Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

26
Jul 17

G_419.jpg

publicado na edição de hoje, 26 de julho, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos
das Liberdades

A agenda dos últimos dias tem sido marcada pelo claro e notório confronto de ideias e opiniões, sejam elas de âmbito social ou político, tornadas conhecidas por força do papel e da missão da comunicação social. A par das discussões, mais ou menos públicas, mais ou menos mediáticas, surge sempre a argumentação da Liberdade.

As afirmações pouco gentis de Gentil Martins

O conceituado cirurgião Gentil Martins e ex-Bastonário da Ordem dos Médicos (1977-1986), numa recente entrevista ao jornal Expresso, afirmou que a homossexualidade era uma anomalia, comparando os homossexuais aos sadomasoquistas ou às pessoas que se mutilam. Que Gentil Martins seja contra, como afirma na entrevista, a homossexualidade é um claro direito que lhe assiste, como lhe assiste o mesmo direito de o dizer publicamente (“sou contra”, “não concordo”). O que já não tem direito é de manifestar, sob a protecção da liberdade de expressão, juízos de valor para com as escolhas pessoais e perfeitamente legítimas de outros cidadãos, só porque as mesmas fogem à sua concepção de normalidade da realidade que vive. Gentil Martins perde o direito à sua liberdade de expressão/opinião quando a mesma fera os mais elementares princípios básicos das liberdades, garantias e dignidade de cada ser humano. Mais grave se tornam as suas afirmações quando lhe é reconhecido o papel social e a sua mediatização por força da sua condição profissional, sendo que para um médico, para um ex-Bastonário, esquecer (ou propositadamente o fazer) que a Organização Mundial de Saúde, em maio de 1990, retirou a homossexualidade da lista das doenças mentais. Gentil Martins não tem o direito, nem a liberdade, de dizer que a opção e escolha, claramente pessoais e íntimas de cada cidadão, é uma anomalia e um desvio de personalidade. São as legítimas escolhas de quem acha que a sua sexualidade só a si diz respeito.

Um olho no cigano, outro no André Ventura

A política, ou de forma mais correcta, a politiquice bateu no fundo, atingiu o grau zero do aceitável. O candidato (agora apenas) do PSD à autarquia de Loures atacou, há dias, numa entrevista ao jornal i, a comunidade cigana (toda a comunidade cigana), insurgindo-se pelo facto (segundo o próprio) dos ciganos viveram exclusivamente à custa do RSI e de estarem acima da lei e do Estado. Já no “Debaixo dos Arcos” tinha criticado e fundamentado a xenofobia e o racismo presentes nas afirmações do candidato, ao que acrescento o enorme erro político do PSD em manter o apoio a uma candidatura que recorre ao mais baixo da política, a um populismo eleitoral grave e preocupante (a polémica mais recente é a pretensão do candidato a criar um exército em Loures para substituir as forças de segurança). Se André Ventura quisesse discutir se faz ou não sentido haver RSI, com que valores, a quem atribuir, com que regras e fiscalização, que alternativas, etc., teria toda a legitimidade e seria um claro exercício de política social. Usar estratagemas baixos de falta de respeito pela condição humana e pela equidade e justiça sociais é um atropelo inaceitável da liberdade. Dos 60 mil ciganos existentes em Portugal apenas 24 mil usufruem do RIS, num universo de 300 mil subsidiados. André Ventura não é, no mínimo, politicamente sério.

A lei da rolha

A Constituição determina o direito fundamental de informar e ser informado. Um direito partilhado entre quem informa (comunicação social) e os cidadãos (o quererem ser informados). E não vale a pena justificarem o injustificável. A recente alteração de processos que impede as chefias de bombeiros e os comandos operacionais no terreno de prestarem declarações e informações sobre os incêndios em curso, é um manifesto e óbvio atropelo à liberdade de informação. A centralização da informação na sede da Autoridade Nacional da Protecção Civil (com os briefing bidiários) não é mais que o reflexo do desastre comunicacional que foi a tragédia de Pedrógão, Castanheira e Figueiró. O claro receio que haja informação e dados que criem desconforto e prejudiquem a imagem da ANCP e do Governo levou António Costa e o MAI a centrarem e a filtrarem a informação. Como resultado temos notícias condicionadas e limitadas porque não é a mesa coisa que o debitar de meros dados estatísticos para a confrontação com a realidade e o contacto directo com os acontecimentos. O Pinhal Interior deixou marcas significativas no Governo… e ainda não foi tudo “extinto”.

publicado por mparaujo às 09:37

03
Mai 16

3 de maio - liberdade de imprensa.jpg

O dia 3 de maio assinala o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. O direito a informar e a ser informado de forma livre, sem pressões ou constrangimentos.

