espelhada nos números das estatísticas, a última observação é óbvia: de facto há pobreza a mais em Portugal. Mas...

O que não é aceitável é o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a calro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade.

Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros.

Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados.

Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos.

Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados.

Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade.

A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

Vemos, ouvimos e lemos... não podemos ignorar!

A solidariedade não tem fronteiras, nem concorre entre si. É livre, liberta e é humanitária.

Sejam benvindos.

publicado por mparaujo às 14:56

18
Set 15

simbolo ue farpado.jpgou se quisermos... uma Europa sem vergonha.

Continua notória, agravada dia após dia, a incapacidade para a Europa conseguir lidar com o problema dos refugiados, seja às suas portas (ou no seu seio), seja na origem (onde reside a prioridade de acção).

Uma incapacidade política, social, e de sentido de unidade entre os seus Estados-membros.

E mais grave ainda... uma inqualificável falta de memória histórica, por exemplo, no pós Grande Guerra ou no caso da própria história húngara, sem esquecer, mais recentemente no tempo, o conflito nos balcãs.

Os muros e os arames farpados não são qualquer solução, antes um agravamento do problema.
Tal como a indiferença social e humanitária, a ausência de respeito pela dignidade humana, a inoperância política europeia.

À falta de uma política humanitária europeia conjunta e solidária, cria-se mais um arame farpado, ergue-se mais um muro, por mais retórica que se use na argumentação.

VERGONHA!

Vale o que vale... e na prática bem sei que vale zero. Mas após esta inenarrável posição da União Europeia terminou a minha participação como eleitor em eleições europeias. BASTA! Esta Europa não faz qualquer sentido... deixou de ter qualquer credibilidade.

 

publicado por mparaujo às 16:48

06
Set 15

aylan.jpgpublicado na edição de hoje, 6 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O poder da imagem

Ditam os cânones que uma imagem vale mais que mil palavras. Não tenho a certeza de tal rigor matemático mas afigura-se como certo que perante determinada imagem fica-se sem qualquer palavra e assola-nos um turbilhão de emoções e reacções, essas sim manifestamente incalculáveis. Daí que na comunicação social haja sempre uma acrescida dificuldade na decisão editorial de publicar ou não determinadas fotografias. Há razões do foro do direito à reserva da privacidade, da segurança, do pudor, da sensibilidade, do interesse público, entre outros. Ao contrário do que à primeira vista poderia parecer a divulgação de uma imagem carece, em determinadas circunstâncias, de maior cuidado do que a divulgação de uma notícia.

Esta semana a comunicação social, nacional e internacional, viu-se a braços com este dilema editorial: a divulgação da imagem do pequeno sírio Aylan que deu à costa numa praia da Turquia, já cadáver, vítima de afogamento no Mediterrâneo. A opção generalizada foi a da sua publicação.

A imagem choca inquestionavelmente. Choca-nos por ser uma criança indefesa, vítima do desespero dos seus pais em encontrarem a esperança de viver condignamente na Europa; choca-nos pela crueldade de ver o pequeno Aylan morto, sozinho naquela praia, ao mesmo tempo que a imagem transmite uma serenidade assustadora; choca-nos por expressar o clímax da inaptidão da Europa e da comunidade internacional em encontrar uma solução para esta tragédia humana dos refugiados que, dia após dia, batem às portas do velho continente. Fogem da morte com o sonho e a esperança de encontrarem a vida na Europa, preferindo os riscos de poderem morrer no Mediterrâneo à quase certeza de morrerem na sua terra natal.

Mas a opção editorial de muitos órgãos de comunicação social (que rapidamente tomou proporções virais nas redes sociais) de publicarem a imagem do pequeno Aylan prostrado numa praia turca não implicava apenas a questão do choque e do alertar para a realidade trágica dos refugiados. A imagem em si transporta muito mais que o choque emocional que provocou. É, em si mesma, um manancial de informação com muito mais impacto que as inumeráveis notícias já publicadas sobre os refugiados. Tal como poderiam ser (e deveriam ser) as publicações das imagens do interior dos camiões abandonados na Áustria ou das execuções bárbaras de tantas crianças pelo proclamado estado islâmico.

