Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

17
Nov 19

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(créditos da foto: André Vidigal / Global Imagens, in JN online)

O facto: Fatima Habib, uma atleta da equipa sub-16 feminina do Clube de Basquetebol de Tavira, de origem paquistanesa e de religião muçulmana, foi impedida de disputar um jogo contra o Basquetebol Clube de Albufeira, porque se recusou a despir uma camisola interior de manga comprida, já que a sua religião a impede de mostrar publicamente os braços. Fatima Habib apresentou-se em campo com o equipamento do clube, collants, camisola preta de manga comprida e um lenço na cabeça.
A equipa de arbitragem limitou-se (e apenas isso) a fazer cumprir os regulamentos em vigor, tendo o clube já sido alertado, numa situação anterior, para a questão.
A equipa de arbitragem permitia que a jovem atleta jogasse com collants e o lenço, mas não a camisola preta de manga comprida. Apesar de entender (sempre são 29 anos de experiência treinador de basquetebol) que o argumento usado pelos árbitros para a não autorização do uso da camisola não terá sido o mais lógico: da indumentária apresentada pela jogadora, o que podia criar problemas de integridade física à atleta e às restantes jogadoras seria o lenço e não a camisola de manga comprida. Mas não é isso que importa destacar...

O que importa referir foi o chorrilho de comentários e observações que se seguiram: a facção de acusação de xenofobia, racismo, intolerância... a facção dos que criticaram a atleta e a família pelo uso dos costumes muçulmanos (estando em Portugal).

As regras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), aplicadas pela Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) nas diversas competições, são gerais, aplicáveis a todos de igual forma, sem qualquer tipo de discriminação, nomeadamente no que diz respeito à religião e credos. Esteve muito bem a FPB que, neste fim de semana, proporcionou à atleta um equipamento homologado pela FIBA para casos semelhantes em todo o mundo e que permitiu a Fatima Habib poder jogar sem qualquer tipo de constrangimento.
Cai, aqui, o argumento extremista (num dos extremos) que acusava a equipa de arbitragem, a Associação de Basquetebol do Algarve e a FPB de xenofobia e intolerância.

O outro argumento extremista (o do populismo, da pequenês de espírito, do ridículo) é mais preocupante. Seria uma lista bastante grande de "copy paste" de um conjunto de críticas que nem lembrariam ao diabo (só mesmo a alguns dos portugueses pequeninos): «se está em Portugal tem que cumprir as 'normas'(?) sociais portuguesas», «as filhas hão-de vestir biquini», «não gosta ou não quer, que vá para a terra dela», «Portugal é um país católico e não é para esta gentinha» (esta é das melhores)... isto para referir apenas as mais "soft".

Segundo a jovem, esta realidade não é nova; já se tinha deparado com este tipo de circunstâncias também na escola, minimizadas pela firme posição de uma professora que a defendeu publicamente.

Este é o grande problema da inclusão, do acolhimento, da tolerância. Este é, perigosamente, o problema de Portugal: somos, cobarde e hipocritamente, anti-racistas, anti-xenófobos, tolerantes e acolhedores.
Acolher, integrar, receber é um processo de respeito mútuo. Um processo de integração respeitando a multiculturalidade, a diferença, as opções de vida do outro. E não querer impor uma vontade, maioritária que seja, o nosso modo de vida, como se fossemos os "donos da verdade e da existência".
Só defendendo integralmente o princípio e o conceito da tolerância, do respeito pela diferença, conseguiremos ter uma sociedade mais justa e mais igualitária.
Enquanto assim não for, aqui, como por esse mundo fora, vão continuar a existir os radicalismos, os extremismos, os refugiados, os conflitos políticos, sociais e religiosos, os atentados terroristas.

A jovem atleta Fatima Habib limitou-se apenas a ser quem era, na diversidade (por sinal perfeitamente aceite) da sua equipa e do seu grupo.
Felizmente, jovens de 14 e 15 anos perceberam muito melhor o que é viver em sociedade do que muitos adultos armados em "arautos da moralidade e dos bons costumes".

publicado por mparaujo às 20:49

21
Ago 17

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publicado excepcionalmente na edição de hoje, 21 Agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
No tenim por
(*)

Os últimos e recentes momentos são de luto, de dor e de tragédia: incêndios, devastação, mortes, ataques terroristas. Foi no Pinhal Interior, no interior centro e sul do país, na Madeira, em Barcelona e em Cambrils (acrescentando-se ainda, com contornos por clarificar à hora da escrita deste texto, o atentado em Turku, na Finlândia). No caso das Ramblas e Cambrils, a Europa volta a ser alvo de dois hediondos ataques terroristas reivindicados pelo Daesh, apesar de várias notícias recentemente difundidas que davam conta de uma eventual fragilização na liderança e nos recursos do movimento radical islâmico. No entanto, no espaço de poucas horas e de escassos quilómetros de distância, dois atentados provocam 14 mortos e mais de uma centena de feridos, duas das quais portuguesas, num total de quase 40 nacionalidades.

A Europa voltou a ser alvo do extremismo e da fúria do radicalismo islâmico assente nos três pilares dogmáticos: social, religioso e político. O transtorno da normalidade do dia-a-dia, a instalação do pânico, do medo e da insegurança, a conflitualidade e a divisão multicultural, são objectivos claros da acção das células terroristas no seio das comunidades. A negação e o combate aos valores da sociedade ocidental por oposição aos valores do Islão, são os óbvios objectivos religiosos desta jihad menor. Por último, a reacção às acções da comunidade internacional, nomeadamente no médio oriente, que têm, ao longo de décadas (para não precisarmos de recuar muito mais nas memórias da história), criado na região uma instabilidade política, social e económica completamente desastrosa, espelha o combate político.

Novamente, em plena Europa, os nossos valores, costumes, princípios e modo de vida, foram atacados “por e de dentro”, por cidadãos europeus nos seus plenos direitos de cidadania. Mas, a par com a revolta e a solidariedade inequívocas, há algumas inquietações que os factos me suscitam.

