Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

16
Jun 19

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Esta era uma frase corrente, ao longo de várias décadas, por exemplo na Função Pública ou nas Forças Armadas, justificando as progressões na carreira, as diferenças salariais, as responsabilidades funcionais... se excluirmos o sentido jocoso ou a banalidade do seu emprego, a verdade é que a expressão continha algo de muito concreto: o respeito pela experiência e saber acumulados.
Esta é, aliás, uma das diferenças colossais e abismais entre a cultura ocidental e a oriental, nomeadamente a asiática. Aqui, não sendo a velhice um posto (o que também é), ela é vista, essencialmente, como uma referência, encarada com enorme sentido de respeito e consideração, avaliada pela experiência de vida, pelo saber e pelo conhecimento adquirido ao longo dos anos e dos tempos.
Ao contrário, a sociedade "ocidentalizada", cada vez mais descartável, mercantilizada, individualista e egoísta, capaz (e bem) de promover o emprego jovem, teima em não ser capaz de encontrar um lugar merecido, um papel relevante na sociedade, teima em não reconhecer as experiências acumuladas daqueles que carregam nos ombros os anos da vida (e os anos de vida).

Ontem, 15 de junho, foi o Dia Internacional de Sensibilização sobre a Prevenção da Violência Contra as Pessoas Idosas.
Encarando a questão da "violência" no conceito mais lato que possamos definir, há um  conjunto de realidades que lhe são inerentes e que importa focar.

  • Os dados divulgados pela Associação de Apoio à Vítima (APAV) indicam que no primeiro trimestre de 2019 cerca de 4 mil idosos foram agredidos, significando que todos os dias houve 44 idosos vítimas de maus-tratos.
  • recentemente, o Instituto nacional de Estatística (INE) revelou dados referentes ao ano de 2018 que indicam que, em Portugal, há cada vez mais idosos pobres e mais isolados. Os resultados do Inquérito de Vida e Rendimento do INE, apesar dos valores de 2016 e 2017 mostrarem que a taxa de pobreza nacional diminuiu, a tendência é contrariada no caso das pessoas com mais de 65 anos. E a realidade não está apenas subjacente à questão monetária (rendimentos) ou à real (apesar da demagogia política) diminuição dos apoios sociais. Há outros factores muito relevantes: o abandono, o isolamento geográfico, a exclusão social, a desvalorização da experiência, a inexistência de condições mínimas para que a população "envelhecida" tenha uma velhice digna.
  • há ainda a questão cultural, a forma como a sociedade encara os idosos, a forma como os integra ou exclui (eles votam mas não vencem "greves") dos seus processos de socialização. Basta termos em conta contextos bem simples: a forma como encaramos e lidamos com a expressão "velho" e toda a semiótica que comporta (normalmente pejorativa e negativa). De "velho" passámos a "idoso", depois a "sénior", usualmente convertido em "maior idade". Um "velho asiático" é sinal de respeito, consideração, carinho. Um "velho português" significa "trapo, empecilho, estorvo, improdutividade".
  • por último... há a questão demográfica, num país que vê partir (e dificilmente regressar) os seus cidadãos (nomeadamente os jovens), num país com graves e complexos problemas de interioridade, num país onde se nasce pouco e se envelhece muito.
    No final de 2018, a população portuguesa, estimada pelo INE, era de 10.276.617 pessoas, significando menos 14.410 cidadãos do que em 2017.
    A desaceleração do decréscimo populacional em 2018, apesar da melhoria do saldo migratório (de 4.886 pessoas em 2017 para 11.570 pessoas em 2018), apresentava um saldo natural negativo (natalidade) que se agravou (-23.432 pessoas em 2017 para -25.980 em 2018). Os dados indicam que o envelhecimento demográfico em Portugal continua a acentuar-se (comparado com 2017): a população com menos de 15 anos diminuiu para 1.407.566 (menos 16.330 pessoas) e a população com idade igual ou superior a 65 anos aumentou para 2.244.225 pessoas (mais 30.951). Na população total, os jovens com menos de 15 anos representam 13,7% e a população com idade igual ou superior a 65 anos 21,8%.
    A população "ainda" mais idosa (idade igual ou superior a 85 anos) aumentou para 310.274 pessoas (mais 12.736 que em 2017).
    Refere ainda o INE que em 2018, uma em cada duas pessoas residentes em Portugal (50%) tinha acima de 45,2 anos, o que representa um acréscimo de 4,4 anos em relação à última década (2008).
    Mas não se pense que este envelhecimento populacional tem apenas impacto na interioridade e no isolamento geográfico dos mais velhos (com tudo o que isso representa para as comunidades). O projecto Radar, da Câmara Municipal de Lisboa, apresentado no mês de maio, identificou cerca de 4.000 idosos em situação de isolamento, isto, apenas, em três Freguesias da capital (Ajuda, Areeiro e Olivais).