A imagem “horrorosamente bela”, como lhe chamou a Estrela Serrano, chocou, criou um reboliço de sentimentos e reacções (infelizmente algumas mais extremistas e fundamentalistas), deu nova dimensão à tragédia que se vive na Europa e para a qual, quer aqui, que na origem, tarda a ser encontrada uma solução e uma intervenção. Entretanto cresce a dimensão da tragédia humanitária, a incapacidade da Europa se unir em torno de uma solução política e social conjunta… e infelizmente cresce o sentimento “anti-refugiados”, os obstáculos à sua aceitação a integração, os extremismos e fundamentalismos, com os revoltantes argumentos do “também temos os ‘nossos’ refugiados nas nossa ruas, nas nossas cantinas sociais, nas nossas sopas dos pobres, nos nossos caixotes do lixo. Infelizmente, só nos lembramos disso quando necessitamos de usar esta realidade, apesar dela estar sempre à frente dos nosso olhos, na nossa vizinhança, para argumentar a favor da indiferença, da xenofobia, da insensibilidade social. Uma ajuda não impede a outra, as dimensões e contextos são, naturalmente, diferentes.

Vemos, Ouvimos e Lemos… não podemos Ignorar. Apesar de ser óbvio que não será possível acolher, nem salvar, toda a gente, a Europa e a comunidade internacional (entenda-se “ocidente”) não pode continuar a esconder o peso político e social das realidades que provocou ou ajudou a criar no Oriente, nomeadamente sob a capa da ONU, da NATO e sob o “comando” dos Estados Unidos.

Descansa em paz, pequeno Aylan. Perdoa-nos.

publicado por mparaujo às 14:51

01
Set 15

A leitura e a partilha dos textos vem a propósito do artigo do Debaixo dos Arcos da edição de domingo passado do Diário de Aveiro: "Uma Europa sem rumo".

Felizmente, cada dia que passa há uma maior consciencialização para o drama dos refugiados e migrantes que todos os dias chegam às portas desta Europa. Para além das posições politicamente corajosas de Angela Merkel, contra tanto cepticismo dos seus pares europeus, e tanto extremismo e radicalismo de posições da sociedade, encontramos textos que, pelo menos, têm o condão de manter viva a memória e a consciência colectiva.

joao miguel tavares.jpgJoão Miguel Tavares (na edição do Público de hoje, dia 1 de setembro) - "Que fizeste ao teu irmão?" foca a gravidade da indiferença da sociedade (e dos políticos) perante a tragédia humanitária, acrescentando uma memória histórica dos anos da II Grande Guerra lembrando, e muito bem, Schindler e Aristides Sousa Mendes.

rui tavares.jpgRui Tavares, também no Público um dia antes, "Mundo Cívico", centra-se na responsabilidade social, cívica e humanitária de cada um de nós, das instituições e dos Estados. Sendo certo que nunca será possível salvarmos todo o Mundo e toda a gente, é sempre possível, por mais pequeno que seja o gesto e a medida, salvar um pouco do Mundo e algumas pessoas. Neste caso, uma mãe e uma criança que sejam.

Obrigado aos dois.

publicado por mparaujo às 15:13

30
Ago 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 30 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Uma Europa sem rumo

Continua o drama incontrolável dos refugiados e migrantes e que são, pelas razões mais trágicas, notícia constante no dia-a-dia europeu. Do Mediterrâneo transformado em cemitério para aqueles que não conseguiram chegar às costas da Grécia, Malta e Itália, a tragédia passou para o interior da Europa atingindo França, Inglaterra e o norte europeu, aumentando também o número de migrantes que tenta entrar no velho continente por via terrestre. Basta lembrar a situação de Calais ou, recentemente, as cerca de 100 vítimas encontradas no interior de um camião abandonada numa berma de uma auto-estrada austríaca. Já para não falar no permanente atravessamento do Mar Mediterrâneo em direcção à Grécia, Itália e Malta.