  1. Por mais discursos e momentos de solidariedade que possam exprimir a dor e a revolta, das cerca de 40 nacionalidades representadas pelas vítimas dos atentados na Catalunha quantos governos não são responsáveis pela instabilidade política, económica e social do Médio Oriente (com a Síria à cabeça, sem esquecer a “amiga” norte-americana e europeia Arábia Saudita) e no coração africano, que tem levado ao surgimento e propagação do radicalismo islâmico?
  2. O ressurgimento do populismo e xenofobismo (islamofobia). Não faltou muito, poucas horas apenas, para que se instalasse a confrontação (discursiva ou mesmo física) entre aqueles, nos quais me incluo, que defendem a integração e o multiculturalismo, que acham que o drama dos refugiados nada tem a ver, directamente, com esta realidade, que a jihad menor não é apenas executada na Europa mas sim nos próprios países muçulmanos (mas é tão fácil esquecer a Síria, África, Afeganistão, Mossul, …, só porque é lá a “terra deles”); e os que preferem erguer muros e fronteiras, barreiras sociais e físicas contra a defesa da dignidade da pessoa humana e dos seus fundamentais direitos, liberdades e garantias inerentes a cada cidadão, muito para além das fronteiras do nosso quintal, bairro, comunidade ou país. E isso é um dos principais objectivos que motivam os jahidistas.
  3. No caso concreto, alargado a todos os atentados até agora realizados, a comunidade islâmica radicada na Europa tem publicamente condenado as acções dos radicais e extremistas. Mas é importante que os responsáveis por essas comunidades passem a ser, definitivamente de uma vez por todas, parte activa no combate ao terrorismo porque é no seu seio que surgem estes mujahidin. Importa lembrar que só na Catalunha estão mais de metade das mesquitas erguidas em território espanhol, algumas centradas no islamismo mais conservador. Não basta condenarem publicamente se o seu dia-a-dia é inconsequente no que respeita ao contributo para o fim das células terroristas.
  4. Por último, é inequivocamente louvável a forma como as comunidades que sofrem os atentados reagem, positivamente (mesmo com a dor e a revolta), a cada acto ignóbil e indigno que atenta contra o valor da vida humana e a sua dignidade. O regresso imediato, mesmo que a custo, à normalidade é algo que perturba o sucesso destas acções e dos seus autores. Daí que não seja perceptível o comportamento da comunicação social no tratamento informativo destes contextos, com a difusão excessiva e massiva de imagens das vítimas e dos impactos da tragédia, a proliferação repetitiva (e muitas vezes banalizada) dos directos e depoimentos, a divulgação dos rostos e nomes dos criminosos transformados, dessa forma, em mártires e exemplos vindouros, colocando em causa a própria responsabilidade social inerente à sua génese e missão. É contraditório, é perfeitamente escusado, é evitável, sem que isso menorize a qualidade informativa e o rigor da notícia. Importa distinguir interesse público de “interesse do público”.

(*) “No tenim por” significa, em catalão, “Não temos medo”

(créditos da foto: Lluis Gene/AFP - in Veja.com)

publicado por mparaujo às 11:15

06
Jun 17

São significativamente várias as reflexões sobre o terrorismo onde aponto o dedo à responsabilidade que a União Europeia, a Rússia, a China e os Estados Unidos têm, TAMBÉM, neste avolumar de actos bárbaros terroristas que têm assolado a Europa, os Estados Unidos, o Médio Oriente (bem no coração islâmico), a África (tanta áfrica) e a longínqua Ásia. Ou seja... os quatro cantos do mundo e não apenas a Europa.

Não vale a pena esconder a cabeça na areia ou sacudir a água do capote. O extremismo político-religioso islamita tem causado o pânico, o terror e a morte, por todo o mundo, por mais ou menos que estejamos preocupados ou com medo. É preocupante, tem que ser combatido e extinto. Mas importa igualmente abandonar de vez a hipocrisia geopolítica e geoestratégica internacional que por um lado verte lágrimas de solidariedade e por outro vende armas ao coração do extremismo islâmico (Arábia Saudita e envolvente) ou ainda descarrega responsabilidades na tragédia humanitária dos refugiados que nunca soube tratar, nem acolher (antes pelo contrário), com Donald Trump como protagonista principal.

Mas há ainda um outro aspecto importante no urgente combate ao terrorismo que explode nos dias de hoje: a própria comunidade islâmica, principalmente a radicada fora das suas naturais origens (por exemplo, na Europa).

Reconheça-se a coragem de dizer "Not in my name"...
Reconheça-se a coragem pública de Sadiq Khan, mayor de Londres, (para além da genial frontalidade em relação a Trump) em afirmar que, como muçulmano, não se revê na perversão dos valores do Islão e que, pessoalmente, estará na primeira linha de combate a estes hediondos actos...
Reconheça-se e aplauda-se a posição assumida por cerca de 130 Imãs que se recusaram a participar nos funerais dos autores dos atentados do passado sábado...

São actos e posições louváveis, que se aplaudem, que se devem valorizar e que vão para além de uma questão de sobrevivência social.

São pequenos mas gigantescos passos para que a comunidade islâmica tenha consciência que é no seu seio que surgem as radicalizações e as conversões ao extremismo e se prontifique a ser parte da solução deste grave problema... em defesa do multiculturalismo, da liberdade religiosa e do contributo que podem dar ao desenvolvimento e crescimento das comunidades.

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(créditos da foto: Marko Djurica/Reuters in JN)

publicado por mparaujo às 15:16

28
Fev 16

Je Suis.jpgA polémica em torno do cartaz do Bloco de Esquerda sobre a adopção por casais do mesmo sexo e que envolve a figura de Jesus trouxe, nos inúmeros comentários e criticas (pós e contra), o regresso da questão da liberdade de expressão e o caso do ataque ao jornal  Charlie Hebdo há pouco mais de um ano (7 de janeiro de 2015).

Já não bastava a infantilidade da mensagem do infeliz cartaz para vir a despropósito a acusação e a retórica de que somos "Charlie" apenas quando nos convém ou quando não nos toca directamente. Não, não somos... pelo menos não sou.

Como refere o título do post anterior (sobre a polémica) "Não está em causa a liberdade de expressão". E mesmo que se queira usar a demagogia deste argumento, a verdade é que a liberdade de expressão, o seu legitimo exercício, mesmo o direito à ofensa, não implica que quem se sinta atingido não se ofenda e não tenha direito ao recurso ao contraditório.

E sim... continuo "Je suis"... porque mesmo não gostando do Charlie Hebdo reconheço o direito à liberdade de expressão, mesmo que ela me ofenda. A grande diferença é que reconheço o meu direito a sentir-me ofendido e a criticar. A grande diferença é o recurso ao estado de Direito, às leis, à crítica. A grande diferença é que enquanto "Charlie" não me cabe o direito de matar como retaliação à ofensa e à liberdade de expressão.

Não... o cartaz do BE não me ofendeu pelo recurso à figura de Jesus, nem beliscou minimamente a minha fé.

O cartaz do BE ofende (e, como tal, é motivo de legítima critica) pela infantilidade, pelo inconsistência do argumento, pela ironia totalmente falhada, pelo desrespeito pela causa ganha, por todos os que lutaram por ela, pelos próprios crentes (como eu) que aplaudiram a adopção por casais do mesmo sexo porque não é uma questão dogmática, religiosa... é uma questão de princípio de igualdade de direitos, seja de quem adopta, seja de quem é adoptado.

Sim... até por causa do cartaz do BE eu continuo "Charlie", sempre.

publicado por mparaujo às 15:06

05
Jan 16

ateu.jpgAhhh e tal... agora temos um governo de esquerda, das esquerdas e à esquerda.

Ahhh e tal... a esquerda é, por norma, tradição e natura (embora não exclusivamente), agnóstica e ateísta.

