Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

08
Ago 14
http://images.cdn.impresa.pt/sicnot/2014-05-25-h264_thumb4_sec_44.png19

Do dicionário... defraudar: (...), lesar, fraudar, iludir, enganar.

Concentremo-nos nestes últimos dois sinónimos de defraudar.

A notícia é "fresca" (logo a abrir a manhã): "Marinho e Pinto vai abandonar Parlamento Europeu". Após a chegada ao Parlamento Europeu, sete dias bastaram para Marinho e Pinto regressar a casa.

Segundo ao antigo Bastonário da Ordem dos Advogados, eleito eurodeputado nas últimas eleições europeias pelo Movimento Partido da Terra, com uns surpreendentes (embora questionáveis) 7% dos votos (o que levou, inclusive, à eleição de um segundo eurodeputado), as razões são essencialmente três (pelo que refere nas suas declarações à imprensa):

- a desilusão face ao projecto europeu: "o elemento agregador da Europa não está nos ideais nem nas políticas, mas no dinheiro"; "saio menos europeísta do que quando entrei". Ora bem... em que planeta vivia Marinho e Pinto quando se candidatou ao Parlamento Europeu? Sendo candidato em Portugal, por um partido português, numa altura em que o país ainda estava sob o programa de ajustamento (Troika), Marinha e Pinto acreditava mesmo que a economia tinha um papel secundário nos actuais destinos do mundo?

- a questão salarial: "o rendimento auferido pelos eurodeputados, que pode chegar aos 17 mil euros/mês, é vergonhoso". Tapar o sol com a peneira ou tratar os portugueses por parvos é que não. Há, em Portugal, valores salariais (excepções, mas há) muito superiores a 17 mil euros. Por outro lado, tratando-se do Parlamento Europeu onde se encontram eurodeputados de 28 países, onde nalguns deles o salário mínimo nacional é 4 ou 5 vezes maior do que o de Portugal, não se percebe a vergonha (ou até mesmo a obscenidade) do valor auferido por um eurodeputado. O problema não está na vergonha dos 17 mil euros/mês... a vergonha está no valor médio de 800 euros dos salários em Portugal. Além disso, este valor é por demais sabido e público, até para o politicamente mais "comum" e "distraído"do cidadão. Marinho e Pinto já o sabia na altura das eleições, em maio passado.

- a realidade nacional: o quase futuro ex-eurodeputado Marinho e Pinto afirma que projecta uma candidatura presidencial (em 2015, note-se) por entender que "os problemas nacionais são mais graves do que os europeus". Que a realidade nacional é o que é, está enferma e não tem sido fácil viver cá e aguentar toda esta crise, é um facto. Mas que a realidade que vivíamos até ao final do Programa de Ajustamento, mesmo que tenuemente, era pior também não restam dúvidas era a mesmíssima realidade que Marinho e Pinto poderia constatar no dia-a-dia dos portugueses na altura das eleições. Porque é que avançou e não se afirmou antes como futuro candidato presidencial, quando tantos nomes já foram tornados públicos?

Do ponto de vista pessoal, a minha análise já tinha feito na altura da avaliação dos resultados eleitorais mas que se completa com esta notícia de hoje:

1. Marinho e Pinto não tinha nenhuma afinidade político-partidária com o partido que o elegeu (Movimento Partido da Terra). Apenas o mediatismo público.
2. No Parlamento Europeu, nenhum eurogrupo/família parlamentar o aceitou. Ficou politicamente órfão.
3. Sempre disse que era um "fiasco" em termos políticos, mesmo quando muitos vaticinaram projecções legislativas e presidenciais futuras. Aqui está a prova, mesmo que o próprio tenha referido publicamente a sua intenção de concorrer a Belém.
4. No entanto, nunca fez qualquer sentido político estar a extrapolar resultados (nº de votos e percentagens) eleitorais entre Europeias ou Legislativas e, muito menos, Presidenciais. Já para não falar nas autárquicas. Aliás, basta recordarmos o que aconteceu com o PS nas referidas europeias e os impactos internos que teve.