Toda esta problemática social e humanitária de dimensões inquestionáveis vem colocar a nu a enorme fragilidade do actual estado de sobrevivência União Europeia. A crise financeira e os resgates internacionais a alguns países da UE vieram questionar a solidariedade entre os Estados-membros. O surgimento de um número significativo de partidos eurocépticos, o crescente sentido de independência e abandono do projecto europeu, a tentativa de "elitizar" (a seis países, como recentemente sugeriu Hollande) a Europa só vem demonstrar a fragilidade política da União Europeia. A incapacidade de encontrar e projectar medidas e políticas, quer na origem, quer no acolhimento, que minimizem e estabilizem este drama humanitário, revela uma Europa sem capacidade de intervenção, sem sentido de unidade e entreajuda. Durante muito tempo (demasiado tempo) o centro europeu olhou com inquietante indiferença para a tragédia quase que diária na costa grega e italiana, até que o drama chegou ao coração da França, às portas de Inglaterra, ao centro do norte europeu. E aí, já as “virgens ofendidas” levantaram as suas vozes, já o problema deixou de ser periférico, já havia a necessidade da Europa distribuir recursos e implementar medidas, apenas porque não era a Grécia, a Itália, o sul de Espanha, mas a toda poderosa Inglaterra, França ou o Norte Europeu.

É esta a Europa falida no seu projecto: uma União Europeia dos subsídios e fundos, das regulamentações, dos burocratas e dos mercados financeiros. Uma Europa de um projecto político, social e económico comum e único e que há muito (mesmo antes do drama dos refugiados) se afundou no Mediterrâneo, ficou presa nos arames farpados ou nos muros de betão, ou se perdeu numa berma de uma auto-estrada.

Uma Europa sem qualquer capacidade de se impor internacionalmente, de encontrar e ser parte de soluções, de implementar políticas coerentes e de assumir as suas responsabilidades. Por mais muros que se ergam e por mais arames farpados que se coloquem nas fronteiras, por mais força militarizadas que se disponibilizem, por mais vigias e controlos que se façam no Mediterrâneo, por mais que se acene com o “fantasma” anti-Schengen, vamos continuar a assistir, dia após dia, a centenas de pessoas desesperadas à procura de um sonho e de uma esperança, da própria vida (algo que não encontram ou perderam no centro de África, no Magreb, na costa africana do mediterrâneo, no Médio Oriente), a tentarem entrar na Europa e à espera que a Europa os acolha. Uma Europa que ainda não percebeu que as situações que levam ao desespero de milhares de crianças, jovens, adultos, idosos, pelas suas condições de vida abaixo do limiar da sobrevivência, onde tudo o que está para além do Mediterrâneo (mesmo a morte na sua travessia) é sempre melhor do que o que se lhes deparar no seu dia-a-dia, é da sua responsabilidade pela forma exploratória com que olham para aqueles países, pela instabilidade social e política que a Europa criou ou ajudou a criar, pela miséria a que aquelas povos foram votados. E este assumir de responsabilidades cabe, também, à União Europeia, não serve é fazer-se apenas de vítima (que o não é).

publicado por mparaujo às 12:04

29
Ago 15

Migrantes 01.jpgDepois das férias (algumas) o regresso.

Antecipando o artigo da edição de amanhã do Diário de Aveiro("Uma Europa sem rumo"): a tragédia humanitária dos migrantes/refugiados.

Segundo a ACNUR (agência da ONU para os Refugiados) cerca de 300 mil migrantes chegaram à Europa, este ano, quando ainda faltam quatro meses para o fim de 2015, tendo-se registado cerca de 2500 mortes na travessia do mediterrâneo, também só neste ano.