Ahhhh e tal... a esquerda é, por ideologia, sempre e sempre a favor da separação entre Estado e Religião, sempre pela laicidade do Estado.

Ahhhh e tal... tirem-se os crucifixos das salas de aulas das escolas públicas, retirem-se procedimentos protocolares religiosos, paguem IMI e IVA (o que acho bem por não haver qualquer fundamento para a diferenciação), critique-se a construção da nova mesquita em Lisboa, etc., etc., etc.

MASSSSSSSSSS.....

O Governo, o tal de esquerda, do PS republicano, confirmou o regresso dos feriados religiosos (os dois que tinham sido "suspensos" pelos "pios direitolas") já este ano de 2016 (via Rádio renascença, só para a ironia). Pois.... e para TODOS.

Sabe bem, não sabe?

publicado por mparaujo às 12:05

28
Jun 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 28 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os pequenos passos do Papa Francisco

Muitos dos católicos conservadores e dos críticos do Papa Francisco vaticinavam outro tipo de desfecho, de fraca popularidade, de inactividade ou actividade irrelevante. Alguns, até, não esperariam que o seu Pontificado chegasse tão longe. Mas a verdade, é que desde a primeira hora, o que para muitos não era mais que mediatismo ou populismo balofo, que o Papa Francisco tem revolucionado a Igreja conservadora, castradora, condicionalista, tradicional, e abriu-a ao que deve ser a sua principal missão e objectivo: o mundo. Mesmo que, com um ou outro recuo, mesmo que nem sempre com a celeridade que muitos gostariam… mas ainda bem. Com serenidade, com paciência e sapiência.

Ao mesmo tempo que Francisco vai renovando e redefinindo o “interior” do Vaticano (a sua “Cúria” e a estrutura de Estado), vai tornando a Igreja mais próxima dos tempos e das pessoas… de todas, sem excepção. Daí que, mesmo para não crentes, as suas acções sejam vistas com enorme satisfação e aplauso, dando um novo sentido e rumo ao que é e significa ser Igreja. O mais recente exemplo é o da encíclica “Laudato si” sobre o ambiente e que teve um significativo impacto. Primeiro, porque foi a primeira sobre o tema. Segundo, mesmo que não o fosse, revela uma posição do Papa Francisco politicamente forte (sim, porque ela é política), coerente (sustentada em consistente informação e estudos científico. Terceiro porque coloca a problemática do ambiente centrada no ser humano, com fortes críticas ao mercantilismo, ao economicismo puro e cego, às desigualdades e ao fosso entre ricos (poucos) e pobres (cada vez mais), aos interesses instalados e ao lucro desmedido. Tal é um documento tido e visto como revolucionário ao ponto de ter gerado (o quão raro é) uma reacção extremamente positiva do Presidente dos Estados Unidos que não se poupou nos elogios aos “recados” papais (mesmo aqueles que lhe eram dirigidos… e foram alguns).

Mas, como são bem sabidas e conhecidas, as surpresas do Papa Francisco não se resumem apenas a este momento (já o tinha sido, mesmo que com menos impacto, com a encíclica “Lumen Fidei”). São inúmeros os exemplos, quer nas acções, quer nas afirmações e documentos (cartas, encíclicas, discursos, exortações, homilias ou mensagens) das posições e convicções do Papa Francisco, para gáudio de muitos e “comichão” de alguns. Como mero exemplo as posições políticas no discurso no Parlamento Europeu, a influência na aproximação entre Cuba e Estados Unidos ou o reconhecimento do Estado da Palestina. Do ponto de vista humanitário, as acções que já realizou em celebrações religiosas (p.ex. o impacto com o Lava Pés Quaresmal), as visitas aos sem-abrigo ou as posições sobre a trágica realidade da migração no Mediterrâneo. Mas não deixam de ser ainda exemplo, estas com significativo impacto na Igreja e que são o espelho dos importantes passos (pequenos na celeridade mas relevantes na dimensão) que Francisco vai dando na “evangelização interna” da própria Igreja: o Papa criou, este mês, um tribunal para julgar encobrimentos de casos de abusos sexuais de menores (mesmo que bastasse à Igreja não encobrir, nem pactuar, e entregar aos tribunais comuns os casos, já que os crimes não são contra a Igreja mas sim contra um ser humano); a atenção expressa, por várias vezes, ao papel da mulher quer na sociedade, quer na própria Igreja; e, a propósito do próximo Sínodo dos Bispos, que terá lugar em outubro deste ano, voltam os temas polémicos que já trouxeram algum “braço-de-ferro” entre a Cúria conservadora e “medieval” e os defensores de uma Igreja aberta a todos e para todos, sem qualquer excepção (à própria imagem de Cristo), nomeadamente temas sobre o casamento e a família, onde entram a homossexualidade, as uniões de facto e o divórcio/recasados, lembrando que ainda há quatro ou cinco dias o Papa Francisco afirmou que “casos há em que a separação é inevitável e moralmente necessária”. À imagem de Francisco, também a Igreja, concretamente a sua base, o simples e mortal crente, vai dando importantes passos, como foi o caso do referendo na Irlanda (até então tido como um dos bastiões da Igreja conservadora) sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O caminho é longo, contra tantos e tantos obstáculos e fanatismos, mas vai-se fazendo… caminhando passo a passo.

publicado por mparaujo às 21:37

18
Jan 15

publicado na edição de hoje, 18 de janeiro, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos
Limites há… mas escusa de ser ao murro.