Deste modo, aqueles que, pelo mediatismo do candidato ou porque quiseram demonstrar o seu descontentamento face ao sistema político e aos partidos políticos, votaram em Marinho e Pinto (e não no MPT) sentem-se hoje perfeitamente "defraudados".

E afinal o problema não está apenas na imagem dos políticos e nas estruturas partidárias... a falta de ética e princípios políticos está-nos no sangue. É geneticamente portuguesa.

publicado por mparaujo às 15:20

28
Mai 14

publicado na edição de hoje, 28 de maio, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos

Rescaldo eleitoral europeu

Primeira nota para os resultados. Apesar do PS ter sido o partido com maior percentagem, número de votos e número de eleitos (o que, matematicamente o rotula como vencedor das eleições europeias de 2014), a verdade é que o pódio deve ser repartido por dois claros vencedores destas eleições: a CDU que reforça a sua presença europeia e surge, neste caso, como a terceira força partidária; e a surpresa Marinho e Pinto (ex-Bastonário dos Advogados) ao ser eleito eurodeputado pelo Movimento Partido da Terra, arrastando consigo mais um eleito. Há depois três casos de insucesso eleitoral: o PSD viu-se relegado para a segunda força partidária europeia, mesmo que com apenas um eurodeputado a menos que o PS e com uns pouco relevantes 3,5% de votos, aproximadamente, de diferença para os socialistas; o Livre, do ex-eurodeputado Rui Tavares que não vê espelhado nas urnas o interessante trabalho europeu que produziu nos últimos cinco anos, não tendo sido eleito; e o Bloco de Esquerda que, depois de várias “vivências” internas desde as eleições de 2011, vê o seu eleitorado cair para menos de metade (de cerca de 11% para 5%, valores arredondados) e apenas eleger a eurodeputada Marisa Matias, ficando muito aquém dos números conquistados por Marinho e Pinto e o MPT. Por fim, embora esperada, a surpreendente percentagem da abstenção (acima de 66% quando em 2009 rondou os 63%).

A segunda nota para a análise política dos resultados. O Partido Socialista, que tanto pediu um cartão vermelho ao Governo (apesar das eleições serem europeias) e um resultado histórico, apenas se pode congratular com o facto de ter sido o mais votado. Nem houve um resultado histórico, nem se destacou do PSD e do CDS (sendo a margem muito pequena ou pouco relevante) e nem conseguiu capitalizar o voto de protesto, conforme demonstra a percentagem conquistada (cerca de 31%). Aliás, o PSD e o CDS, em coligação, sofreram, de facto, uma queda de 4% dos votos em relação a 2009, mas não tão significativa quanto o PS esperaria (e pediu) e sem grande transferência de votos para as cores socialistas (o que não significa que o cenário legislativo não possa ser diferente do que foram estas eleições). A verdade é que o grande cartão vermelho e o “voto de protesto” ao Governo veio pelo lado da abstenção (que cresceu ao contrário do que aconteceu no resto da Europa), muita com origem na sua própria faixa partidária e eleitoral. Daí o óbvio e obrigatório arrefecimento do júbilo socialista, já que os resultados não foram tão expressivos quanto esperavam e sem dar origem a fundamentação sustentada para uma extrapolação para as próximas eleições legislativas, deixando ainda muitas dúvidas à liderança de António José Seguro e à sua capacidade para criar uma alternativa socialista ao actual Governo. A CDU demonstrou, como já o tinha feito nas autárquicas de 2013, uma coerência e constante eleitoral relevante e expressiva, sendo aqui, claramente espelhado o voto do descontentamento face à Europa. Por outro lado, Portugal assistiu a um novo processo de populismo eleitoral com a eleição de Marinho e Pinto. Este resultado, a par da elevada abstenção, deviam obrigar os partidos, principais responsáveis pela crise democrática e pelo afastamento dos cidadãos em relação às instituições e à política, a reflectirem sobre as suas práticas políticas, sobres as suas estratégias, sobre os seus desempenhos democráticos. Porque este foi, claramente, um resultado da indiferença democrática, de uma alternativa ao voto em branco (ou nulo), que dificilmente terá expressão numas eleições legislativas, mas que já teve expressão nos movimentos de independentes nas recentes autárquicas do ano passado. Além destes factos, importa ainda olhar para os resultados do BE e do recém criado Livre. O BE vive, desde de 2011 (pelo menos) uma crise de identidade, de consolidação e de estruturação que serão espelhadas nas próximas eleições legislativas, obrigando a um acrescido trabalho árduo. Quanto ao Livre, a não eleição de Rui Tavares (injusta) deverá ter reflexos num partido criado muito em torno destas eleições, da figura do ex-eurodeputado, muito em cima dos acontecimentos, sem tempo para amadurecer. E os reflexos são óbvios: a incapacidade de afirmação pública e de estruturação interna para as eleições legislativas de 2015.