Semana após semana (para não ser tão extremista num dia após dia) há novos dados, novas notícias, mais tragédias.

Definitivamente a Europa demonstra, na incapacidade de lidar com este drama (na origem e no centro europeu), a sua fragilidade, a sua fragmentação e desmoronamento. Pior, a Europa começa a dar sinais de estar refém de extremismos e radicalismos que a condicionam na sua liberdade, fraternidade e igualdade.

A União Europeia ficou reduzida a meros fundos e subsídios, a uma burocracia regulamentar e à pressão dos mercados financeiros. Sem solidariedade, sem política, sem resposta social, sem unidade em torno de um projecto comum (que esteve na sua génese e que definhou perante a crise financeira).

No entanto, a bem da verdade e por uma merecida justiça, importa destacar.

É tão fácil, publicamente ou não, criticar e acusar Angela Merkel pela posição economicista que a Alemanha impõe à Europa. Pena é que não haja a mesma frontalidade pública para aplaudir a coragem política que a chanceller alemã tomou ao colocar a Alemanha na vanguarda da defesa dos direitos humanos e no apoio humanitário aos refugiados e migrantes, mesmo contra forte pressão da extrema-direita da Alemanha. ("Merkel vaiada à chegada ao centro de refugiados atacado por neonazis", in Diário de Notícias de 26 de agosto de 2015).

«O Governo de Angela Merkel suspendeu para os sírios a regra da convenção de Dublin que permite expulsar imigrantes ilegais. A Síria tem sido palco dos mais sangrentos atentados do auto-designado "Estado islâmico". A Alemanha é o único país que suspendeu a regra da convenção de Dublin e que não está a forçar refugiados sírios a regressar ao país de entrada no território da União Europeia.» fonte: Jornal de Negócios de 26 de agosto de 2015.

Mais ainda... Portugal dá igualmente uma imagem muito positiva na ajuda e solidariedade humanitária perante este enorme pesadelo humano.

No princípio do mês de agosto, o Governo aprovou um plano estratégico humanitário que prevê o acolhimento de cerca de 1500 refugiados envolvendo os os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Defesa Nacional, Administração Interna, Saúde e Segurança Social. Mas é também a própria sociedade portuguesa que dá mostras de um inquestionável sentido solidário. Segundo a presidente do Conselho Português para os Refugiados, Teresa Tito de Morais, tem vindo a aumentar (são já cerca de três dezenas) o número de empresas e cidadãos disponíveis para acolherem migrantes e refugiados.

(créditos da foto: Alkis Konstantinidis/REUTERS)

publicado por mparaujo às 22:58

09
Ago 15

arame farpado.jpgpublicado na edição de hoje, 9 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Nem muros, nem arames farpados