Não é um “tropeção”, mesmo que com dificuldade em digerir e em concordar, que me farão recuar na opinião que até agora mantenho do Papa Francisco. A forma como tem lidado com a Cúria e o interior do Vaticano, a forma como tem colocado à discussão alguns tabus e temas polémicos para a Igreja conservadora, a forma como tem lidado com a realidade política e social actual (lembremos as posições sobre a economia, sobre a pobreza, sobre o emprego, ou ainda o seu recente discurso no Parlamento Europeu) à luz de uma clara Doutrina Social da Igreja; serão mais que suficientes para me fazerem ultrapassar as suas mais recentes posições e declarações sobre os últimos acontecimentos em França. Mas também não deixa de ser verdade que as afirmações do Papa Francisco não são tão inocentes como muitos querem fazer crer. Nem mesmo a afirmação que Francisco fez sobre o atentado ao Charlie Hebdo (“matar em nome de Deus é uma aberração"), reforçada pelo sublinhado “"não se pode ofender, fazer guerra e matar em nome da própria religião, ou seja, em nome de Deus”, disfarça o mal-estar que a sequência discursiva tida provocou. A mim, por exemplo, deixou alguma perplexidade. E são duas as expressões do Papa Francisco, e que espero que sejam mais “expressões” que “convicções”, com as quais não posso concordar, nem deixar de criticar. A primeira tem a ver com a afirmação de que a “liberdade de expressão tem limites”. Isso é mais que óbvio e há nas sociedades livres, democráticas, e nos Estados de Direito, mecanismos regulamentares e jurídicos que determinam as respectivas consequências. Mas o que não é aceitável é que seja o Papa (ou o islamismo) a definir esse limite ao determinar que “não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizá-la”. Podemos, Francisco. É um direito que assiste a quem não acredita; a quem também se possa sentir ofendido nas suas convicções pelas posições da Igreja (ou de outra religião); a quem acha que, como ateu (por exemplo), existe uma excessiva ligação entre a Religião e o Estado; e, por último (que não em último) pela liberdade de convicções e de crenças (mesmo na ausência destas). A Igreja deve ser espaço para acolher (quem assim o quiser, livremente), não deve nunca impor-se, nem pode impor as suas regras. E tal como se pode criticar a política, nada deve impedir a crítica à religião. Podemos não concordar, recorrer a mecanismos de regulação e judiciais, mas não podemos silenciar e censurar.
A segunda tem a ver com o facto do Papa Francisco ter usado a expressão “se um amigo meu chamar nomes à minha mãe, leva um murro” para justificar a resposta à “ofensa”. Não vale a pena usarmos falsas demagogias ou retóricas, nem colhe a justificação de um momento “mais descontraído” do Papa com os jornalistas. Porque as palavras têm uma força e um impacto próprios, alheadas às responsabilidades de quem as profere. Um murro não é o mesmo que um acto mortal? Não, não é. Mas a violência não pode ser a resposta, nem a solução, tal como não o é a morte. Se alguém chamasse nomes à minha mãe eu “dava a outra face”? Não, não dava (só por estupidez, claro). Mas esse tipo de comportamentos são, quer do ponto de vista social, quer jurídico, reprováveis, condenáveis e criticáveis. Para mais vindo de alguém com a responsabilidade de difundir uma religião de paz e amor. O que seria das nossas sociedades e comunidades se cada um, em função das suas convicções, dos seus estados de alma, dos seus sentimentos de ofensa, desatasse a fazer justiça pelas próprias mãos, a impor as suas “regras”, certezas e crenças? Com estas afirmações o Papa Francisco justificou, pelo menos (já que condenou o acto em si), a acção/reacção dos extremistas e dos terroristas contra o jornal Charlie Hebdo, justificando todo e qualquer acção mortal ou acto de violência (lembremos o caso de Badawi condenado a 1000 chicotadas por criticar o islão) só porque alguém ofendeu alguém, ofendeu a sua religião, esquecendo que matar não é solução, silenciar a vida não é um direito de ninguém nem de nenhuma crença. Alguém devia ter lembrado Francisco que o que sempre esteve em causa, nos acontecimentos em França, para além da liberdade de imprensa, foi a intolerância, a não aceitação da diferença, da liberdade crítica, limitando estes direitos através da morte ou da violência. O “puseram-se a jeito” não determina a justificação e o fim. Dois milhões de pessoas perceberam isso no fim-de-semana passado, e muitas delas, como eu, nem gostam do jornal.

Nem tudo deve ser corrido ao murro e ao pontapé… nem à “bala”.

publicado por mparaujo às 16:28

14
Jan 15

publicado na edição de hoje, 14 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ontem fomos ‘Charlie’. E hoje?

A resposta ao atentado da semana passada (precisamente há oito dias), em Paris, na redacção do jornal Charlie Hedbo, e que vitimou 12 pessoas, das quais oito eram jornalistas, foi, em França, na Europa e em muitos locais do mundo, massiva e pronta. A resposta através da mensagem e das afirmações públicas “Je suis Charlie” correu televisões, jornais, redes sociais, câmaras fotográficas por todo o mundo. A mediatização dos acontecimentos, a solidariedade e a condenação dos actos tomou, rapidamente, proporções, à partida, não imagináveis. O que foi tido, inicialmente, como um ataque à liberdade de informação rapidamente tomou contornos de um atentado à liberdade de expressão e ao próprio sistema democrático, para mais num país onde em 1789 surgiu a revolução pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto (viva a democracia e a liberdade de expressão) várias foram as vozes que se manifestaram indiferentes e críticas do movimento que se gerou. Alguns questionaram o porquê de só perante o atentado se erguerem vozes a favor da liberdade de informação e de expressão. Sendo um facto que existe, no dia-a-dia da comunicação social, constantes e relevantes atropelos à liberdade de informação, há, no entanto, uma desproporcionalidade dos factos e de contexto perante o assassínio bárbaro dos cartoonistas e jornalistas (sem esquecer, obviamente, as outras quatro vítimas). Nada justifica o silenciamento através da morte. Há em França, tal como cá e noutros pontos do globo, mecanismos próprios (judiciais/jurídicos, reguladores, o próprio direito à ‘contra-crítica’ pública) que permitem combater eventuais excessos à liberdade de expressão e de informação. Seguramente, a morte não é um deles. A crítica, a diferença de convicções e opiniões (e de crenças), a pluralidade, são pilares fundamentais do sistema democrático e de um Estado de Direito. Criticar é um dos fundamentos da liberdade; existem mecanismos próprios quem permitem a defesa de quem se sente ofendido. A morte não é um deles.

Uma parte dos que se manifestaram a favor da liberdade nunca ouviu falar do jornal Charlie Hedbo (nem da sua história); outros, como eu, nem eram adeptos das críticas e caricaturas que proliferaram, durante anos, naquelas páginas. Mas a defesa da liberdade exige transpor barreiras e divergências… exige união e convicção (naturalmente, mesmo com medos e receios). O radicalismo, o fundamentalismo, o extremismo, que produzem actos como estes não podem ficar impunes, nem vencer.

Mas os acontecimentos da semana passada levantam sérios desafios às comunidades, aos países, às instituições internacionais (como a UE), até porque, a par da ‘arma do fanatismo religioso’ há a inquestionável vertente política dos acontecimentos.

A defesa da liberdade e da tolerância, do multiculturalismo, não pode (nem deve) ser pontual e circunstancial. A liberdade e a tolerância, tantas vezes gritadas nestes últimos dias ou lidas na expressão “Je suis Charlie”), não podem cair no outro lado dos extremismos e radicalismos: a xenofobia, o racismo, a islamofobia, a incapacidade de acolher a diferença. Sendo certo que também não basta ao islamismo, ao dito moderado (caso seja correcto falarmos de vários ‘islamismos’), condenar, também e publicamente, os actos e os atentados, porque o facto é que as forças extremistas radicam no seu seio. A posição de ‘Pôncio Pilatos’ em nada favorece o combate a este tipo de terrorismo e em nada favorece a defesa da existência legítima do islamismo. Além disso, para muitos daqueles que se afirmaram como “Charlie” importa desafiar a sê-lo sempre, em qualquer circunstância, seja à sua “porta” ou mais “longe”, seja em que contexto for. Por exemplo, seria interessante constatar se muitos católicos “Je suis Charlie” também o são face às inúmeras caricaturas com que o jornal parisiense “brindou” o Vaticano e a Igreja Católica.