Terceira nota e final. Os surpreendentes resultados europeus dos partidos extremistas (à direita e à esquerda) como a vitória em França da Frente Nacional, na Grécia do Syriza e do terceiro lugar do Aurora Dourada, ou dos anti-europeístas (como, por exemplo o britânico UKIP). Curiosamente, para os partidos ditos tradicionais e dos arcos governativos respectivos estes resultados apresentam-se como preocupantes. De facto e não devem ser subvalorizados, porque a verdade é que este crescimento dos radicalismos e extremismos, e este descontentamento em relação ao futuro da Europa deverá merecer preocupações e reflexões futuras e um assumir, por parte dos partidos tradicionais, da sua enorme responsabilidade nos ferimentos na democracia, na desvalorização do papel da política, e, no caso em concreto, no desvirtuar do espírito que esteve na génese da União Europeia.

publicado por mparaujo às 10:42

19
Mar 14

publicado na edição de hoje, 19 de março, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
O “inconseguimento” europeu.
Aproxima-se o primeiro acto eleitoral, de um ciclo de três, a realizar este ano, a 25 de maio: as eleições europeias. Curiosamente, numa altura em que, por distintas razões, a União Europeia tem estado mais presente na agenda política, quer nacional, quer internacional. Do ponto de vista interno sucedem-se as manobras para a apresentação dos candidatos ao lugar de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, que ficará vago após o processo eleitoral referido. Em termos internacionais, a questão coloca-se no papel, triste, diga-se desde já, que a União Europeia, e alguns Estados Membros em particular (Alemanha, Espanha e Inglaterra à cabeça), tem desempenhado em relação à crise na Ucrânia. Do ponto de vista nacional, a questão coloca-se a dois níveis: o primeiro na relação que a União Europeia tem com a missão da Troika e o resgate financeiro a Portugal, concretamente em se saber qual será o seu papel e a sua solidariedade no pós-troika; o segundo, precisamente com o processo eleitoral de maio próximo.
Acontece que todo este envolvimento europeu nas circunstâncias apontadas tem tido um impacto negativo na frágil realidade europeia. No caso concreto de Portugal, a União Europeia, ao fim de 28 anos de adesão, continua a ser um conceito e uma realidade bem distante do dia-a-dia dos portugueses, quer no seu funcionamento, quer na sua concepção, quer nos seus princípios e fundamentos (objectivos e função, regulações e tratados). Para a grande maioria dos portugueses a Europa continua a ser o “bolso dos subsídios”, o “papão da regras e das quotas”, o destino preferencial do estigma da emigração. Ou ainda, onde cerca de duas dezenas de políticos nacionais e tecnocratas vão “ganhar algum sem se saber a fazer o quê”. Coisas básicas e elementares, para além do conhecimento do número dos Estados Membros (28), como as sete principais estruturas europeias (Parlamento Europeu, Conselho Europeu e Conselho da União Europeia, Comissão Europeia, Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas – sim também há um na UE, e Banco Central Europeu) são conceitos e realidades distantes da imagem que os portugueses têm da União Europeia. Aliás, não será por isso de estranhar os dados vindos a público na comunicação social, no passado dia 15, num estudo de opinião realizado pela Pitagórica que revela que cerca de 60% dos portugueses não sabe um único nome de um dos 22 eurodeputados que representam Portugal no Parlamento Europeu. Excluindo o conhecimento sobre o nome de Durão Barroso e a sua função como presidente da Comissão Europeia, e que a União Europeia é constituída por 28 Estados Membros, o restante elementar conhecimento sobre a realidade europeia é algo surreal: que são 766 os eurodeputados que compõem o Parlamento Europeu, órgão directamente eleito pelos cidadãos de cada Estado Membro; que são 22 os eurodeputados portugueses (embora em maio, Portugal perca um e passem a ser 21 os eleitos por força da adesão da Croácia); que a duração dos mandatos é de cinco anos; ou que a dimensão da Comissão Europeia comporta 28 comissários.
Face a estes dados, parece ser importante que as instituições (por exemplo, Comissão Nacional de Eleições e Presidência da República) e os partidos promovam uma eficaz sensibilização dos portugueses para a importância do processo eleitoral europeu, dado o afastamento dos cidadãos em relação à Europa e face ao histórico valor elevado da abstenção nas eleições europeias.
Aliás, seria importante que os partidos não usassem o processo eleitoral europeu para acertos de contas governativos (actual e passado recente) e se focassem em aspectos verdadeiramente relacionados com os objectivos eleitorais: o futuro da Europa; o impacto que a União Europeia tem em Portugal; no papel e no peso que as organizações europeias têm; na solidariedade europeia entre os Estados Membros (ou ausência da mesma); no futuro da zona euro e na discussão sobre a permanência portuguesa; na dimensão política e social da União Europeia; na capacidade geoestratégica e geopolítica que a Europa tem ou não; na eventual criação e uma força militar (ou manter a Europa na NATO). São inúmeras as realidades e questões que são relevantes para o debate e posições políticas para estas eleições. Suficientemente importantes para deixarmos outras (não menos importantes) questões para os momentos próprios e que não estarão assim tão distantes (debate interno após o fim do programa de ajustamento já a partir de maio e eleições legislativas já em 2015).