Qualquer democracia e Estado de Direito precisam, na sua estrutura, de uma comunicação social independente, livre, atenta, rigorosa e que fale, acima de tudo, verdade.

Importa, por isso, lembrar no dia de hoje (o que deveria ser feito todos os dias) a actual realidade da comunicação social, as suas dependências económicas, as suas dependências administrativas, os impactos editoriais e as condições de trabalho dos seus profissionais.

Assim como importa lembrar no dia de hoje (o que deveria ser feito todos os dias) os que morreram ao serviço da liberdade de imprensa, em plenas funções ( a ong Repórters sem Fronteiras aponta para cerca de 110 profissionais mortos em todo o mundo no ano de 2015), para além dos que são torturados e presos (54 sequestrados e 153 estão presos) pelo simples uso de um direito universal e fundamental intrínseco à sua profissão.

Mas também devia ser dia (agora que foi anunciado um eventual próximo congresso de jornalistas) e deveria sê-lo todos os dias altura para reflectir sobre a própria realidade da imprensa.

Ainda no discurso das comemorações do 42º aniversário do 25 de Abril de 74, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aludia à importância da Liberdade de Imprensa como uma das grandes "conquistas de Abril", a par da Liberdade de Expressão.

É também nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes e contextos, que a própria imprensa se define e se recria diariamente.

Se a liberdade de expressão, como direito fundamental, é inquestionável e deve ser, sempre, preservada e protegida, não deixa de ser igualmente verdade que o papel socializador da comunicação social deveria estar sempre presente nos critérios editoriais. Mesmo criticando e condenando conhecidas concepções e intervenções do economista Pedro Arroja sobre homossexualidade, o papel das mulheres na sociedade e na política, sobre juízos de valor em relação a dirigentes femininas do Bloco de Esquerda (Catarina Martins, Marisa Matias, Mariana Mortágua), etc., assiste-lhe o direito à sua opinião, por mais surreal, absurda e estúpida que seja. O que não se compreende é que um órgão de comunicação social, como o Porto Canal, se esqueça do seu papel e da sua condição (para além do esquecimento dos jornalistas do seu código deontológico e do seu estatuto legal) e sirva de palco a atentados homofóbicos, sexistas, xenófobos. Tudo agravado com uma posição editorial que afirma publicamente o seu distanciamento em relação às posições do professor economista, mas que insiste em dar voz pública, enquanto informação, aos constantes atropelos dos mais elementares direitos universais.

Mas ainda recentemente a comunicação social conheceu mais uma incompreensível incoerência entre a informação e a realidade e que nos leva a questionar, também, a relevância do actual papel da imprensa na sociedade.

A SIC iniciou há poucas semanas, segundas-feiras à noite, um novo espaço de reflexão sobre a sociedade. O programa "E se fosse consigo?" aborda, de forma excelente e com interessante trabalho jornalístico, temas muito próximos das pessoas como o racismo, o bullying ou, mais recentemente ainda, a obesidade.

O curioso, nesta questão da temática da obesidade, é um canal de televisão (ao caso a SIC, mas poderia ter sido outro qualquer ou até todos) promover um debate e uma reflexão sobre a obesidade, os seus impactos nos vários processos de socialização, no bem-estar (físico e psicológico) dos cidadãos, quando se sabe (interna e externamente) que o próprio meio televisivo é um péssimo exemplo no que respeita à forma como privilegia o aspecto físico nas funções dos seus profissionais, nomeadamente dos jornalistas de sexo feminino.

Também nisto, nestas pequenas coisas que vão construindo o dia-a-dia da imprensa e contribuem para a sua imagem de credibilidade e de liberdade, se devia reflectir e repensar.

publicado por mparaujo às 14:07

29
Out 15

Censura foto.jpgTemos este péssimo "código genético": o da incoerência, o de agir em função do vento e das modas, o de tomar posições em função dos nossos interesses e do que mais nos convém. É péssimo e é condenável.