Por outro lado, o poder e as suas instituições (os Estados) devem evitar cair na tentação duma reacção desmedida que possa conduzir à limitação de liberdades, direitos e garantias, sob a capa da (necessária e urgente) Segurança.

Por fim, nós que fomos “Charlie” neste dias, temos o desafio de o ser ontem, hoje e sempre; quando a liberdade e a democracia estão em risco ou são silenciadas; quando se abate friamente alguém que pensa diferente e, por direito, nos critica; e também, quando se raptam e escravizam jovens e adolescentes em África; quando se mata e se desrespeita a dignidade através do abuso sexual na India; quando morrem milhares de pessoas num atentado bombista no Paquistão; quando jornalistas são executados e mortos no exercício das suas funções (só em 2014 foram mais de 40); quando são mortos, às mãos dos fundamentalistas, milhares de pessoas no Iraque; etc., etc.

Sim… “Je suis Charlie”. Ontem e hoje. Pela Liberdade e pelo direito à Vida.

 

publicado por mparaujo às 10:54

02
Fev 14

publicado na edição de hoje, 2 fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

da tolerância e do respeito

Vem a questão a propósito do meu artigo publicado ontem, aqui, sobre o eventual referendo sobre a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Vem a propósito, mas não só. Tenho, pessoalmente, alguma dificuldade em aceitar a tolerância tal como ela é empregue na sociedade de hoje. A tolerância social transmite, normalmente, um sentimento de falsa aceitação de atitudes, comportamentos, convicções, valores, distintos daqueles em que se acredita e nos movemos. Esta incoerência conduz muito rapidamente à indiferença, ao desprezo, à ofensa e, essencialmente, à ausência de respeito. Respeito pelo outro, pelas suas diferenças, pelas suas convicções, e, acima de tudo, respeito pelo garante de iguais direitos, liberdades e garantias.

No caso da co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo (e estamos a falar de co-adopção e não de adopção, ao contrário do que propôs o PSD para o referendo) esta ausência do valor do respeito é demasiadamente preocupante. Sob a capa de uma suposta “fé” (na qual como católico não me revejo e lamento que a Igreja, em relação à mesma, permaneça indiferente, ao jeito de Pilatos) - aliás criticada pelo Papa Francisco quando, por várias vezes, reprovou a obsessão, de determinados sectores da Igreja, pelo aborto ou pela homossexualidade, em vez dos essenciais valores da fé – aquilo que são claros e evidentes direitos e liberdades, primeiro da criança e também dos cidadãos, questões do foro jurídico e do direito, são erradamente interpretados como realidades dogmáticas ou da fé, por sinal, em nada condicentes com a mensagem de Cristo: no respeito, na aceitação da diferença e do outro (com convicções, verdade e valores diferentes). E quando se pensa que o extremar das posições ocorre em quem luta pela igualdade de direitos e liberdades, eis que sectores como a Federação Portuguesa pela Vida ou, ao caso, o movimento Portugal pró Vida. Neste último caso, é inqualificável que um movimento que se diz católico (ou cristão) tenha comportamentos e afirmações públicas como esta: “Eles [defensores da co-adopção] estão cada vez mais agressivos e já ameaçam com Tribunal, inclusivamente quem, dentro da Igreja, os ataque. Se nada for feito em contrário, vamos ter ‘campos de concentração’ para quem for anti-gay, para quem defenda a família fundada num Homem e numa Mulher.” Ou, “Está cientificamente provado de forma categórica que o comportamento homossexual é muito mau para a saúde física e mental.” Ou ainda “Adopção e co-adopção gay, Não! Uma sociedade evoluída não se deve deixar levar por caprichos de franjas minoritárias e desorientadas da sociedade.” Isto é, no mínimo, intolerável, condenável e abominável.

Mas não se pense que é só nesta actual questão da agenda política e social. A ausência do valor do respeito pelos outros, pela convivência social na pluralidade e na diferença de convicções, é igualmente preocupante numa geração da juventude com responsabilidades políticas futuras. São visões extremistas, de uma ideologia bacoca que nem o período do PREC foi tão profícuo. Nas “jotas” centrista e social-democrata (actual) circulam visões da política e da sociedade como estes exemplos. “o país tem que acabar com as bolsas para áreas improdutivas como as humanidades, artes e outras pseudo-ciências que acrescentam zero à nossa sociedade. As faculdades de letras, artes, desporto, psicologia e humanidades, pela sua inutilidade, devem ser encerradas na sua grande maioria e as que fiquem devem ver a sua actividade reduzida ao mínimo, com despedimento da maioria do pessoal. O país não pode formar parasitas improdutivos” (sobre a questão das bolsas e da investigação, no ensino superior). Ou, “Infelizmente, hoje a Igreja está transformada num antro de esquerdistas”, a propósito da entrevista de D. Januário que critica o catolicismo dos actuais governantes. Ou ainda, “A escolaridade obrigatória até ao 12º ano foi mais uma medida estúpida dos governos socráticos que custou milhões de euros aos Contribuintes. 9 anos de escolaridade já chegam e sobram. No futuro devia-se era pensar em recuar novamente para o 6º. É uma vergonha que gente com 15 anos seja proibida de trabalhar em Portugal” a propósito da proposta da juventude popular no Congresso do CDS, no passado mês de janeiro (o tal “congresso dos leitões”). Por fim, bem no oposto do sentimento generalizado na sociedade e até, na própria Igreja, resta o exemplo do que é o respeito pelo valor do trabalho, pela defesa dos mais desprotegidos e dos mais sacrificados: (a propósito de uma entrevista de Sá Carneiro, ao “O Jornal”, em 6-2-1976) “Ainda bem que o PSD se livrou desta mentalidadezeca e trocou esta social-democracia de treta pelo liberalismo! Felizmente, o PSD percebeu que o poder político depende, e dependerá sempre, do sector económico”. Tudo isto culminado com uma intervenção de um deputado do PSD (Carlos Peixoto) que afirmou, recentemente na Assembleia da República, que “a diminuição da natalidade se deve, em parte, à emancipação da mulher”.

Portugal assiste, mais do que a uma crise financeira, a uma, clara, crise de valores.

O país precisa urgentemente de uma “tolerância zero” à ausência do valor do respeito pelo outro.

publicado por mparaujo às 13:53

23
Jan 14
http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2012/12/%C3%ADndia1.jpg

Venham os argumentos culturais, históricos, sociais, religiosos…

Venha a complexidade do ser humano, o machismo, o feminismo…

Venham os horrores da guerra, das contestações sociais violentas, das repressões policiais…

Venham as tragédias da natureza, o “azar” dos acidentes, os desaparecimentos, os raptos…

Venha tudo...

Por mais que queiram, nada me conseguirá vergar perante aquele que é o maior crime de todos: o desprezo pela dignidade humana.

