Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

17
Nov 15

Rezar por Paris.jpgEnquanto preparava o texto para a edição de amanhã, 18 de novembro, do Diário de Aveiro: «Não vale a pena esconder… “cheira a medo”», saíam algumas linhas, como estas...

(...) Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos.
(...) A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África.
(...) Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas.
(...) Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamitas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso.

Ao mesmo tempo deparava-me com estas quatro referências informativas de inquestionável interesse e pertinência.

Primeiro, uma excelente reportagem da Fernanda Câncio, enviada especial do Diário de Notícias a Paris. Uma abordagem directa a alguns muçulmanos e às suas visões sobre os acontecimentos (muito bom mesmo o final da peça): "Estamos todos na merda, os muçulmanos".

Coincidência ou não, o "The Huffington Post" publicava um artigo sobre as mães dos jahidistas ("Mothers of ISIS") ao mesmo tempo que hoje, no Jornal da Uma, na RTP, deparava-me com um extracto de uma entrevista de António Esteves Martins (com Pedro Escoto) com a mãe de um jahidista português ("Jihadista português falou à mãe para saber notícias após os atentados").

Por último, o jornal Sol publica, com direito a tradução, uma carta aberta (publicada pelo autor nas redes sociais) do cidadão francês Antoine Leiris que perdeu a mulher (mãe de um bebé com 17 meses) nos ataques de sexta-feira passada ("Viúvo escreve carta emocionada aos terroristas que lhe mataram a mulher").

Leituras, entre outras, dos acontecimentos e dos seus reflexos.

(créditos da foto: EPA/Ian Langsdon)

publicado por mparaujo às 16:24

04
Abr 15

Há uma estranha relação entre a coerência crítica e os acontecimentos trágicos e condenáveis que, infelizmente, vão preenchendo o nosso dia-a-dia.

Somos, como "fui", Charlie...
Ficamos perplexos e revoltados com "onzes de setembro" (USA, Espanha, Inglaterra) ou atentados em maratonas nos Estados Unidos...
Bebemos páginas e páginas de texto, imagem atrás de imagem, notícia após notícia, quando um louco arrasta consigo centena e meia de inocentes, fazendo despenhar um avião em França...Etc., etc., etc. ...

O que é que há aqui de comum, para além da legitimidade da indignação face aos factos e acontecimentos? Em causa estão países que integram o chamado "mundo ocidental". Mesmo que assobiemos para o ar no que respeita a atentados contra as liberdades e garantias dos cidadãos ou no que respeita à pena de morte, vividos nesses países a "superioridade ocidental" é um argumento de peso na avaliação crítica dos acontecimentos.

Há dois dias um ataque dos fundamentalistas islâmicos a uma universidade no Quénia fez 147 vítimas mortais e provocou ferimentos em quase uma centena, por razões religiosas e contra o direito universal à educação. Sema mais nada... só porque sim.
Tivesse o caso ocorrido nos Estados Unidos ou na Europa e teríamos páginas e páginas de jornais, horas e horas de televisão, comentários após comentários de peritos em geopolítica, segurança, religião, e seriam escassos os espaços nas redes sociais.
Mas não... não foi num "ocidente qualquer". Foi nessa desterrada e deportada África (como é, em alguns casos, na ásia, américa do sul ou médio oriente) onde tudo e mais alguma coisa pode acontecer porque é o destino, por causa dos seus governos e governantes, porque ali nem o fim do mundo é... é o inferno.

E para além desta nossa incoerência e hipocrisia (preocupa-nos muitas vezes mais a caridadezinha para descargo de consciência) acresce, sem qualquer pudor, um claro sentimento racista.

Foi em África? pois... coitaditos, é a vida.

massacre na universidade do quenia.jpg

publicado por mparaujo às 12:03

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