Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

26
Out 19

Há dois dias, a Amnistia Internacional Portugal apelava à assinatura da Petição (dever já cumprido) na área dos direitos económicos, sociais e culturais: "Milhares de pessoas em risco de vida no sul de Angola".

Entretanto, o Pedro Neto (director-executivo da AI Portugal) está (já a meio), até 31 de outubro, numa missão em Angola, dando voz à causa e aos milhares de pessoas que, longe do mediatismo e brilho de Luanda, morrem à fome no sul do país.

Por coincidência na mesma altura, há cerca de 3 dias, no final de um encontro promovido pela ONU, em Luanda, no âmbito das celebrações do dia das Nações Unidas, a ministra da Acção Social, Família e Promoção da Mulher angolana, Faustina Alves, afirmava que o país registou uma redução no nível de pobreza, passando dos 36,6% em 2017, para os actuais 29%, com uma meta de 25% até 2022.
Não colocando em causa os números e muito menos o mérito do objectivo traçado pela actual governação de João Lourenço (que tem traçado uma mudança do paradigma político do poder em Angola), a verdade é que Angola padece de um grave problema cosmopolita, centrando praticamente todo o seu existencialismo na metrópole Luanda.

Porque há uma outra realidade bem distinta e afastada dos holofotes internacionais.

Nos últimos 4 anos, contra todos os negacionismos e negacionistas, as três províncias mais a sul de Angola (Cunene, Huíla e Namibe) têm estado a sentir, de forma muito violenta, os efeitos das alterações climáticas, com secas cíclicas severas.
Apesar do contexto, as comunidades rurais têm demonstrado uma capacidade de sobrevivência inimaginável, nomeadamente através do recurso a pastagens comunitárias, uma prática de subsistência que lhes tem permitido (para além de sobreviverem) alimento e capacidade financeira para poderem garantir educação às crianças e os cuidados médicos 
mínimos e adequados. Mas a fazer lembrar os recentes crimes ambientais na Amazónia, tudo mudou e depressa. A sobrevivência destas comunidades está agora verdadeiramente em risco.
As investigações feitas pela Amnistia Internacional, nos dois últimos anos, identificaram que milhares de pequenos criadores de gado no município dos Gambos (também conhecido por Chiange), da província de Huíla, têm sido afastados das terras que ocupavam para dar lugar a grandes explorações pecuárias.
Essas expropriações são feitas de forma ilegal, desrespeitando as leis nacionais e os padrões internacionais de direitos humanos. Por exemplo, as comunidades rurais não são consultadas e não receberam qualquer contrapartida ou indemnização.
O resultado é o surgimento de uma crise alimentar e social sem precedentes, vazia de qualquer tipo de assistência ou compensação do governo.

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(créditos da foto: amnistia internacional)

publicado por mparaujo às 20:47

29
Set 19

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(créditos da foto: Christopher Reardon / ACNUR-ONU)

A ONU declarou instituiu, desde 2000, o dia 20 de junho como o "Dia Mundial dos Refugiados". Hoje, 29 de setembro, a Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.
Podendo parecer uma duplicação de datas, independentemente de crenças e credos, a verdade é que todas as datas, todos os momentos são importantes para lembrar e alertar para o maior flagelo da humanidade, nos dias de hoje. Por mais movimentações, greves, manifestações, intervenções que, legitimamente e com toda propriedade, nos avisem para a vertente ambientalista. Nada vale mais que a dignidade e vida humana.

Importa, por isso, lembrar. A ACNUR (Agência de Refugiados das Nações Unidas) estima (em 2018) que mais de 70 milhões de pessoas, em todo o mundo, fujam da guerra, de perseguições e conflitos políticos, étnicos e religiosos, e da ausência de condições de sobrevivência (muito por culpa das alterações climáticas que alguns teimam em negar). Sendo que este número representa um aumento de mais de 50% do número de refugiados na última década.
Das 70,8 milhões de pessoas... 25,9 milhões (50% são crianças, sendo que milhares estão sozinhas) foram forçadas a sair dos seus países por causa da guerra, conflitos e perseguições ou pela sobrevivência "natural"; 3,5 milhões de solicitaram refúgio (nomeadamente por razões políticas, sociais e humanitárias); e 41,3 milhões de pessoas são considerados "deslocados internos" (foram obrigadas a abandonar as suas casas mas permanecem no país). Os principais países de origem são a Síria, Palestina, Iémen, Sudão do Sul, Afeganistão, Ucrânia, Mianmar/Bangladesh, Somália, Burundi, Ucrânia, África Subsaariana (República Centro-Africana, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Gâmbia, República Democrática do Congo, Uganda), Venezuela e El Salvador, Nicarágua e Guatemala (que atravessam o México para chegar aos Estados Unidos).
Retomando o número apurado de refugiados (25,9 milhões fora dos seus países de origem) e contrariando o estigma instalado em muito do discurso comum (quer na Europa, quer nos Estados Unidos), 80% destas pessoas vive nos países vizinhos aos de origem (mesmo que em campos de refugiados). Aliás, os três países que mais refugiados acolhe são a Turquia, o Uganda e o Paquistão (6,3 milhões de pessoas).