Com uma referência rápida, num espaço de pouco mais de um ano, é de “arrepiar” o que se passa na Índia em pleno século XXI.

Tudo começou(?) aqui: “Violação de rapariga gera violentos protestos na Índia” (23.12.2012)

Morre estudante indiana vítima de violação coletiva” (28.12.2012)

Novo caso de violação colectiva na Índia” (13.01.2013)

Polícia e médicos "humilham" crianças indianas que denunciam abusos” (07.02.2013)

Turista suíça violada na Índia diante do marido” (17.03.2013)

Detidos dois suspeitos de violar menina de cinco anos na Índia” (22.04.2013)

Freira raptada e violada durante uma semana na Índia” (16.07.2013)

Novo caso de violação colectiva na Índia. Vítima é fotojornalista” (24.08.2013)

Cinco polícias detidos na Índia por violação de jovem de 17 anos” (20.12.2013)

Turista dinamarquesa violada por oito homens na Índia” (15.01.2014)

Mas se tudo isto não fosse suficiente eis que se chegou ao topo da revolta.

Conselho de aldeia indiana ordena violação colectiva de uma mulher” (23.01.2014).

Por mais que os responsáveis indianos tentem alterar o rumo dos acontecimentos (“Índia aprova lei mais dura contra violações”) tudo parece ser insuficiente. Mesmo para uma ONU, tantas vezes preocupada com a democracia de algumas nações, com as supostas aramas químicas ou de destruição maciça, com o negócio do petróleo e com os jogos geopolíticos, só isto não chega e sabe a muito pouco, muito mesmo: “ONU quer debate sobre penas após violação na Índia”.

Tudo isto é Nojento! Asqueroso! Revoltante! Infame!

Enquanto que por cá vamos discutindo o protocolo da saia da assessora do Presidente da República.

publicado por mparaujo às 16:42

15
Out 13

Publicado na edição de hoje, 15 de outubro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Último monólogo

Na fé e na vida, D. António Marcelino, por razões diversas, foi marcando uma considerável parte do meu percurso de vida. Sucedendo a D. Manuel de Almeida Trindade (de quem resta apenas a imagem de infância), D. António Marcelino foi Bispo a quando da minha passagem pelo seminário, pelo grupo de jovens da Sé, pelos cinco anos no Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, pelos três anos no Movimento Católico de Estudantes. Mas também pela relação familiar e pela presença constante, até bem tarde, no dia-a-dia (por mais espaço que fosse no tempo). A verdade é que D. António Marcelino, mesmo sem me aperceber, esteve sempre presente.

Sem qualquer demérito ou desconsideração por D. Manuel Almeida Trindade ou por D. António Francisco, a verdade é que, pelas razões referidas, pela marca que deixou, pela referência que foi, D. António Marcelino foi (é) o “meu” Bispo. Como, por diversas vezes, pública, a minha ligação com o bispo emérito foi sempre muito forte, com inegável estima, respeito e consideração. Nos bons e maus momentos, nos altos e baixos da vida.

Nem sempre estivemos de acordo, como por exemplo, em relação à “visão” da Igreja no que respeita à vida ou à família, em relação a Bento XVI. Mas, felizmente, foram mais os momentos e as visões comuns: ao papel, ainda por concluir, do Concílio Vaticano II; o mesmo sentimento em relação à missão da Igreja, à sua doutrina social e ao seu papel evangelizador; à sua intervenção política no mundo e nas instituições; à felicidade pela eleição do Papa Francisco. Mas também, sempre olhámos para o mesmo horizonte em relação ao peso da Cúria, à complexidade e meandros da estrutura da Igreja; à rigidez e inflexibilidade do direito canónico (ou da sua aplicação prática), embora aqui reconheça-se uma feliz alteração de convicções após o seu pedido de resignação episcopal. Muitas destas realidades foram publicamente partilhadas (sei que lidas) nos “Monólogos com o meu Bispo – na fé e na vida”.

Muito haveria ainda por partilharmos, mas, acima de tudo, muito (demasiado) ficou por aprender e apreender com a vivência, o crer e o saber do “meu” Bispo. Fica o sentimento do desapontamento do “monólogo” não escrito (seria o décimo segundo) em relação ao seu último texto publicado (18 de setembro), claramente em jeito de despedida, de quem sente o aproximar do juízo final e de partir, de um verdadeiro testemunho pessoal e de/da Fé (“Este amor chama-se Diocese de Aveiro – Ler a realidade social e a própria vida”). Foi neste princípio, nesta concepção da realidade social e da vida, que foi cimentada a minha relação afectiva com D. António Marcelino.

Agora partiu. Os elogios públicos são imensos e mais que merecidos, proferidos por quem “de direito”. Seria de todo abusivo da minha parte estar a sobrepor-me aos mesmos.

Pessoalmente, a Igreja (não apenas a de Aveiro) ficou mais pobre e o céu mais rico. Ninguém é insubstituível mas há, de entre todos, quem nos faça mais falta, por quem a memória e a recordação não terão sossego.

D. António Marcelino tinha como lema na sua nomeação episcopal: “Darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pela vossa salvação”. A verdade é que, de facto, deu durante uma vida inteira, concretamente a Diocese de Aveiro e os aveirenses que com ele privaram são disso testemunho. Mas também é verdade que D. António Marcelino recebeu muito da Igreja que “pastorou” e com isso foi igualmente enriquecendo a sua vida.

Para mim, de modo muito pessoal, fica a imagem do “meu” Bispo em cada gesto seu, palavra ou silêncio, espelhados na sua expressão: “a vida também se lê”… já que a morte apenas deixa saudades e vazio. E na “minha casa” morará sempre o meu Bispo.

publicado por mparaujo às 09:34

26
Jun 13

Publicado na edição de hoje, 26 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

As datas míticas.

1. Onde estamos? Para onde vamos?

Estas são duas questões fundamentais que qualquer consciente cidadão coloca diariamente e que deveria inquietar o actual Governo. No dia 21 de junho o Executivo de Pedro Passos Coelho cumpriu os primeiros dois anos de mandato (metade da legislatura). Os mesmo dois anos que marcam o resgate internacional de Portugal, sob “alçada” da Troika União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional. Ao fim destes dois anos onde está Portugal? Continua resgatado, em austeridade extrema, sem capacidade de crescimento económico, com derrapagens sucessivas do défice e necessidade anual constante de revisão das metas orçamentais. O próprio Governo prevê a eventualidade de revisão do défice para 2014 e o ECOFIN, no final da semana passada, decidiu dar mais um ano a Portugal (até 2105) para a correcção do défice excessivo (5,5% em 2013, 4% em 2014 e 2,5% em 2015). Dívida pública a caminho dos 130% do PIB, desemprego muito próximo dos 18% no mês passado (números do Eurostat e OCDE), os sacrifícios pedidos aos portugueses (carga fiscal, cortes salariais e nas reformas, impostos e taxas extraordinárias, menor subsidiação social por exemplo menos deduções fiscais, diminuição do poder de compra, aumento do custo de vida, alterações da lei laboral, …) e às empresas (aumento do IVA, carga fiscal elevada como o IRC, …) não têm abrandado mas, mais do que isso, não têm tido contrapartidas práticas no equilíbrio das contas públicas nacionais.