O sentido, o significado e os princípios fundadores de uma Europa que viu, no pós-guerra, há cerca de 70 anos, uma janela de oportunidade para se afirmar nos destinos do mundo, no plano geopolítico e geoestratégico, têm, cada vez mais, os dias contados. Resultado, entre outros factores, da necessária ajuda americana na II Grande Guerra não foi capaz de se tornar auto-suficiente no plano militar e da defesa, bastando recordar a ineficácia de uma resposta isolada no conflito dos Balcãs e a actual incapacidade de resposta no conflito na Ucrânia, com vantagem russa. Apesar de ter conseguido furar a cortina de ferro, fazer cair o muro e unificar as duas alemanhas e ter provocado a queda do Pacto de Varsóvia e da União Soviética, não é menos verdade que não conseguiu, entre as diversidades, encontrar a união e solidariedade, tão presente na sua fundação, entre os seus Estados, nem soube, até à data, apesar da convivência no seio da NATO, encontrar uma resposta para permanente entrave à Turquia. Do ponto de vista económico e financeiro os últimos anos têm demonstrado uma fragilidade e uma conflitualidade internas nas respostas à crise, criando um fosso entre os países periféricos e os do norte, entre os mais ricos e os menos ricos, que tem trazido uma instabilidade política e social preocupante e que tem fracturado a União Europeia. Por outro lado, ao fim de todos estes os anos, após a sua fundação, o euro não se tornou a moeda de referência nos mercados internacionais e a excessiva abertura e permissividade ao mercado asiático tem criado algumas dificuldades à economia europeia. A par disto… Nesta semana registaram-se os 70 anos da tragédia de Hiroshima (a 7 de agosto) e, hoje, precisamente, a 9 de agosto a tragédia de Nagasaki. No balanço imediato, no lançamento da primeira bomba, a “Little Boy” a bordo do bombardeiro “Enola Gay”, estimou-se um número de vítimas na ordem das 80 mil mortes, valor que disparou (mesmo sem nunca se apurar a realidade estatística), por força dos ferimentos e da radiação, para cerca de 140 mil. Dois dias depois, com o balanço trágico de Nagasaki, após o lançamento da “Fat Man”, sobre a cidade que albergava a maior base da Marinha Imperial Japonesa, o balanço final cifrou-se em mais de 250 mil mortos. Ironicamente, a par com o desembarque na Normandia, este seria o contributo para o fim do conflito da II Guerra Mundial. Mas o mundo não ficou melhor… vivemos, no pós-guerra, um período de aparente estabilidade, numa paz podre, que ia mantendo a conflitualidade, embora mais regionalizada, na América do Sul e Central, em África, na própria Europa, na faixa de Gaza, e, no pós-11 de setembro, no Médio Oriente e na orla africana do Mediterrâneo, provocando, para além de todo resultado óbvio da conflitualidade bélica, uma instabilidade política e uma destruição social e económica de dimensão inquantificável. E, neste ponto, de novo a fragilidade e a fraqueza europeia: a explosão da tragédia da migração. A Europa, para além da responsabilidade política, económica e militar, que deve assumir pelas posições tomadas na origem e no foco do problema, e para além da falta de solidariedade com os Estados-membro da faixa mediterrânea (Itália, Grécia, Malta, …), encara a tragédia humanitária da pior forma, agora que o problema também bateu às portas dos “donos da Europa” França e Inglaterra (a par da Alemanha), e da Hungria. É inadmissível, dentro dos princípios europeus, que se encarem as mortes (cada vez de maiores dimensões, ainda na passada quinta-feira mais de 200 mortes) no Mar Mediterrâneo, transformado em enorme cemitério (mais de 2000 mil mortes este ano), e o desespero às portas de Calais, com muros, com arame farpado, com cães, com indiferença, com extremismos. A Europa tem responsabilidades acrescidas neste alimentar de um sonho, de uma esperança, de quem prefere arriscar tudo (até a vida) do que ter a certeza da morte na sua própria terra e casa. A título meramente exemplificativo, a Europa transpôs, ou ajudou a transpor, o inferno para a terra em países da África Subsaariana, do Magreb, do Médio Oriente, do Corno Africano, etc., como a Argélia, Síria, Egipto, Líbia, Iraque, Somália, Afeganistão, Eritreia, Etiópia ou o Sudão.

Transformar as realidades política, social e económica, destas PESSOAS, em vidas muito abaixo das trágicas condições das favelas ou dos piores bairros de lata; deixá-las num limiar de sobrevivência que as faça olhar para a Europa, do outro lado do mar, como um oásis e a ÚNICA esperança de superar a morte imediata, sem uma resposta eficaz na origem, com a indiferença à legitimidade de reclamar a Declaração Universal de 1948; é assinar a sentença de morte para tantos cidadãos e a declaração de incompetência e impotência da Europa. Sob a capa de um falso humanismo e moralismo, de uma podre bandeira da democracia, de um ausente sentido de responsabilidade política, económica, social e humanitária, a Europa bateu no fundo, com novos muros, arame farpado e cortinas-de-ferro.

publicado por mparaujo às 09:57

07
Mai 15

homofobia.JPGTendemos com demasiada facilidade a desvalorizar o ridículo e a menosprezar convicções extremistas. Mas a verdade é que, cada vez mais, vão surgindo e vingando na sociedade (e na política) posições extremistas e fundamentalistas, que, essencialmente, atentam à dignidade humana e ao inquestionável direito à diferença. Mais ainda, vão ganhando demasiados adeptos. E isto deveria preocupar.