Interessante é a abordagem do Vaticano à problemática e a forma como a questão dos Migrantes e dos Refugiados foi apresentada, neste dia.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se também dos nossos medos.
Ou se preferirmos... a desconstrução desses medos. Da multiculturalidade, da diferença, da "invasão".
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se também da nossa humanidade.
Da responsabilidade que os chamados países desenvolvidos, as potências, os países dominantes, tiveram e têm nas regiões empobrecidas, escravizadas, exploradas, desfeitas pelos conflitos e guerras (alimentados, interessadamente, à distância).
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se de não excluir ninguém.
Porque todo o ser humano tem direito à vida e vida com dignidade. Porque ninguém é refugiado porque quer, por opção, mas sim por imposição, por uma questão de sobrevivência.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata se de colocar os últimos em primeiro lugar.
Porque a todos devem ser garantidas as mesmas oportunidades. Porque todos devem ter direito a um lugar para viver. Porque para com os mais frágeis, os mais desprotegidos, há o dever colectivo de proteger e ajudar.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata se da pessoa toda e de todas as pessoas.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. (artigo 1.º da declaração Universal dos Direitos Humanos).

Enquanto que no primeiro semestre de 2019, 34.226 migrantes e refugiados chegaram à Europa através do Mediterrâneo e, no mesmo período, 683 não chegaram a sentir o sabor (mesmo que condicionado) da liberdade e de uma nova vida. Fugiram da morte para encontrar a morte.
Enquanto que, naquele que é uma dos maiores ataques à dignidade, direitos universais e ao respeito pelo outro, na fronteira dos Estados Unidos com o México, mais de 911 crianças (20% das quais são bebés ou com idade inferior a 5 anos) foram retiradas à sua mãe, ao seu pai, às suas famílias. Para além das condições desumanas com que o Centro de Detenção em Homestead, na Florida, acolhe mais de 2.000 crianças e jovens (dos 13 aos 17 anos).

E porque a história nunca deve ser travada... vem à memória as imagens de Alan Kurdi (numa praia da Turquia) e do pai a abraçar a sua filha bebé, ambos mortos, no Rio Grande, na fronteira México-Estados Unidos - Óscar Ramírez e Valeria.

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publicado por mparaujo às 20:54

20
Jun 19

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(crédito da foto: Andrew McConnel/ACNUR)

E infelizmente, à falta de responsabilização (religiosa, geopolítica, geoestratégica, climática/ambiental, Europeia), os próprios refugiados tornam-se os "culpados" (por fugirem da morte... por tentarem sobreviver... porque foram expulsos... porque a "vida" está no país ao lado ou na travessia do Mediterrâneo "da morte").

20 de junho... as Nações Unidas instituíram, em 2000, este dia como o Dia Mundial do Refugiado, para a consciencialização da situação do refugiado no mundo.

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Numa altura em que se questiona, em Portugal, a criminalização da ajuda humanitária (seja pelas vias oficiais/Estados, seja pelas ONG's, seja pela vontade e vocação de cada indivíduo) é importante que a história não apague da memória colectiva a criança síria, de 3 anos, morta numa praia turca, em 2015: Alan Kurdi. Nem os milhares e milhares de "Alan Kurdis", de todas as idades e locais que estão deslocados.

A ACNUR (Agência de Refugiados das Nações Unidas) estima (em 2018) que mais de 70 milhões de pessoas, em todo o mundo, fujam da guerra, de perseguições e conflitos políticos, étnicos e religiosos, e da ausência de condições de sobrevivência (muito por culpa das alterações climáticas). Número que, em relação ao relatório de 2017, representa um aumento de 2,3 milhões de pessoas.
Das 70,8 milhões de pessoas... 25,9 milhões (50% são crianças, sendo que milhares estão sozinhas) foram forçadas a sair dos seus países por causa da guerra, conflitos e perseguições ou pela sobrevivência "natural"; 3,5 milhões de solicitaram refúgio (nomeadamente por razões políticas, sociais e humanitárias); e 41,3 milhões de pessoas são considerados "deslocados internos" (foram obrigadas a abandonar as suas casas mas permanecem no país). Os principais países de origem são a Síria, Palestina, Iémen, Sudão do Sul, Afeganistão, Ucrânia, Mianmar/Bangladesh, Somália, Burundi, Ucrânia,  África Subsaariana (República Centro-Africana, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Gâmbia, República Democrática do Congo, Uganda), Venezuela e El Salvador, Nicarágua e Guatemala (que atravessam o México para chegar aos Estados Unidos).
Portugal acolheu, até à data (desde 2015), 1674 refugiados que chegaram à Grécia, Itália e Turquia.

Retomando o número apurado de refugiados (25,9 milhões fora dos seus países de origem), contrariando o estigma instalado em muito do discurso europeu, 80% destas pessoas vive nos países vizinhos aos de origem (mesmo que em campos de refugiados).

E porque, nestas datas (ou por elas) é importante que a memória não se apague, nem que a história seja travada, fica a "memória" da Amnistia Internacional Portugal que lembra, e bem, as vítimas esquecidas de Mianmar que não podemos deixar para trás (e que aqui demos nota)