Face à realidade que os portugueses vivem, o Governo aproveitou a data para promover uma agenda política centrada no pós-Troika (mesmo que o actual-Troika ainda esteja longe de estar resolvido), nomeadamente com a apresentação a 15 de julho do projecto de Reforma do Estado, elaborado pelo ministro de estado, Paulo Portas. E essa é a dúvida: que reforma? Que Estado? Que futuro? Pelo traçado neste dois últimos anos, nada de bom se esperará.

2. 100 dias

A marca no calendário dos “100 dias” é uma marca mítica que regista pouco mais de três meses de acção, por exemplo, de um Governo. Mas também significa, desde março deste ano uma nova era na Igreja Católica com os 100 primeiros dias do pontificado do Papa Francisco. Não se esperaria que um Papa que veio “do fim do mundo”, como fez questão de mencionar, arredado de todo o jogo de poderes da Cúria, ao fim de 100 dias tivesse revolucionado o Vaticano. Mas aquele jesuíta, com espírito franciscano, que tinha sido muito votado e renunciado ao pontificado no conclave que elegeu Bento XVI, teve, para já, um indiscutível mérito: revolucionou a Igreja. Uma Igreja que o Papa Francisco quer menos institucional, menos clerical, menos “curiana” (daí as pequenas mas importantes perspectivas de reformas internas que forma já providenciadas). Uma Igreja mais evangelizadora, mais próxima dos crentes e mais aberta aos não crentes, mais perto e preocupada com os que mais precisam, muito mais inclusiva e menos “castradora”. Mesmo que a muitos (clericais ou leigos) esta perspectiva de uma mudança histórica na Igreja (que vá, definitivamente, ao encontro do Concílio Vaticano II e da imagem da Igreja do carismático Papa João XXIII) custe a saída da zona de conforto, dos meandros do “carreirismo”, dos movimentos cinzentos da Cúria e da própria Igreja.

Daí que o Papa Francisco (que os mais cépticos esperariam a queda do “pedestal”) tenha surgido, aos olhos de muitos crentes e de uma grande parte da estrutura da Igreja, com um carisma totalmente fora do habitual: um Papa muito próximo das pessoas, dos que precisam, com palavras e gestos simples mas que marcam, que distinguem, que tocam. Um Papa com um testemunho de vida muito forte e relevante. Um Papa que irá, com toda a certeza, renovar a Igreja e que marcará uma era no catolocismo pós João XIII mais determinante que a dos seus sucessores (Paulo VI, João Paulo I, mesmo João Paulo II, Bento XVI). Finalmente, após junho de 1963 “Habemus (sem qualquer margem de dúvida) Papam”.

publicado por mparaujo às 10:59

11
Set 10
11 de Setembro de 2001.
A América e o Mundo acordavam num pesadelo com os atentados no WorldTraceCenter, no Pentágono e a queda do terceiro avião na Pensilvânia.
Tudo poderia ter ficado circunscrito ao pesadelo do povo americano que nunca pensou sofrer tal ataque, no seu próprio território. Mas não... o Mundo não foi o mesmo depois de 11 de Setembro de 2010 (seja qual for a posição de cada um).
Entre promessas de queima de livros sagrados, bandeiras rasgadas e queimadas, apedrejamentos, ataques suicidas, ..., o 11/09 foi e ainda é uma "guerra religiosa e política".
Foi e é uma "guerra" entre o Islão e o Cristianismo. Foi e é uma "guerra" política entre o Oriente e o Ocidente.

Hoje em dia, o 11/09 é também motivo de divisão nos Estados Unidos: entre os que defendem ou criticam a construção de uma mesquita no "Ground Zero".
O que, por si só, confirma o que referi: uma questão político-religiosa.

E o problema pós-11/09 já não é (só) a segurança, dominados e dominadores, democratização (??) de estados... o problema que agora persiste tem maior relevância: chama-se tolerância e direito à diferença.
publicado por mparaujo às 18:32

01
Abr 10
Publicado na edição de hoje, 1 de Abril, do Diário de Aveiro.

Cheira a Maresia!
Renovar! Ressuscitar!

Não é fácil abordar, de forma racional, um tema como o da pedofilia.
Primeiro como pai, depois como ser humano e por fim por não conseguir entender as razões de tal acto e os verdadeiros e reais impactos nas vítimas.
Como católico acrescem as dificuldades e tornam-se, verdadeiramente, incompreensíveis todos estes escândalos que, por mais que seja tentado clarificar, abalam a Igreja transformando esta triste e complexa realidade na mais grave crise de que a memória regista no último século.
E não basta “assobiar para o lado” esperando que a indiferença e o tempo apaguem os factos. O tempo não apagou durante largos anos até aos dias de hoje… apenas escondeu.
Não basta “esconder a cabeça na areia” porque não se tratam de casos esporádicos, nem passados… são realidade grave, preocupante e actual.
Não basta reagir pela negativa e “à defesa” (ou contrapondo com a imagem de vitimização) … o problema não é externo (ou não só externo), está patente e latente no seio da própria Igreja.
E muito menos basta pedir “perdão”, criticar, acusar… é preciso ser-se exemplo: condenar e solucionar!
Aliás, parece-me subsistir neste ponto a explicação para esta crise. Faz lembrar uma garrafa de espumante que, após forte agitação, é retirada a rolha: a pressão e o gás fazem o resto. A pressão, o abafar, o não actuar com coerência, vigor e clareza fez soltar a rolha ao primeiro caso despontado.
E é urgente que a Igreja reflicta, actue e se renove… porque, apesar de muitos os casos (Irlanda, América, América Central, Alemanha) a parte não pode afectar e representar o todo. Mas também não pode servir de desculpa para uma inércia inaceitável, principalmente o questionável argumento de que a pedofilia é transversal a toda a sociedade (famílias, instituições, etc.). Porque é precisamente por essa transversalidade que importa servir de exemplo, ser coerente, agir internamente, enfrentar com vigor e rigor para permitir a legitimidade de acusar e criticar todos os abusos cruéis na sociedade.
A inércia no combate destas realidades que enfraquecem uma Igreja que também é feita de Homens, só serviu para acumular factualidades e debilidades. O medo da abertura à sociedade e à opinião pública é que foi esvaziando a Igreja e afastando os crentes da sua vivência necessária.
Não se trata de “lavar roupa suja em público”, como referem várias vozes episcopais. Trata-se de resolver uma grave crise de forma clara, transparente e exemplar. Em vez de se criarem anti-corpos, promoverem-se sinais de unidade edificantes.
É importante agir e repensar o actual distanciamento que a Igreja vive em relação à sociedade e aos “tempos de hoje” que em nada favorece a consolidação e o crescimento da própria Igreja. Seja através do debate em torno do celibato imposto ou voluntário, do papel das mulheres na sua estrutura, da importância dos leigos, da relação com a política, com a educação, com a família e com a sexualidade, entre outros.
Pedir perdão sem mudar e sem agir, nem serve de consolo às crianças e vítimas de tão abomináveis crimes, ao longo de tempos e tempos.
Poderá nascer, destas cinzas, uma excelente oportunidade para que a Igreja se repense, se renove e ressuscite… tal como acontecerá Domingo para aqueles que celebram a Páscoa da Ressurreição de Cristo.
publicado por mparaujo às 14:41

29
Mar 10
Não podia deixar de fazer referência a este excelente texto do António Marujo.
A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos.