Importa, primeiramente, afirmar: não gosto do Correio da Manhã, nem da CMTV, bem pelo contrário. Isso é público e já por várias vezes proclamado.

Mas tal como critiquei, muito recentemente, o jornal Público pela eventual colaboração como cronista do ex-ministro Miguel Relvas ("Que a memória não se apague") depois do deplorável caso de pressão e perseguição à jornalista Maria José Oliveira, não posso deixar de criticar e repudiar, em defesa da liberdade de informação, do direito a informar e da liberdade de expressão, a decisão judicial de "calar e censurar" (porque é disto que se trata) o Correio da Manhã em relação ao processo "Marquês" que envolve o ex Primeiro-ministro, José Sócrates.

Nunca, até hoje e em função do desenrolar do caso, apontei qualquer crítica a José Sócrates (nem o defendi) por acreditar na separação de poderes e no elevado princípio da presunção de inocência. É público e repetido.

Mas não posso, independentemente de achar criticável o jornalismo (?) praticado pelo grupo Cofina, deixar de condenar o que entendo ser um acto puro de censura à informação e um claro e evidente ataque a um órgão (grupo) de comunicação social.

O CM e a CMTV, em particular, aos quais podemos juntar ainda a Sábado e a Flash, não são exemplos das virtudes jornalísticas, do meu ponto de vista. Mas tal como não sou adepto da sátira informativa do Charlie, pela superior defesa da liberdade de informação "não concordo, em nada, com o que a Cofina diz, mas não posso deixar de defender a liberdade da sua existência".

Há mecanismos próprios para condenar a acção dos órgãos de comunicação social do grupo Cofina sem limitar e amordaçar a liberdade e o direito de informar.

Abriu-se uma perigosa Caixa de Pandora, seja por este caso que envolve José Sócrates, seja por que caso for.

Isto é um claro atentado ao Estado de Direito e à democracia.

publicado por mparaujo às 11:45

14
Jan 15

publicado na edição de hoje, 14 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ontem fomos ‘Charlie’. E hoje?

A resposta ao atentado da semana passada (precisamente há oito dias), em Paris, na redacção do jornal Charlie Hedbo, e que vitimou 12 pessoas, das quais oito eram jornalistas, foi, em França, na Europa e em muitos locais do mundo, massiva e pronta. A resposta através da mensagem e das afirmações públicas “Je suis Charlie” correu televisões, jornais, redes sociais, câmaras fotográficas por todo o mundo. A mediatização dos acontecimentos, a solidariedade e a condenação dos actos tomou, rapidamente, proporções, à partida, não imagináveis. O que foi tido, inicialmente, como um ataque à liberdade de informação rapidamente tomou contornos de um atentado à liberdade de expressão e ao próprio sistema democrático, para mais num país onde em 1789 surgiu a revolução pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto (viva a democracia e a liberdade de expressão) várias foram as vozes que se manifestaram indiferentes e críticas do movimento que se gerou. Alguns questionaram o porquê de só perante o atentado se erguerem vozes a favor da liberdade de informação e de expressão. Sendo um facto que existe, no dia-a-dia da comunicação social, constantes e relevantes atropelos à liberdade de informação, há, no entanto, uma desproporcionalidade dos factos e de contexto perante o assassínio bárbaro dos cartoonistas e jornalistas (sem esquecer, obviamente, as outras quatro vítimas). Nada justifica o silenciamento através da morte. Há em França, tal como cá e noutros pontos do globo, mecanismos próprios (judiciais/jurídicos, reguladores, o próprio direito à ‘contra-crítica’ pública) que permitem combater eventuais excessos à liberdade de expressão e de informação. Seguramente, a morte não é um deles. A crítica, a diferença de convicções e opiniões (e de crenças), a pluralidade, são pilares fundamentais do sistema democrático e de um Estado de Direito. Criticar é um dos fundamentos da liberdade; existem mecanismos próprios quem permitem a defesa de quem se sente ofendido. A morte não é um deles.