publicado por mparaujo às 21:56

29
Dez 18

A história da Humanidade, ao longo dos séculos (AC e DC), sempre teve períodos, mais ou menos longos, de conflitualidade entre os homens e os povos/nações. Foi, também, nesses contextos que as civilizações delinearam os seus futuros.
No período contemporâneo, na primeira metade do século XX, as duas Grandes Guerras (1914-1918 e 1939-1945) foram o reflexo visível dessa conflitualidade.
No entanto, o Mundo soube sempre acolher períodos alargados de paz (ou alguma paz) e de coabitação entre as Nações, mesmo no chamado período da “Guerra Fria”. Até que chega a data de 11 de setembro de 2001, precedida, uma década antes, pela Guerra do Golfo (1990-1991) e imediatamente sucedida pela invasão do Iraque (março de 2003). Desde então o Mundo deixou de ser seguro e pacífico, tolerante e inclusivo, promotor dos Direitos Humanos e da Igualdade, Fraternidade e Liberdade.
Volvidos que estão 28 anos (1990-2018) este ano que agora se presta a terminar é, infelizmente, o espelho dessa realidade: conflitualidade geopolítica e geoestratégica permanente, terrorismo, desprezo pelos valores e pela dignidade humana, crescimento dos extremismos e dos populismos.
Atentados, ataques, violência, manifestações de intolerância, racismo, xenofobia e homofobia, fome, guerra, violação das liberdades e direitos fundamentais, são alguns contextos que descrevem o retrato do ano de 2018. Aos quais podemos ainda adicionar uma natureza madrasta, como que a querer vingar a maneira como o Homem a vai (mal) tratando e desprezando.

da Guerra…
O Médio Oriente, juntamente com África Subsaariana e Central, são duas zonas do globo em permanente explosão. A guerra civil na Síria, em sete anos (2011-2018) matou mais de 511 mil pessoas, das quais cerca de 40 mil neste ano, desalojou 5,6 milhões de sírios, dos quais 2,6 milhões são crianças. Geograficamente mais patente na região de Guta, Damasco, o conflito e os seus impactos estão ainda longe de terem terminado, apesar do recente, e internamente polémico, anúncio de Donald Trump de retirar as forças americanas da região (o Estado Islâmico agradece).
Dura desde 1948 o conflito que opõe Israel à Palestina, tendo a Cisjordânia, o Líbano e a Síria como fronteiras, sem esquecer o histórico colonialista britânico (1917-1947). Após um considerável número de acordos, de avanços e recuos, a conflitualidade naquela zona, onde a Faixa de Gaza é o seu expoente, é diária mas conheceu em 2018 um exponencial de atentados e vítimas que já há alguns anos não se conhecia: 265 incidentes/atentados resultaram em 14 israelitas mortos e 137 feridos; já no que respeita aos palestinianos os dados oficiais indicam 295 mortos e mais de 29 mil feridos (segundo dados da OCHA/ONU). Importa ainda recordar que foi em maio deste ano (14 de maio) que Trump ordenou a mudança da Embaixada Americana de Tel Aviv para Jerusalém.
Mas é o Continente Africano que regista o maior número de conflitos, mortes, feridos, desaparecidos, desalojados, fome e pobreza: Argélia, Burundi, Chade, Egito, Libéria, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Saara Ocidental, Somália, Sudão, Tunísia, Uganda, entre outros conflitos regionais, étnicos e políticos. Só na última década a ONU estima que morreram, por força da guerra neste continente, cerca 5 milhões de crianças com idade inferior a 5 anos.

dos Direitos Humanos…
São diferenciadas as formas e diversos os contextos de violação dos mais elementares e fundamentais direitos humanos: contra a vida e a sua dignidade, o direito à diferença, a liberdade de pensar e exprimir, a alimentação, a saúde, o trabalho, a habitação, a paz e a segurança.
O ano de 2018 foi, infelizmente, repleto de realidades que merecem nota de destaque para que não se apague a memória, por uma questão de respeito, de solidariedade, de alerta. E para prestar merecida homenagem e tributo aos mais de 300 ativitas mortos no mundo, só porque não qquiseram deixar de defender os maisl elementares direitos universais. Destes, tornou-se rosto mediático a ativista e política brasileira (a América Latina é a região com mais ativitas mortos, presos, torturados e perseguidos) Marielle Franco, crítica da ações indiscriminadas da Polícia Militar, política em ascensão (apontada como eventual prefeita do Rio de Janeiro ou deputada federal em Brasília), assassinada aos 38 aanos, em março de 2018.
Além disso, o Mundo, em 2018, não soube, não quis, foi incapaz, foi indiferente, falhou na protecção das crianças. Na República Centro Africana a UNICEF estima que 1,5 milhões de crianças necessitam de ajuda humanitária. 5.000 crianças foram mortas ou mutiladas no Afeganistão. 4,2 milhões de crianças encontram-se em risco de desnutrição aguda grave na República Democrática do Congo. Cerca de 1.800 crianças foram recrutadas na Somália para a guerra. No conflito na Síria, o tal que Trump diz já não existir, 870 menores foram mortos. No Iémen, para além das 5,2 milhões de crianças que se encontram em risco de fome, 1.427 foram assassinadas em 2018.
Mas os conflitos armados não contemplam apenas a morte e a fome. O número de deslocados e refugiados é assustador: a ONU estima em mais de 68,5 milhões de pessoas. No caso dos refugiados, assunto que tem assombrado a União Europeia pela inoperância e incapacidade política e social em o enfrentar, o ano de 2018 foi relativamente próximo (embora “em baixa”) de 2017 e, felizmente, longe dos valores mais altos da última década. Mesmo assim, o movimento de refugiados no mediterrâneo ainda foi significativo: mais de 118 mil migrantes chegaram, por via marítima, à Europa e 2.241 pessoas morreram durante a travessia.
A questão das migrações e dos refugiados conheceu, em 2018, um especial relevo no continente americano, não estando muito longe, na dimensão dos refugiados que chegam à Europa oriundos do Médio Oriente e do Norte de África. A crise humanitária na América Central e do Sul, sustentada na pobreza, na falta de trabalho, na instabilidade política e nos conflitos armados, em países com a Venezuela, El Salvador, Honduras, Guatemala, Nicarágua (134 mortos desde abril nos confrontos contra o governo), levou cerca de 200 mil migrante até ao sul do México na expectativa desesperada de entrarem nos Estados Unidos.
No país onde supostamente a liberdade e a segurança são referência histórica centenas de milhares de americanos tomaram as ruas nas cidades dos Estados Unidos no maior protesto pelo controle de armas chocados por mais um massacre numa escola na Flórida, em março.
São já cerca de 700 mil refugiados Rohingya que fugiram de uma campanha militar brutal em Mianmar (antiga Birmânia) para o Bangladesh, crianças pequenas massacradas diante dos pais, raparigas e mulheres violadas em grupo enquanto as suas famílias são torturadas e mortas, aldeias incendiadas e arrasadas.
Mas é também nos países ditos civilizados que o ano de 2018 assinalou atropelos aos Direitos Humanos inadmissíveis em pleno século XXI. Por exemplo, neste ano, no Japão, foram realizadas 15 execuções por enforcamento.
Destaque, em 2018, para a atribuição (dupla) do prémio Nobel da Paz, distinção envolta em algumas polémicas como, por exemplo, a manutenção do Nobel (2012) à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; ou a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh. Finalmente, este ano, regressa a "normalidade": oO Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, "pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado" (ambos Prémio Sakharov em 2016). Denis Mukwege é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora. Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 2014, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses depois conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra (é a primeira Embaixadora da Boa Vontade para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano das Nações Unidas).