Vale a pena pensar se a Velhice não merecerá mesmo, na realidade e na prática, ser um verdadeiro Posto.

publicado por mparaujo às 15:24

26
Mar 18

Praticamente desde o início do ano que não se fala noutra coisa, com um ou outro intercalar, que não seja a limpeza das florestas e terrenos, tendo a temática, nesta semana, assumido contornos de desígnio nacional ao ponto de assistirmos, no terreno, ao "exemplo" do Presidente da República e do Primeiro-ministro.

Se os incêndios do verão de 2017 foram marcantes na sociedade portuguesa e deixarão, infelizmente por muitos anos, marcas muito significativas em muitas comunidades e famílias, apesar da factualidade, a verdade é que há outras realidades que importa destacar e que têm sido relegadas para segundo (ou terceiro ou quarto ou...) plano na agenda.

E esta semana que termina arrancava com uma nota preocupante, demasiado preocupante, para deixar cair no esquecimento: há cerca de mil pessoas internadas nos hospitais, após terem alta clínica, por não terem para onde ir. E alguns órgãos de comunicação social reforçavam a questão com o foco no custo anual na ordem dos 100 milhões de euros para o Sistema Nacional de Saúde.

O valor em causa, conhecida que é a realidade financeira do SNS e da Saúde em Portugal, é revelador e significativo. 100 milhões de euros, num ano, é "dinheiro".

Mas mais do que todos estes euros o que é, de facto, preocupante são os dados que revelam uma triste realidade: a do abandono das pessoas, a indiferença da família, ou a incapacidade que as mesmas famílias têm para garantir um serviço "mínimo" de cuidados paliativos ou continuados.

Segundo a Associação Portuguesa dos Administrados Hospitalares, em fevereiro deste ano, estavam apuradas cerca de 960 pessoas em internamento continuado por razões sociais (os chamados "internamentos sociais").
Destas, 533 aguardam resposta de integração na Rede de Cuidados Continuados e 350 pessoas continuam numa cama de um hospital porque a família a abandonou ou não tem capacidade de resposta (estrutural e financeira) para garantir os cuidados necessários.
Mas é ainda preocupante o dado que revela que 73% destes "internamentos sociais" correspondem a pessoas com mais de 65 anos.

Quando no mais recente período de recessão e da intervenção externa Portugal assistiu a uma considerável vaga de emigração era uso corrente afirmar-se que "este país não era para os jovens".

Retomando a questão dos incêndios, por mais matas e terrenos que se limpem, a questão é essencialmente demográfica e social (muito para além das faixas de combustível, dos eucaliptos ou do siresp): o despovoamento das aldeias, o envelhecimento do país, a migração para os grandes centros e para o litoral, o abandono agrícola, entre outros, tornam a questão administrativa e legislativa um mero exercício político do combate aos incêndios. E tal como na saúde é caso para, nos dias de hoje, podermos dizer com a mesma assertividade: este país não é para velhos (passe a expressão).

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(créditos da imagem: Luís Forra / Lusa - in sapo lifestyle)

 

publicado por mparaujo às 00:26

23
Fev 11
Publicado na edição de hoje, 23.02.2011, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
A velhice já não é um posto!


