Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

22
Set 14

Longe vai o tempo das paisagens com os montes brancos de sal a seguir ao Canal de S.Roque ou na marginal em direcção à Gafanha da Nazaré. Não é uma questão de saudosismo, é a constatação de uma realidade.

O chamado "progresso" urbano, a vertente ambiental, as alterações na Ria de Aveiro, razões económicas e sociais, ditaram o abandono da quase totalidade das salinas/marinhas em Aveiro.

Por isso, longe também vão os tempos de um dos grandes pólos económicos e de desenvolvimento da cidade e da região: o Sal.

Há, no entanto, quem ainda resista aos novos tempos e aos novos mercados. Poucos, mas ainda os há e que vão resistindo mesmo nas adversidades.

É o que relata o jornalista Rui Tukayana, da TSF, neste trabalho sobre a produção de sal neste ano de 2014: muita qualidade mas pouca quantidade devido a um verão perfeitamente atípico.

"Pouco sal nas salinas", uma reportagem de Rui Tukayana.

Faz falta em Aveiro um museu permanente (para além do ecomuseu da Troncalhada) da história social, cultural e económica do Sal. Tal como faz falta um museu permanente da história social, cultural e económica do Azulejo, do Barro e da Cerâmica.

Não por saudosismo mas pela preservação da identidade e história aveirenses, projectando-se assim novos futuros.

publicado por mparaujo às 11:41

28
Jul 13

Publicado na edição de hoje, 28 de julho, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Património e Identidade.

O que melhor determina a consciência de sentido de comunidade é a sua identidade. O que melhor consolida essa identidade é a sua história (o seu passado que determina um presente e projecta um futuro), a sua cultura (a sua realidade social, as suas vivências culturais) e o seu património. Património este que projecta a história e a cultura que determinam a identidade de uma comunidade. Património este que se sustenta nos recursos naturais, no edificado e nas vivências culturais e sociais. E que património é este que estabelece a identidade aveirense?

A sua história assente em mais de um milénio de existência (segundo reza o documento testamentário de 959 de Mumadona Dias), os mais de 250 anos como cidade, a presença de Santa Joana Princesa (filha do Rei D. Afonso V), a perda e a recuperação da Diocese, as lutas entre os liberais constitucionalistas e os absolutistas, terra dos grandes parlamentares como José Estêvão. Da sua identidade social poder-se-á destacar a economia (infelizmente com reflexos numa evidente queda industrial, salvo raras excepções) assente na cerâmica e da azulejaria, na abertura da barra, na centralidade das acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, no desenvolvimento crescente do seu pólo universitário, na pesca, mas igualmente na escolha como referência de “terra das liberdades” com a realização dos três Congressos da Oposição Democrática. Como referência cultural importa relevar a sua cultura popular (as várias festas que se realizam na cidade e no concelho), o papel dos marnotos e das salineiras, a importância da Arte Nova ou o seu património religioso. Por outro lado, lamenta-se a perda física da muralha ou do aqueduto do Côjo. Mas há ainda a resistência dos bairros mais típicos como o da beira-mar, do Alboi, da Misericórdia, da zona de Sá. Entretanto, novas ‘culturas’ foram marcando uma nova identidade em Aveiro: a tecnologia potenciada pela universidade, as BUGA, a manutenção dos moliceiros como turismo.

No entanto há uma realidade patrimonial que Aveiro teima em querer deixar “morrer”: o salgado aveirense. O sal foi, durante séculos, um produto e uma realidade social e cultural de enorme importância para o desenvolvimento económico e turístico de Aveiro. Quer na sua produção, quer na influência que exerceu em áreas paralelas como a salga do bacalhau e as indústrias químicas. No século XVI, com a expansão do comércio marítimo, ao mesmo tempo que Lisboa se convertia num dos mais importantes portos mundiais, Aveiro tornava-se, por força dos carregamentos de sal para os navios, um dos mais importantes portos nacionais e uma região de referência. Mesmo que dois séculos depois, por questões ambientais, a actividade da salinicultura e comercial de Aveiro tivesse ficado em risco, o esforço de todos os aveirenses pela necessidade da abertura da barra devolveu a expansão da região, da qual a explosão demográfica da altura é um exemplo claro dessa realidade. No entanto, volvidas as últimas duas décadas, Aveiro assistiu, passivamente, a um abandono da actividade e preservação das salinas. Factores económicos, ambientais, sociais, políticos contribuíram para o estado actual da perda desta nossa importante identidade regional e patrimonial. A paisagem natural desapareceu, os “montes” brancos rarearam, as salinas ficaram abandonadas, desprotegidas e degradadas, o peso económico do sal na região deixou de ter relevância e de ter sustentabilidade. As mais recentes gerações olham para o sal sem terem com ele qualquer sentimento de identidade regional.