das Tragédias Naturais…
A “mãe” natureza marcou, de forma assustadora e trágica o ano de 2018, com inúmeras mortes e uma devastação de dimensões sinistra.
Os sismos, erupções vulcânicas e os tsunamis na Indonésia, Filipinas e Vietname. As cheias e as inundações, na Índia, China, Japão e Guatemala. Os incêndios em Espanha, na Grécia e nos Estados Unidos.

da Política…
Com o aproximar da Tomada de Posse do próximo Presidente do Brasil, a eleição de Jair Balsonaro foi um dos acontecimentos políticos do ano de 2018, deixando antever um futuro preocupante, incerto e instável para um dos principais países da América do Sul.
Se sempre foi questionável a eleição e a presidência de Donald Trump à frente dos destinos da maior potência mundial, o espelho da desorientação governativa é bem patente no número histórico de demissões na Administração Trump: são já mais de 20, das quais se destacam áreas importantes como a Defesa, a Segurança, as Finanças.
Mas a Europa viveu, em 2018 (com prolongamento para 2019), momentos políticos de especial importância e impactos.
A crise política em Inglaterra está ainda longe de terminar e de ser conhecido o seu final. O Brexit tem trazido uma instabilidade política e governativa complexa e de difícil gestão para Theresa May e para o Partido Conservador britânico, deixando o país e a União Europeia em suspense e incerteza. O referendo à continuidade dos britânicos na União Europeia foi um claro "erro de casting" e tornou-se na expressão profunda da grave crise política e social em Inglaterra.
Atravessado o Canal da Mancha, os últimos meses deste ano trouxeram muitas dores de cabeça a Emmanuel Macron com uma intensa e significativa movimentação social nas ruas francesas, nomeadamente em Paris, protagonizada pelos “Coletes Amarelos”, que tem trazido uma instabilidade social difícil de gerir e que tem potenciado um efeito dominó na região (Bélgica, Holanda) com impactos políticos e sociais ainda por avaliar de forma segura.
Aqui ao lado, na vizinha Espanha, 2018, a par dos significativos casos de corrupção, Mariano Rajoy não superou as movimentações e manifestações pela criação de uma República independente na Catalunha e sucumbiu politicamente às eleições do dia 1 de junho e que elegeram o socialista Pedro Sanchéz.
O ano político também foi feito de algum flop e desilusão. A cimeira histórica entre os líderes da Coreia do Norte (Kim Jong-un) e Coreia do Sul (Moon Jae-in), que decorreu no simbólico Paralelo 38, a zona desmilitarizada que marca a fronteira entre os dois países, fazia perspectivar a implementação de um conjunto de medidas para a "completa desnuclearização" da península coreana. Fazia… porque na prática apenas resta o abrandar dos testes nucleares, sem que haja provas dadas da redução do programa nuclear Norte-Coreano.

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publicado por mparaujo às 02:16

02
Nov 18

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Mas há um turbilhão de sentimentos: revolta, solidariedade, impotência, comoção, choque, desassossego, (...).

E há igualmente uma premissa que importa, desde já, destacar: não colhe o argumento "cá também há situações de..." ou "isso é lá longe, o que conta são os 'nossos'". Não! Não é assim...

Primeiro, a vida, os direitos e a dignidade humana são universais e não conhecem fronteiras.
Segundo, existem realidades e contextos bem distintos.
Terceiro, a preocupação por aqueles que estão ao nosso lado não implica sejam esquecidos ou ignorados os que estão longe.
Por último, esse tipo de argumento (tão ouvido no que respeita à problemática dos refugiados/migrantes) serve, na maioria dos casos, para esconder uma total (seja perto ou longe) indiferença, apatia, marasmo, comodismo, insensibilidade.

Não foram tão poucas as vezes que aqui se deu conta que há muito mais para além do gravíssimo contexto da conflitualidade com o islamismo, que ultrapassa as vivências com os atentados terroristas na Europa ou nos Estados Unidos. Há todo um Norte e Centro de África e um Médio Oriente que vive, há décadas, assolado pela guerra, pela morte, pela fome, pela exploração por terceiros das suas riquezas... completamente ao abandono, onde impera a total ausência por um qualquer respeito pela vida e pelos direitos humanos.