De repente saltaram para as primeiras páginas dos jornais e para os ecrãs dos telejornais os casos de idosos que falecerem nas suas residências e que foram descobertos dias, semanas, meses e, pasme-se, anos depois.
Apesar do mediatismo informativo (sete casos descritos em oito dias), a divulgação dos factos permitiu, entre outras coisas, que a sociedade, por alguns momentos, discutisse e pensasse nesta triste realidade.
E o que leva a que estes factos (que não são novidade na sociedade) ganhem tamanha projecção?! Vários factores.
Uma sociedade que desvaloriza o saber e a experiência adquiridos ao longo dos anos, menosprezando o que a vida vai ensinando. Tomemos como exemplo a reestruturação de uma organização que se vê na contingência de reduzir os seus efectivos. Qual a primeira opção? A experiência, o profissionalismo? Não. A idade… e quem tiver mais idade é quem corre mais riscos.
Uma sociedade que privilegia e promove o individualismo, seja a nível pessoal, seja a nível profissional, fomentando o isolamento e a indiferença, mesmo daqueles que são 8ou forma) próximos. O sentido de família, vizinhança, comunidade, bairro, povo (povoado), são valores que, cada vez mais, se vão perdendo. Daí que este fenómeno social seja, essencialmente, uma questão urbana face ao desmedido crescimento das cidades, mas que não deixa de preocupar as zonas rurais, fruto do despovoamento de muitas comunidades e o seu envelhecimento, por exemplo, no interior. Por outro lado, há cada vez mais idosos abandonados nas suas casas, nos lares, nos hospitais, pelos familiares e amigos.
Uma sociedade cada vez mais envelhecida e sem capacidade de respostas sociais eficazes para com os seus cidadãos seniores. Portugal é o sétimo país do Mundo mais envelhecido, somando cerca de 1,9 milhões de idosos (mais de 65 anos), confirmando a tendência europeia e confirmando ainda o facto de os idosos portugueses serem os mais pobres da União Europeia, conhecidos que são os valores da maioria das pensões, em muitos casos, permitindo uma simples sobrevivência. A agravar a situação, Portugal encontra uma população idosa com débil qualidade de vida, com dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, nomeadamente com o aumento dos preços dos serviços e dos medicamentos. Se estes quase dois milhões de cidadãos tivessem, na prática, peso “político e social” teríamos um Estado mais cuidadoso e mais protector.
Apesar do choque dos factos, da incapacidade de percebermos e entendermos alguns dos contornos dos acontecimentos (como é possível alguém estar morta nove anos num apartamento) não se estranhe a realidade, num país que, tendencialmente, tende para o aumento do número de idosos isolados, sozinhos, excluídos.
No entanto… não há “moeda” sem a outra face!
E se os pressupostos apontados tentaram justificar ou sustentar os factos vindos a público, também não deixa de ser verdade que, olhando com preocupação um futuro que não se afigura risonho, caberá também, aos próprios idosos uma grande responsabilidade na sua integração, na sua socialização, no fundo, na sua própria sobrevivência.
O envelhecimento não é, por si só, um fim nem deve ser encarado como algo terrível. Também cabe ao idoso o esforço por se adaptar, por se manter útil, procurar espaços de socialização, de participação comunitária, prolongando, desta forma, o seu papel activo na sociedade.
A todos cabe uma quota de responsabilidade…
publicado por mparaujo às 07:30

13
Fev 11

De repente saltaram para as primeiras páginas dos jornais e para as aberturas dos noticiários das televisões os casos de idosos encontrados sem vida e que vivam sozinhos.
Independentemente de questões de natureza legal e judicial que se possam levantar, independentemente destes casos serem, infelizmente, mais comuns do que se possa imaginar, mesmo sem terem tido o mediatismo da actualidade, o certo é que esta é uma realidade social preocupante e que ilustra um aspecto inquietante na sociedade de hoje: a indiferença para com os mais velhos, para com os que deixaram de ser produtivos, como se tudo na vida se reduza a uma mera “caixa registadora”!
Que triste sociedade que trata assim o saber, a experiência, a vida “vivida”, os que, a seu tempo, ajudaram a erguer e a desenvolver o país e as comunidades.
Podemos ter muito investimento nas tecnologias, muito impacto ambiental com as energias renováveis (carros eléctricos, energia eólica), muitos portáteis nas escolas (mesmo que sem aquecedores, com chuva e sem refeitórios), muitas revoluções “ciberconquistadas”, mas começa a ser gritante a falta de sentido comunitário, de solidariedade, de ajuda, de amizade e respeito… de uma sociedade desumanizada!
E são muitos os casos, sobretudo nas zonas urbanas, de cidadãos aos quais a família, pura e simplesmente, virou costas (nos seus lares, nos hospitais, nas instituições sociais).
É este o retrato de uma sociedade menos “vizinha”…
publicado por mparaujo às 20:06

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