(fonte: edição do Público do dia 27 de Março de 2010 - sábado)
Lido e relido...
publicado por mparaujo às 22:54

10
Abr 09

publicado por mparaujo às 14:39

14
Jan 09
Continuação da "lição anterior": "Guerrear ou como Atear o Fogo e depois chamar os Bombeiros"
Recordando: As palavra são fortes armas e há que saber usá-las. Para iniciar um conflito, é muito simples, basta "atacar" ou "falar" sem reflectir nos impactos das palavras.
Continuando com as recentes afirmações do responsável máximo da Igreja Católica em Portugal: "Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil, (disse D. José Policarpo durante a tertúlia na Figueira da Foz). Mas é muito difícil porque eles não admitem sequer [encarar a crítica de que pensam] que a verdade deles é única e é toda, (sustentou)". (fonte: Sol on-line).
Ora bem, Senhor Patriarca. Gostaria eu de saber qual a religião (já nem falo em seitas) que admite não ter a verdade, e mesmo a verdade absoluta.
É que se a Igreja Católica entende que não é a detentora da verdade, então acho que vou ter de ter uma conversinha com o meu paizinho e a minha mãezinha porque fui enganado durante 42 anos. A verdade afinal está nos outros...
publicado por mparaujo às 18:37

Se alguém pensa que começar um conflito (como o Israel-Palestino) tem necessariamente de passar por bombardeamentos, invasões (tipo Iraque) ou atentados, engana-se.
As palavra são fortes armas e há que saber usá-las.
Para iniciar um conflito, é muito simples, basta "atacar" ou "falar" sem reflectir nos impactos das palavras.
Como é o caso das recentes declarações do Cardeal Patriarca: "Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam." (fonte: diário iol)
Acho que o próprio Cardeal também não imagina onde acabarão as suas palavras.
publicado por mparaujo às 18:26

28
Out 08
Num dos últimos programas do Gato Fedorento, foi satirizado o tema Magalhães e as formações a que foram sujeitos vários professores, através do recurso a rituais católicos.
Como já se esperaria, deu "bronca". O mesmo significa um coro de protestos junto da ERCS - Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
É indiscutível onde levam os fundamentalismos e o radicalismo. Não saber saber distinguir o humor, a fantasia e a comicidade da realidade, da ofensa e do desrespeito, é preocupante e lamentável.
Curiosamente, não vi, eventualmente o mesmo grupo de católicos fervorosos, a protestarem contra os dinamarqueses pelas ofensas os credos e aos princípios e valores da sua religião, no caso das caricaturas de Maomé.
Dois pesos... duas medias, conforme sopra o vento.
Felizmente, como católico, ainda me dá muito gozo, saber rir.
Gostava de os ver preocupados com o essencial e não o supérfluo.
publicado por mparaujo às 23:33
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15
Out 07
Fim-de-semana rico em acontecimentos e leituras neste "meio" Outubro, com réstia de sabor a Verão.
1. Entrega do Orçamento do Estado para 2008. Relegado para segundo plano (ou mesmo terceiro ou quarto planos), o Orçamento do Estado prevê a fixação do deficit nos 3%, revendo em baixa o crescimento económico (2,2%), mantendo-se a centralização da polémica no binómio investimento - despesa pública. Por outro lado, mantém-se as taxas de tributação altas (IRS, etc).
Ou seja, como em todos os anos e ciclicamente, mais do mesmo.

2. A selecção nacional, com uma exibição descolorida, lá consegui ser eficaz e conquistar 3 pontos já há algum tempo perseguidos. Mais uma vez, beneficiando igualmente do azar de terceiros (como por exemplo, a Finlândia). Quarta-feira há mais.

3. Fátima tem novo espaço de culto e de celebração católica. Podemos entrar nos argumentos arquitectónicos e estéticos; podemos questionar a exuberância e apogeu do espaço; podemos questionar a consistência e coerência dos seus custos. Mas é certo que foi a vontade dos crentes, peregrinos e da própria Igreja que, com fundos próprios, ergueu este novo espaço. Curiosamente, com mais tempo de antena na televisão do que o Congresso Social Democrata.

4. Congresso PSD. No reino “laranja” nada de novo. Inclusive algumas decepções (não que me afectem, mas poder-se-ia esperara mais).
Luis Filipe Menezes já estava eleito. Elegeu apenas 1/3 dos lugares no Conselho Nacional. Alguns apoiantes de Marques Mendes mantiveram-se na estrutura partidária (ex. Zita Seabra), o que significa que a transformação não foi total.
No seu discurso final, Menezes, ao falar para fora do partido e assumindo-se como alternativa ao PS, foi novamente decepcionante.
Sobre o sector económico ouviu-se muito pouco e foi muito vago quanto ao crescimento, desenvolvimento e impostos. Sem alternativas à política do actual governo.
Falou de uma nova constituição, como se esta temática fosse relevante para a maioria dos portugueses. Sobre Ambiente, Agricultura, Justiça e Europa… nada.
Muito pouco acutilante no que respeita à Educação e Saúde. Poderia estar aqui o seu campo de batalha (é onde o governo socialista tem vacilado mais).
Mas onde se esperaria que Menezes fosse verdadeiramente relevante e incisivo era na questão do poder local e na regionalização. E aqui residiu a maior decepção. Mesmo com a perspectiva de o PSD calendarizar o processo da regionalização, afirmar-se que esta questão não é prioritária, foi o mesmo que dizer que o assunto morrerá numa qualquer gaveta.

5. Como não sou social-democrata (nem tão pouco mais ou menos), a minha preocupação deste fim-de-semana, foi para a segunda parte da entrevista da Dra. Catalina Pestana. Não pelo mediatismo da temática, mas pelo conteúdo e mensagem que a ex-Provedora (mesmo correndo o risco dos “telhados de vidro”) proferiu relacionado com o processo. Muito mau para um país que se diz evoluído, que se diz um estado de direito, que proclama a separação da Justiça e da Política, que não sabe, nem quer defender o seu futuro (as suas crianças). É muito, mas mesmo muito triste.

Boa semana
publicado por mparaujo às 07:58

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