A ciência e a tecnologia evoluem a cada nano-segundo... mas as sociedades e os homens teimam em manter um estado de primitivismo, medievalismo e arcaísmo gritantes (apesar de nos situarmos em pleno século XXI).

A informação e a comunicação atingem uma velocidade estonteante mas cada vez há uma maior conflitualidade entre as pessoas e as nações... Há riqueza e, simultaneamente, mais pobreza... Há melhores condições de vida mas morre-se de fome...

O Índice Global da Fome em 2018 revela que 821 milhões de pessoas passam fome.
Segundo os dados recentemente revelados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, Organização Mundial da Saúde, Divisão da ONU para a População e pelo Banco Mundial, em 2017, morreram 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos e mais 900 mil crianças entre os  5 e 14 anos. Não há argumentos suficientes para se ser indiferente ao facto de, em 2017, tenham morrido todos os dias 15 mil crianças devido à guerra; à escravatura, onde as crianças são 25% das vítimas (ainda há leilões humanos em 2018, por exemplo, na Líbia, onde se vendem pessoas por pouco mais de 100 euros); à escassez de alimento e água; à falta de condições elementares de saúde (vacinação, tratamento médico, etc) ou de infraestruturas básicas como o saneamento.
A maioria das mortes ocorreu na África Subsariana, no Médio Oriente e no Sudeste Asiático, numa lista considerável de países como o Chade, Madagáscar, Serra Leoa, Iémen, Zâmbia, Burundi, República Democrática do Congo, Eritreia, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Síria, Gabão, Gana, Maurícias, Senegal, ou o Sri Lanka... e por aí fora. Países sujos nomes, para muitos, são "perfeitos desconhecidos".

Mas são países com rostos, com vidas...

Infelizmente vamos vivendo à "custa" de símbolos, de rostos, de imagens que se tornaram referência em diversos contextos: o pequeno Aylan Kurdi, a criança síria de apenas 3 anos, encontrado morto sobre a areia de uma praia na Turquia, em 2015; a jovem, Malala Yousafzay, de 17 anos, que sobreviveu a um ataque de talibãs em 2012, Nobel da Paz em 2014, e que luta pelo direito universal à educação das crianças; a jovem síria Doaa al-Zamel, uma das 11 sobreviventes de um naufrágio que vitimou 500 refugiados no mar Mediterrâneo, e que publicou a sua história no livro "Uma Esperança mais Forte do que o Mar", escrito em conjunto com Melissa Fleming, então directora de Comunicação e porta-voz do ACNUR; ou Clemantine Wamariya, que aos 6 anos atravessou sozinha, com a irmã, sete países, andou de campo de refugiados em campo de refugiados, para fugir do genocídio no Ruanda, acabando por encontrar os pais, 12 anos depois, num dos programas da Ophra.

Ontem a pior das notícias corria o mundo. A imagem da criança Amal Hussain, de 7 anos, colhida pelo fotojornalista Tuler Hicks do The New York Times, tinha-se tornado o "rosto" e o "símbolo" da crise alimentar e da fome no Iémen. É mais uma das fotos, das imagens, dos "rostos" tornados referências que NUNCA DEVIAM EXISTIR. A criança Amal não resistiu ao estado debilitado do seu corpo e do seu organismo e acabou por falecer num campo de refugiados a SEIS QUILÓMETROS DE UM HOSPITAL. Vergonha!

Se isto não indigna, não revolta, não inquieta, que a indiferença e a apatia esbarrem nos números que acrescem: a Cimeira Mundial de Defensores de Direitos Humanos, realizada esta semana, em Paris, revela que, em 2017, 312 activistas de direitos humanos foram assassinados (o dobro do registado em 2015); 4.400 trabalhadores humanitários foram vítimas de ataques graves ao longo das duas últimas décadas, dados revelados a propósito do Dia Mundial da Ajuda Humanitária, celebrado a 19 de agosto.

Isto não é (em) Portugal... mas vivemos todos no mesmo mundo e planeta (cada vez mais pequenos). E é tão fácil ajudar (há muitas formas, meios e entidades para escolhar)

(crédito da foto: Tuler Hicks/The New York Times)

publicado por mparaujo às 22:09

02
Set 18

Somos relativamente permissivos e influenciáveis pelo mediatismo e pelo colectivismo no que toca à tragédia, à desgraça e à morte.
Forma muitos os que assumiram a corrente do "Je Suis Charlie" quando em janeiro de 2015 se deu a barbárie do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Mesmo que até à data grande parte nunca tivesse ouvido falar do jornal, nem das suas posições editoriais significativamente polémicas (nomeadamente no que respeita às religiões e crenças). Uns (colectivos e individuais) manifestaram-se porque faz parte dos seus olhares pelo mundo a questão dos Direitos Humanos e das Liberdades e Garantias de qualquer cidadão (no caso, seja o direito à vida, o direito à ofensa e o da liberdade de expressão, opinião e imprensa). Outros porque foram sensibilizados pelas manifestações públicos e assumiram a causa. Há ainda os que o foram... porque sim.
Volvidos alguns meses, os direitos e liberdades depressa viraram a página da revolta popular.
Nem mesmo os trágicos atentados que percorreram a Europa fizeram abalar, significativamente, essa indiferença ou esquecimento prematuros.
Esquecemos a Síria, Iraque, Afeganistão, Somália, Nigéria, Birmânia, Sudão, Iémen, África Central, ... mantemo-nos (mais ou menos) indiferentes ao facto da  FAO (Food and Agriculture Organization), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, anunicar cerca de 224 milhões de pessoas subnutridas no continente africano;
ou, segundo a UNICEF, que uma criança morre a cada dez minutos no Iémen por falta de alimento;
ou ainda, como a ONG "Save the Children" sublinhava, em maio último, que mais de mil milhões de crianças vivem em países confrontados com pobreza extrema, 240 milhões estão em ambientes de guerra e que 575 milhões de meninas vivem em sociedades onde os preconceitos sexistas são um problema extremamente grave.