publicado por mparaujo às 09:46

26
Jan 14

Ontem, o Jornal de Negócios, publicou uma sondagem (produzida pela Aximage) referente às intenções de voto dos portugueses para o próximo processo eleitoral: eleições europeias.

As eleições terão lugar daqui a cerca de quatro meses (em Maio). Os resultados apurados dão uma vitória à já anunciada coligação PSD/CDS com 37,1% das intenções de voto, contra os 35,5% de votos no actual maior partido da oposição, o PS.

Não vou, nem faz qualquer sentido a esta distância temporal, fazer qualquer comentário às intenções de voto nos partidos. Ainda há caminho a percorre, não se entrou em qualquer período de campanha, o Governo ainda terá sobre si o ónus da austeridade e terá de justificar o período pós-Troika que se avizinha. Como diz o ditado popular, muita água correrá debaixo da ponte.

Mas há dois dados sobre os quais importe refletir, porque esses não deverão sofrer significativas alterações e são relevantes.

Primeiro, o facto da sondagem espelhar um significativo valor de votos nulos, em branco e em “outros” partidos, situando este item acima das intenções de voto no PCP e no BE.

Mas mais importante e preocupante, é o número de abstenções: 60,8%. É certo que as eleições europeias sempre tiveram muito pouco impacto nos portugueses. Ou porque os portugueses, ao fim destes anos todos de integração europeia, ainda não entendem o peso e a importância da UE; ou porque, entendendo-a , não a aceitam; ou porque os portugueses continuam alheados da política (por mais que critiquem); ou, ainda, pelo facto, da maioria dos portugueses estarem completamente desiludidos com o rumo do país. Não só pelos 60% de abstenções (e mais 11% de indecisos), mas também pelos resultados da sondagem da Universidade Católica, realizada este mês, e que revele que “mais de dois terços dizem que o país está pior do que antes da Troika”.

publicado por mparaujo às 23:28

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