A título de mero exemplo…

Há poucos dias, em março, foi noticiada a proposta de lei – “Lei da Supressão Sodomita”, apresentada pelo advogado McLaughlin, no Estado da Califórnia, que pretendia implementar sete medidas contra a homossexualidade, entre as quais a execução com um tiro na cabeça. Para as luzes da ribalta, muito por culpa da confrontação política entre o deputado social-democrata Duarte Marques e o ex-líder do BE Francisco Louçã, saltou o nome Pedro Cosme Vieira (dispenso-me a qualquer referência cibernética porque o lixo não merece publicidade). Do anonimato para o viral, ficaram as expressões deste professor universitário do Porto referentes à migração e às tragédias no Mediterrâneo, aos doentes infectados com HIV: “barcos com petralhada”, “afundar os barcos e matar toda a gente” ou “o abate sanitário de todos os infectados (HIV)”. E isto, aqui mesmo, em Portugal em pleno sec.XXI.

Mas não só em Portugal. Em plena campanha eleitoral britânica (as eleições ocorrem hoje) o líder do partido eurocéptico UKIP, Nigel Farage (nas últimas europeias foi a terceira maior força política, em votos) defende a limitação e a expulsão de imigrantes (redução para 90%) e responsabiliza a imigração pelos casos de HIV no Reino Unido (60% dos 7 mil infectados em Inglaterra), dando viva voz à crescente xenofobia e homofobia. Recorde-se ainda a “ameaça” feita à União Europeia, mesmo que demagógica, do ministro da Defesa grego quando afirmou abrir as fronteiras e as portas gregas aos fundamentalistas islâmicos para entrarem na Europa.

E, recentemente, de regresso aos Estado Unidos, surge, de novo, o fundamentalismo religioso (tal como no caso da Lei da Supressão Sodomita) como argumentação para a exclusão social, para a xenofobia e para a homofobia. Uma norte-americana, Sylvia Ann Driskell (segundo a própria, “representante de Deus”) apresentou, formalmente, queixa num Tribunal do Estado do Nebrasca contra todos os homossexuais, imagine-se, do planeta. Tudo isto com a ridícula fundamentação do “pecado, da religião e da moral”.

Independentemente da minha opção e orientação sexual não tenho qualquer direito, moral ou superioridade para julgar quem, por opção e convicção próprias, tem outros rumos e orientações de vida (de regresso à tolerância e liberdade do caso “Charlie”). Mais, como cidadão, defendo por convicção liberal de costumes e princípios, a liberdade de cada um em escolher a sua orientação sexual, sem que isso me dê qualquer direito de julgar ou marginalizar. Por outro lado, como católico (para além da náusea pelo uso e abuso da religião e do nome de deus ou cristo) não conheço nenhum Deus que me ordene matar, marginalizar, inferiorizar, limitar nas liberdades e convicções de cada um. Conheço sim um Deus a quem apenas cabe julgar, e que dá a cada um de nós a liberdade e a independência para fazermos as nossas opções, convicções e princípios de vida.