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Faz hoje precisamente 3 anos (setembro de 2015) que a imagem do corpo do pequeno Aylan Kurdi (com 3 anos de idade) caído na areia de uma praia turca chocavam o Mundo (ou grande parte dele).
À data esperava-se que a atrocidade e o impacto da imagem fosse suficiente para alterar mentalidades, políticas e acções, fossem elas dos Governos, de entidades, dos cidadãos, das comunidades ou da própria União Europeia. Até hoje... depressa esquecemos o simbolismo da altura de Aylan Kurdi. Qualquer morte é, por si só, estúpida, muito mais quando se trata de uma criança com apenas 3 anos... mas Aylan Kurdi deu à costa sem vida, com a vida perdida, para "nada".
A União Europeia, os Estados e Nações, os políticos, Governos e políticas, as comunidades, as instituições e a maioria dos cidadãos continua sem saber lidar com esta catástrofe humanitária de quem foge aos horrores e à morte movidos pela guerra de alguns contra alguns, sem qualquer preocupação pelos outros TODOS.
Cresce a xenofobia, o racismo, a indiferença, na Europa...
ganham expressão preocupante os extremismos e os radicalismos (que tanto combatemos no lado de quem faz a guerra e atenta contra a vida do Outro)...
aumenta a instabilidade social pelos confrontos na rua (são já 18 os feridos nos recentes e actuais protestos contra a migração e os refugiados, em Chemnitz na Alemanha)...
é preocupante a incapacidade da União Europeia de lidar com esta realidade, indiferente ao fortalecimento nacionalista e de extrema-direita no eixo Húngaro-Italiano...

E esquecemos... demasiadamente rápido.

A título de exemplo, em apenas três dias (29 junho a 1 de julho de 2018) morreram afogadas ao largo da Líbia mais de 200 migrantes.

O Mediterrâneo continua a ser, simultaneamente, a porta da salvação e o cemitério dos que tentam fugir à morte da guerra ou da fome.

As portas da Europa e o a própria União Europeia (cada vez mais indiferente e menos solidária e livre) continua a ser o Muro que ofusca a janela da esperança de milhares e milhares de PESSOAS.

Tão simples quanto isto: PESSOAS.

publicado por mparaujo às 20:18

22
Mar 17

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publicado na edição de hoje, 22 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O lado real dos conflitos

A história universal está repleta de conflitualidades entre os povos, pelas mais diversas e distintas razões. A verdade é que desde os primórdios tempos da descoberta do fogo, entre nomadismos e sedentarismos, o homem, as comunidades ou os povos, viveram sempre em permanente confronto político-ideológico, religioso e cultural, económico, estratégico e territorial. E apesar de estarmos em pleno século XXI, com tudo o que isso representa em relação ao desenvolvimento das sociedades, da ciência, das comunidades, o mundo está longe de deixar de sentir essa permanente conflitualidade, seja ela do ponto de vista económico (supremacia dos países ricos em relação aos subdesenvolvidos e mais pobres), social e cultural (conflito religioso, ocidente-oriente) ou geopolítico (relação de poder e de força estratégica internacionais). Se o 11 de Setembro de 2001 fazia regressar o mundo aos tempos medievais das cruzadas e das guerras ocidente-oriente, nomeadamente entre os séculos XI e XIII (e não vale a pena disfarçar a realidade porque as responsabilidades são, ou devem ser, repartidas) volvidos 16 anos a conflitualidade bélica, económica, social e cultural, e política tem sido a marca do mundo pós atentados em solo americano.

E se estamos mais sensíveis e despertos para o mediatismo da guerra e dos atentados que a celeridade da informação nos apresenta regularmente, a verdade é que há um outro lado desta realidade que se tem mantido, infelizmente, demasiado oculta. Os jogos do poder político e económico têm um contributo demasiado significativo para a degradação das condições de vida ou da defesa dos direitos humanos mais elementares e fundamentais, para além de exponenciar a conflitualidade bélica entre povos e comunidades.

Há tempos, o Professor Adriano Moreira, em entrevista ao Sapo24, tinha uma expressão feliz que reflecte o “estado de alma” do que é hoje a realidade internacional (relação entre Estados) ou o sentimento demasiado alargado de muitas pessoas e comunidades: «Temos de substituir o 'eu' pelo 'nós'». É esta a actual urgência na alteração de relação entre todos, cidadãos, comunidades, Estados, realidades política, culturais e económicas.

Enquanto essa alteração do paradigma das sociedades de hoje não acontecer continuaremos a ter as mais inaceitáveis notícias sobre refugiados, a maior hipocrisia entre a Europa e a Turquia nomeadamente com as mais recentes trocas de acusações e bloqueios querendo fazer esquecer o deplorável acordo EU-Turquia para os refugiados, o prolongar dos conflitos armados em África e no Médio Oriente.

