Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

03
Nov 19

Há um elefante no meio da sala que a muitos teimam não ver.
O mundo está, hoje, numa perigosa escalada de instabilidade e conflitualidade social ou de contestações governativas.
Veja-se o que se passa na América do Sul (Chile, Bolívia, Equador, Guatemala), no Médio Oriente (Líbano, Iraque, Iémen) ou em África (Etiópia, Argélia, Sudão, Burkina Faso, Somália, Ruanda, Zimbabwe, Líbia), na Ásia (Hong Kong).
E, claro, o conflito internacional mais "mediático": Síria. Outra vez a Síria. Ou... ainda a Síria.

Importa acrescentar que, excluindo as regiões da América do Sul e Hong Kong, muitos destes países referenciados são geradores de fluxos significativos de migrantes e refugiados. E este é outro "elefante no meio da sala"... principalmente para a União Europeia.

Leva décadas a forma inconsequente, socialmente condenável, como a Europa tem tratado (ou não tem sabido tratar) a questão dos cidadãos migrantes/refugiados, nomeadamente após o boom do fluxo migratório dos últimos anos, com o Mediterrâneo a transformar-se, semana após semana, num assustador cemitério. Só este ano, segundo os dados da Organização Internacional das Migrações (outubro 2019), atravessaram o mar Mediterrâneo mais de 76.500 refugiados e cerca de 1.1000 perderam lá a vida (1 em cada 28 não chega à "liberdade").

Não é coerente, não é honesto colocarmos todo o ónus da responsabilidade no terrorismo, no estado islâmico, no conflito religioso, na corrupção que assola esses países, no tráfico humano. A fome, a miséria, os conflitos armados/a guerra, a obsessão pelo poder, a exploração de pessoas e recursos, os interesses geopolíticos e geoestratégicos, têm rostos e bandeiras. A Europa é um desses rostos, pela história, pela inércia, pela incapacidade de acção e de influência, pela subserviência a valores mais altos (que não mais dignos).

Esta inércia, esta incapacidade de acção e de se criarem políticas sociais comuns no seio da União Europeia, é preocupante.

Interessa-me muito pouco, muito poucachinho mesmo (para ser mais soft que o treinador Sérgio Conceição) a guerrinha de egos entre Nuno Melo e Marisa Matias, mesmo sabendo que a eurodeputado bloquista não foi, politicamente, séria na discussão (escondendo, porque lhe deu jeito) metade da história/dos factos. O velho estigma e mau hábito que só a "esquerda liberta e é socialmente responsável". Tretas.

O que importa é que, em cima da mesa, no parlamento europeu estiveram 4 propostas para votação, todas elas directamente relacionadas com a problemática do resgate e apoio aos refugiados que atravessam o Mediterrâneo (as 4 propostas de resolução podem ser consultadas AQUI). Excluindo duas das propostas - do grupo de extrema-direita "Identidade e Democracia" e do grupo eurocéptico e conservador ERC (Conservadores e Reformistas Europeus) - que eram explicitas na forma como condenavam e como recusavam qualquer apoio ou política para os Refugiados, as outras duas apresentavam, com diferenças pontuais, o mesmo objectivo: o apoio a processos de busca e salvamento de migrantes/refugiados no Mediterrâneo. Uma apresentada pelo deputado europeu espanhol, o socialista Juan Fernando López Aguilar, da LIBE (comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos) e outra pelo PPE (Partido popular Europeu). E aqui reside a vergonha e a tristeza de uma União Europeia que apenas se limita à distribuição de subsidiozinhos (apesar de relevantes para o desenvolvimento das regiões... não é isso que está em causa, obviamente).

A tristeza, o que é deplorável e condenável, é que o Parlamento Europeu tenha estado mais preocupado com diferenças de pormenor entre as duas propostas do que propriamente com a vida daqueles que fogem à morte nas suas terras para, infelizmente, a encontrarem no mar à procura da liberdade e da sobrevivência. O não acordo e a falta de conciliação das duas propostas levou ao chumbo das mesmas e, consequentemente, de todo o processo, acabando por entregar a vitória "social e política" aos extremismos, radicalismos e populismos.
Enquanto isso, vão continuar as guerras, os conflitos sociais, a fome, a miséria e a morte, sob o assobiar para o lado por parte de quem tem responsabilidade e tem a capacidade de intervir, positivamente, nesta problemática e realidade. Enquanto isso, vamos sofrendo a ameaça, real, da Turquia em abrir as suas portas, esquecendo-nos do triste acordo que a União Europeia (Angela Merkel) firmou com o Sr. Erdogan em março de 2016.
Por outro lado, infelizmente, os vários e muitos "Nunos de Melo" e as "Marisas Matias" do Parlamento Europeu vão continuar a medir propostas como os putos mediam pilinhas na escola primária: a minha proposta é melhor que a tua!