Uma parte dos que se manifestaram a favor da liberdade nunca ouviu falar do jornal Charlie Hedbo (nem da sua história); outros, como eu, nem eram adeptos das críticas e caricaturas que proliferaram, durante anos, naquelas páginas. Mas a defesa da liberdade exige transpor barreiras e divergências… exige união e convicção (naturalmente, mesmo com medos e receios). O radicalismo, o fundamentalismo, o extremismo, que produzem actos como estes não podem ficar impunes, nem vencer.

Mas os acontecimentos da semana passada levantam sérios desafios às comunidades, aos países, às instituições internacionais (como a UE), até porque, a par da ‘arma do fanatismo religioso’ há a inquestionável vertente política dos acontecimentos.

A defesa da liberdade e da tolerância, do multiculturalismo, não pode (nem deve) ser pontual e circunstancial. A liberdade e a tolerância, tantas vezes gritadas nestes últimos dias ou lidas na expressão “Je suis Charlie”), não podem cair no outro lado dos extremismos e radicalismos: a xenofobia, o racismo, a islamofobia, a incapacidade de acolher a diferença. Sendo certo que também não basta ao islamismo, ao dito moderado (caso seja correcto falarmos de vários ‘islamismos’), condenar, também e publicamente, os actos e os atentados, porque o facto é que as forças extremistas radicam no seu seio. A posição de ‘Pôncio Pilatos’ em nada favorece o combate a este tipo de terrorismo e em nada favorece a defesa da existência legítima do islamismo. Além disso, para muitos daqueles que se afirmaram como “Charlie” importa desafiar a sê-lo sempre, em qualquer circunstância, seja à sua “porta” ou mais “longe”, seja em que contexto for. Por exemplo, seria interessante constatar se muitos católicos “Je suis Charlie” também o são face às inúmeras caricaturas com que o jornal parisiense “brindou” o Vaticano e a Igreja Católica.

Por outro lado, o poder e as suas instituições (os Estados) devem evitar cair na tentação duma reacção desmedida que possa conduzir à limitação de liberdades, direitos e garantias, sob a capa da (necessária e urgente) Segurança.

Por fim, nós que fomos “Charlie” neste dias, temos o desafio de o ser ontem, hoje e sempre; quando a liberdade e a democracia estão em risco ou são silenciadas; quando se abate friamente alguém que pensa diferente e, por direito, nos critica; e também, quando se raptam e escravizam jovens e adolescentes em África; quando se mata e se desrespeita a dignidade através do abuso sexual na India; quando morrem milhares de pessoas num atentado bombista no Paquistão; quando jornalistas são executados e mortos no exercício das suas funções (só em 2014 foram mais de 40); quando são mortos, às mãos dos fundamentalistas, milhares de pessoas no Iraque; etc., etc.

Sim… “Je suis Charlie”. Ontem e hoje. Pela Liberdade e pelo direito à Vida.

 

publicado por mparaujo às 10:54

08
Jan 15

A onda de solidariedade para com o jornal Charlie Hedbo, a condenação do atentado de ontem, a defesa da liberdade de expressão e da liberdade de informação, e, infelizmente em menor escala, o luto também pelos dois polícias mortos, fizerem crescer um sentimento colectivo nas redes sociais e nos espaços públicos.

As capas de muitos jornais (nacionais e internacionais) de hoje (08-01-2015) são o espelho deste sentimento colectivo.
Espero, muito sinceramente, que todos nós, os que hoje somos "Charlie", amanhã o continuemos a ser em tudo o que condiciona a Liberdade de Expressão, a Liberdade de Informação e o direito à Vida.

(em portugal)

I 08-01-2015.jpg DN 08-01-2015.jpg JN 08-01-2015 Charlie Hedbo.jpg

Publico 08-01-20015.jpg Negocios 08-01-2015.jpg

(lá fora)

 Berliner Kurier 08-01-2015.jpg Berliner Zeitung 08-01-2015.jpg  Berlingske.jpg

Guardien 08-01-2015.jpg Independent 08-01-2015.jpg La Tribune 08-01-2015.jpg

Le Parisien 08-01-2015.jpg Lecho 08-01-2015.jpg Lequipe 08-01-2015.jpg

Liberation 08-01-2015.jpg  National 08-01-2015.jpg Normandie 08-01-2015.jpg

Politiken 08-01-2015.jpg

publicado por mparaujo às 17:29

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