Continuaremos a ter uma elevada taxa de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza (mais de dois milhões de portugueses). Além disso, segundo o relatório Confederação Europeia de Sindicatos e do Instituto Sindical Europeu, divulgado este mês em Bruxelas, hoje os salários são mais baixos que há oito anos (2008).
Continuaremos a ter, sem qualquer solução à vista, um Mediterrâneo a servir de cemitério a cerca de 4500 cidadãos por ano, dos quais cerca de 700 são crianças.
Continuaremos a ter 2,1 milhões de moçambicanos em risco de fome.
Continuaremos a ter, apesar do cessar-fogo assinado em Agosto de 2015, um milhão de crianças a precisarem de ajuda na Ucrânia.
Continuaremos a ter uma catástrofe no Iémen que afecta cerca de 19 milhões de pessoas (segundo dados da ACNUR-ONU).
Continuaremos a ter na Somália, a morte, a cada dois dias, de cerca de 100 pessoas devido à fome, três milhões de pessoas em risco de fome devido à seca e mais de 7000 mil deslocados devido ao conflito.
Continuaremos a ter… porque a forma como proliferam e crescem os extremismos e os fundamentalismos, a desintegração das comunidades internacionais e os totalitarismos, só potenciam, tal como espelha o mais recente relatório da Amnistia Internacional, a “retórica tóxica” dos políticos que ameaça os direitos humanos mais elementares.

Esta é a realidade escondida da permanente conflitualidade nas comunidades e entre os Estados que importa não deixar esquecida.

(créditos da foto: Getty Imagens em exame.com)

publicado por mparaujo às 11:14

04
Ago 15

cantinas escolares.jpgJá aqui falei sobre o que entendo serem os perigos da retórica política ao usarem (os partidos, nomeadamente PSD e PS), como arma eleitoralistas, os dados do desemprego/emprego (embora o assunto não pareça minimamente esgotado, antes pelo contrário). Assim como acho que os programas eleitorais, acrescidos das mil e uma promessas, têm trazido muito pouco de novo ao debate político e ao esclarecimento dos cidadãos eleitores. Mais à esquerda são os discursos de sempre, louve-se a coerência ideológica mesmo que surrealista ou irrealista; mais ao centro e à direita falta o "mea culpa" pelos erros cometidos, o assumir das responsabilidades, a apresentação de dados, planos e acções concretas e quantificadas (sejam de que tipologia forem) das propostas apresentadas e que são mais que óbvias para o comum dos mortais (a consciência crítica, por mais que ainda haja caminho a percorrer, é mais acentuada e mais atenta do que era há uns bons anos).

Qualquer cidadão minimamente interessado e preocupado com a sociedade e o país sabe que é demasiado importante diminuir a diferenciação social e estabilizar a conflitualidade social, com a promoção de emprego, do desenvolvimento económico, com uma resposta eficaz para a diminuição sentida na economia doméstica e familiar, com salários justos e equilibrados, com respostas sociais do Estado eficazes e eficientes na saúde, na educação e na justiça (por exemplo); equilibrar as contas públicas e aumentar a confiança externa; promover a produtividade quer interna, quer externa; dignificar a ética política e a gestão do que é público; potencializar toda a mais-valia que o sector marítimo pode proporcionar. No essencial, as prioridades, com mais ou menos "floreado ideológico", são transversais ao CDS, PSD e PS. A diferença está na forma, na concretização, nas medidas e políticas a serem aplicadas... no fundo: a diferença reside no pormenor, no realismo, no reconhecimento do que é a vida e o dia-a-dia de cada português.

E essa avaliação, essa noção, da realidade e do realismo, esse "olhar" político, bem longe do demagógico, é que urge ser feita, correndo-se o risco, caso contrário, de continuarmos a ter política (e partidos) sem ser com os pés bem assentes na terra e longe do Portugal real e profundo.

E não é preciso grande esforço. Os dados são recentes, mas espelham uma realidade, infelizmente, repetitiva... demasiado repetitiva.

Segundo um relatório recente da OCDE (maio de 2015), "(...) o fosso entre ricos e pobres diminuiu mas Portugal continua entre os países mais desiguais e com maiores níveis de pobreza consolidada. (...) Portugal surge como o nono país mais desigual (0,388 - valor referenciado no coeficiente Gini) entre os 34 da OCDE, acima do índice médio destes países, que é de 0,315".

Um artigo de opinião (com toda a subjectividade da legitimidade da liberdade de expressão e opinião) publicado no Público de 9 de junho passado e assinado, colectivamente, por um grupo de membros do núcleo do "Manifesto para um Mundo Melhor (Manifesto Internacional de Cientistas Sociais), tem, a propósito do referido relatório da OCDE, esta expressão "nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza? (...) As assimetrias profundas em que crescem as crianças e jovens, uma parte significativa delas sem acesso a condições consideradas básicas, colocam em causa os direitos humanos e o desenvolvimento, tanto pessoal como social".

Ainda a este propósito da pobreza e a fatalidade social da obrigatoriedade do cumprimento do programa de ajustamento a que Portugal esteve sujeito nestes últimos anos, o Expresso de 5 de junho de 2015, sob o título "Pobreza aumentou para níveis do início do século", relata a opinião do professor universitário do ISEG, Carlos Farinha Rodrigues: o período de ajustamento das contas públicas e do programa da Troika traduziu-se "num recuo dos principais indicadores sociais. Entre 2009 (último ano pré-crise e pré-medidas de austeridade) e 2013 (último ano de que dispomos dados do INE), a taxa de pobreza aumentou de 17,9% para 19,5%. Este valor reconduz-nos aos níveis de pobreza registados no início do século".