As vidas??!! ... podem esperar. Vergonha!

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publicado por mparaujo às 21:54

29
Set 19

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(créditos da foto: Christopher Reardon / ACNUR-ONU)

A ONU declarou instituiu, desde 2000, o dia 20 de junho como o "Dia Mundial dos Refugiados". Hoje, 29 de setembro, a Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.
Podendo parecer uma duplicação de datas, independentemente de crenças e credos, a verdade é que todas as datas, todos os momentos são importantes para lembrar e alertar para o maior flagelo da humanidade, nos dias de hoje. Por mais movimentações, greves, manifestações, intervenções que, legitimamente e com toda propriedade, nos avisem para a vertente ambientalista. Nada vale mais que a dignidade e vida humana.

Importa, por isso, lembrar. A ACNUR (Agência de Refugiados das Nações Unidas) estima (em 2018) que mais de 70 milhões de pessoas, em todo o mundo, fujam da guerra, de perseguições e conflitos políticos, étnicos e religiosos, e da ausência de condições de sobrevivência (muito por culpa das alterações climáticas que alguns teimam em negar). Sendo que este número representa um aumento de mais de 50% do número de refugiados na última década.
Das 70,8 milhões de pessoas... 25,9 milhões (50% são crianças, sendo que milhares estão sozinhas) foram forçadas a sair dos seus países por causa da guerra, conflitos e perseguições ou pela sobrevivência "natural"; 3,5 milhões de solicitaram refúgio (nomeadamente por razões políticas, sociais e humanitárias); e 41,3 milhões de pessoas são considerados "deslocados internos" (foram obrigadas a abandonar as suas casas mas permanecem no país). Os principais países de origem são a Síria, Palestina, Iémen, Sudão do Sul, Afeganistão, Ucrânia, Mianmar/Bangladesh, Somália, Burundi, Ucrânia, África Subsaariana (República Centro-Africana, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Gâmbia, República Democrática do Congo, Uganda), Venezuela e El Salvador, Nicarágua e Guatemala (que atravessam o México para chegar aos Estados Unidos).
Retomando o número apurado de refugiados (25,9 milhões fora dos seus países de origem) e contrariando o estigma instalado em muito do discurso comum (quer na Europa, quer nos Estados Unidos), 80% destas pessoas vive nos países vizinhos aos de origem (mesmo que em campos de refugiados). Aliás, os três países que mais refugiados acolhe são a Turquia, o Uganda e o Paquistão (6,3 milhões de pessoas).

Interessante é a abordagem do Vaticano à problemática e a forma como a questão dos Migrantes e dos Refugiados foi apresentada, neste dia.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se também dos nossos medos.
Ou se preferirmos... a desconstrução desses medos. Da multiculturalidade, da diferença, da "invasão".
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se também da nossa humanidade.
Da responsabilidade que os chamados países desenvolvidos, as potências, os países dominantes, tiveram e têm nas regiões empobrecidas, escravizadas, exploradas, desfeitas pelos conflitos e guerras (alimentados, interessadamente, à distância).
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata-se de não excluir ninguém.
Porque todo o ser humano tem direito à vida e vida com dignidade. Porque ninguém é refugiado porque quer, por opção, mas sim por imposição, por uma questão de sobrevivência.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata se de colocar os últimos em primeiro lugar.
Porque a todos devem ser garantidas as mesmas oportunidades. Porque todos devem ter direito a um lugar para viver. Porque para com os mais frágeis, os mais desprotegidos, há o dever colectivo de proteger e ajudar.
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES... Trata se da pessoa toda e de todas as pessoas.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. (artigo 1.º da declaração Universal dos Direitos Humanos).

Enquanto que no primeiro semestre de 2019, 34.226 migrantes e refugiados chegaram à Europa através do Mediterrâneo e, no mesmo período, 683 não chegaram a sentir o sabor (mesmo que condicionado) da liberdade e de uma nova vida. Fugiram da morte para encontrar a morte.
Enquanto que, naquele que é uma dos maiores ataques à dignidade, direitos universais e ao respeito pelo outro, na fronteira dos Estados Unidos com o México, mais de 911 crianças (20% das quais são bebés ou com idade inferior a 5 anos) foram retiradas à sua mãe, ao seu pai, às suas famílias. Para além das condições desumanas com que o Centro de Detenção em Homestead, na Florida, acolhe mais de 2.000 crianças e jovens (dos 13 aos 17 anos).

E porque a história nunca deve ser travada... vem à memória as imagens de Alan Kurdi (numa praia da Turquia) e do pai a abraçar a sua filha bebé, ambos mortos, no Rio Grande, na fronteira México-Estados Unidos - Óscar Ramírez e Valeria.

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publicado por mparaujo às 20:54

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