Mas se há quem se ria e ridicularize estes exemplos de intolerância, de extremismos, de fundamentalismos ou radicalismos, não deixa de ser preocupante o seu crescimento, a sua frequência, a visibilidade pública e o espaço mediático que ocupam, mais ainda o “silêncio falacioso e traiçoeiro” de muitos que, ao lerem estas realidades, interior e silenciosamente, batem palmas e rejubilam de gozo, engrossando fileiras.

publicado por mparaujo às 16:04

22
Abr 15

Mediterraneo tragedia 03.jpgpublicado na edição de hoje, 22 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Mediterrâneo já não é um mar

Embora a realidade não seja recente, já há alguns anos que instituições internacionais dos direitos humanos, das migrações e refugiados, bem como, por exemplo, o Papa Francisco, têm feito eco de inúmeros factos, a verdade é que, de repente, o Mediterrâneo passou de mar a cemitério, face aos trágicos acontecimentos, de uma dimensão preocupante, ocorridos neste fim-de-semana e início da semana: mais de mil mortes no mar e milhares de pessoas a chegarem à costa da Europa (Itália, Grécia, Chipre, Malta ou Espanha) ou a serem resgatadas no oceano.

Variadas vezes, demasiadas até, a Europa sentiu-se sobressaltada por uma tragédia humana inconcebível em pleno século XXI. Em todas as vezes se ouviu a Europa a dizer “nunca mais”. Face à dimensão que esta catastrófica realidade tomou é altura da Europa dizer “BASTA”.

Inúmeras vezes se ouve a pergunta “quanto vale uma vida humana”? Uma que seja. Não tem, nem pode, ter preço. A vida e a sua dignidade. E esta realidade inqualificável tem de ter a responsabilidade de todos. Não apenas da Europa dado os acontecimentos terem lugar no mar Mediterrâneo e como destino uma vida de esperança e sonho num qualquer país europeu. A responsabilidade tem de ser repartida por todos: Europa, ONU, NATO, UNICEF, … O problema é extremamente complexo, mas não pode ser adiado e encapotado infinitamente, à espera que o tempo resolva, porque o tempo não resolve, apenas o agudiza. O mundo não pode olhar apenas para onde residem os focos geoestratégicos, geopolíticos ou geoeconómicos (com o petróleo). O mundo não pode continuar a fazer de conta que África, quase toda ela, não aparece no mapa. O mundo não pode ser “Charlie” em defesa do que apenas é (valores) europeu ou preocupar-se com 11’s de setembros ou de marços e, simultaneamente, assobiar para o ar com o que se passa no Quénia, na Nigéria ou, como é o caso, da Líbia ou do Iémen, sem esquecer a Somália, no Mali, no Sudão ou no Chade.

A responsabilidade da vivência num contexto de miséria, guerra ou de exploração humana (onde se inclui a escravatura, o tráfico, a violação dos mais elementares direitos à dignidade e à vida) tem de ser assumida por todos e não o sacudir a água do capote apenas para o lado islâmico, para o fundamentalismo religioso ou para o recém-chamado Estado Islâmico. Porque há muito para além das mortes no Mediterrâneo ou dos campos de refugiados onde os que sobrevivem ficam demasiado tempo em condições mínimas de sobrevivência. Há aquelas vidas que terminam às mãos das redes de tráfico humano e que não chegam sequer a ver o mar. Há aqueles que depois de um sonho falhado regressam (são deportados) em condições piores (porque tudo venderam e perderam na esperança de uma vida melhor) ao ponto de origem, eventualmente desejando terem ficado no Mediterrâneo.

À Europa cabe a responsabilidade de um maior controlo do seu Mar, de melhores e mais eficazes políticas de migração e de apoio aos refugiados.

À ONU cabe a responsabilidade de criar e implementar condições de estabilidade social, política e económica em África, ao caso, no Norte de África, porque muitas desta realidade resulta de impactos de irresponsabilidade políticas e económicas cometidas por Estados membros.

A nós cidadãos, apesar da nossa impotência, em defesa dos valores da vida humana, cabe-nos a indignação e o respeito, porque nenhuma vida, seja qual for e em que circunstâncias for, tem um preço. Hoje eles, amanhã… quem sabe?

publicado por mparaujo às 09:48

pesquisar neste blog
 
arquivos
2019:

 J F M A M J J A S O N D


2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

28 seguidores

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Agosto 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
16

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


Siga-me
links