Mas se os os dados sobre a pobreza, distribuição de rendimentos, desigualdades e prestações sociais reflectem o agravamento da pobreza e das desigualdades sociais, bastava um olhar atento à realidade para percebermos o que se passa, verdadeiramente, com o país. Uma notícia como esta ("Cantinas escolares abertas nas férias"), apesar de louvável do ponto de vista da iniciativa, só serve como lamento e tristeza pela contestação da realidade: há crianças que não fazem duas refeições diárias. Mal vai um país que precisa de manter abertas as cantinas escolares em período de férias.

 

publicado por mparaujo às 15:27

21
Abr 14
A minha fotografia

A ler os outros... Andrea Diegues.

Pela partilha fui dar de caras com este texto e este testemunho (por razões profissionais) da Andrea.

Dei de caras... engoli em seco... contive o nó na garganta... e fiquei em silêncio. E um silêncio que incomoda cá dentro. E muito.

Sim... porque às vezes o silêncio também compromete, também solidariza, também expressa. Mas também incomoda e tira-nos do conforto, desconsola.

Acima de tudo, o Silêncio também Respeita.

E no mínimo, o que se exige é Respeito. Ao menos, isso.

A Ler: O incómodo silêncio...

publicado por mparaujo às 14:08

04
Nov 13

Há um Orçamento do Estado para 2014 (aprovado na generalidade) que exige, mais uma vez, um redobrado esforço dos portugueses (com especial incidência para o sector público e para os pensionistas) e do qual já se colocam dúvidas (Comissão Técnica de Acompanhamento Orçamental) quanto à sua exequibilidade e capacidade de atingir os objectivos/metas orçamentais…

Depois há um “Guião da Reforma do Estado” sem qualquer estratégia consistente ou aplicação prática com impactos na sociedade e na reformulação das Funções do Estado…

Há, também, os “milagres da economia”, os anúncios do fim da crise ou os discursos optimistas do pós-Troika…

E depois “Há Isto”… que infelizmente é a realidade, o Portugal profundo, o dia-a-dia dos portugueses no país real: A fome de uns é a fome de todos

publicado por mparaujo às 14:37

17
Jul 11
publicado por mparaujo às 23:30

13
Abr 09
A Ministra da Educação deve viver num país completamente diferente do Portugal real que vivemos no dia-a-dia. Mesmo que ela julgue que governa este país escolar.
Face à realidade dos factos, demonstrada pela constatação de que há cada vez mais crianças desnutridas, por força de inúmeros factores, vem dizer que essas notícias são alarmistas e que no sector escolar não há conhecimento dessa realidade.
Claro que não... até porque há escolas sem cantina, sem condições para servir refeições condignamente às crianças, sem condições para o exercício do ensino, etc.
Alarmista é esta indiferença e alheamento da realidade por parte da Ministra.
publicado por mparaujo às 17:13

18
Out 08
da pobreza, ou de outra qualquer forma de falta de dignidade humana e de falta de respeito pelos direitos e valores humanos.
Porque o fosso se torna cada vez mais abismal entre alguns (ricos) e imensos (pobres).
Porque há quem viva sem nada ou com menos de 1 € por dia (no Mundo e por cá).
Porque, face a esta realidade, sinto-me com sorte.
Porque não posso ficar indiferente
Ontem, também eu me "LEVANTEI-ME CONTRA".
Pela causa, pela solidariedade, pela consciência, por quem não o pode fazer, por quem - teimosa e orgulhosamente - não o quis fazer, POR QUEM PRECISA.

Pena que seja só por uns minutos...
publicado por mparaujo às 11:49

08
Jul 07
Ontem à noite (07.07.2007), em Lisboa (Estádio da Luz), foram anunciadas as novas 7 Maravilhas do Mundo, eleitas por cerca de 100 milhões de pessoas.
A primeira a ser anunciada foi a A Grande Muralha da China.
As outras seis maravilhas terretres são o Taj Mahal (Índia) - o Cristo Redentor (Brasil) - Petra (Jordânia) - a cidade inca Machu Picchu (Perú) - o Coliseu de Roma (Itália) e a pirâmide de Chichén Itzá, localizada na península de Yucatán (México).

Sem votação ou direito a gastos logísticos no valor de 12 milhões de euros, mas infelizmente com direito a mediatismo, mantêm-se as outras sete antigas: Iraque - Afeganistão - Libano - Somália - Dafur - A fome nos continentes Africano e Sul Americano (salvo as mínimas excepções) - o Terrorismo e a Ameaça Nuclear.

publicado por mparaujo às 12:14

10
Nov 05
Enquanto França está a braços com uma das maiores crises sociais e culturais do pós guerra, alastrando já a alguns países vizinhos (Alemanha e Bélgica), há, no renascer da calamidade vivida no Paquistão, sinais claros de solidariedade e fraternidade.
Mesmo nas dificuldades e na 'pobreza', os paquistanezes encontraram espaço para a solidariedade. Pena que o mediatismo de alguma comunicação social só sirva os interesse do Sr. Bush, não merecendo o Paquistão o mesmo destaque que New Orleans. (foto RTP)
Apesar das diferenças geo-politicas e sociais entre India e Paquistão, a solidariedade com o sofrimento do país vizinho, fez com que as fronteiras em Caxemira que, durante anos estiveram fechadas, tenham sido reabertas para permitir a ajuda humanitária a quem precisa.
(foto Corriere della Sera)
publicado por mparaujo às 11:40

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