Para além do Sal e das Marinhas há igualmente o abandono de outro aspecto patrimonial ligado ao salgado: os palheiros de sal no Canal de S. Roque. Exemplo claro da falta de preservação da história e da cultura aveirenses. Nem um exemplo para educação e pedagogia (centro documental) que poderia estar ligado à Marinha da Troncalhada e ao anunciado Centro Documental do Salgado, por exemplo, e não a sua especulação imobiliária ou a mera transformação em espaços comerciais e de lazer (bares).

Aveiro transforma-se mas perde uma realidade histórica e cultural importante que determinou, durante séculos a sua identidade.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 22:18

29
Ago 12

Publicado na edição de hoje, 29 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

O valor da identidade…

Não está em discussão o valor da cultura. Esse é, e será sempre, uma questão cheia de controvérsia e cheia de lugares comuns: a cultura não gera receitas; a cultura só traz encargos (e muitas vezes elevados); é pouco perceptível e quantificável o retorno do investimento cultural e da produção cultural; a cultura não coloca “pão” na mesa em tempos de crise; etc.; etc.; etc. E há ainda quem acrescente a dúvida sobre o que é cultura, a quem se destina, a sua qualidade, … Não caberia neste espaço tamanha dimensão opinativa.

Falo de um outro valor: a identidade cultural e social de uma comunidade, de um povo, reforçando a interrogação: que preço, quanto vale, uma identidade cultural, histórica e social de uma comunidade? A pergunta surge após várias notícias que dão conta do estado de degradação e da venda de palheiros de sal no Canal de S. Roque, bem como a venda da histórica e antiga fábrica de higienização do sal – Vitasal.

Aveiro já tem enormes e conhecidas dificuldades em preservar e promover um dos patrimónios naturais mais valiosos: a Ria e toda a zona lagunar (incluindo a região concelhia do Baixo Vouga). Navegar nos canais exteriores da ria é uma aventura e uma desilusão provocado pelo estão de degradação das margens e das salinas, ao ponto de haver quem defenda, como referiu há dias o Dr. Domingos Maia, a urgência de uma campanha “limpar a Ria”, tal é a dimensão do atentado ambiental que se verifica. Isto, para não falar do estado de limpeza dos canais urbanos, nomeadamente o central. Além disso, por diversas e inúmeras razões, umas por intervenção humana, outras por factores naturais, Aveiro perdeu uma das suas imagens de marca, uma das suas referências históricas: as salinas e o salgado aveirense. A custo, a Universidade de Aveiro mantém uma marinha para investigação, a Câmara Municipal mantém uma marinha (a Marinha da Troncalhada) como ecomuseu, e restam duas ou três em exploração particular. O sal deixou de ser sustentável e o preço da tal preservação da identidade de uma comunidade afigura-se demasiado alto, apesar do seu valor histórico e social.

Tal como a azujelaria, a cerâmica e o barro.

Aproximam-se dias em que Aveiro muito pouco ou nada terá para mostrar do que é a sua verdadeira identidade, mesmo que se qualifiquem os palheiros como imóveis de interesse público (desde 2003). A verdade é que não há capacidade de investir na identidade aveirense. E o discurso futuro a bordo dos moliceiros nos passeios (entenda-se, corridas) nos canais urbanos será algo: “aqui resta imaginar a existência de uns armazéns em madeira onde se recolhia o sal e que diziam chamar-se palheiros e uma antiga fábrica. Agora temos lindas casas e um colossal prédio”. Mudam-se os tempos… muda-se e afunda-se Aveiro, numa responsabilidade colectiva. Sim… de todos!

Por último, regressando à premissa inicial, a cultura tem de facto um preço que ninguém, nem nada, pode pagar. O preço de vermos desaparecer alguém que é uma marca indiscutível, uma imagem inquestionável do barro, da cerâmica, da escultura, do azulejo, da cultura aveirense, é impagável.

O artista José Augusto, mais conhecido por Zé Augusto, faleceu esta segunda-feira. Sendo certo que o seu legado patrimonial e artístico permanecerá, assim se espera, na identidade cultural aveirense (porque todo ele ligado a uma das referências patrimoniais do concelho: o barro, o azulejo e a cerâmica), também não deixa de ser verdade que, independentemente da razão natural da vida, Aveiro fica muito mais vazia, insubstituivelmente vazia, porque “partiu” uma das expressões vivas da identidade artística aveirense, com referências directas e intrínsecas ao valor patrimonial da identidade histórica, cultural e social da região: o sal, a ria, o barro, a cerâmica e o azulejo.

Aveiro só tem uma palavra: Obrigado, Zé Augusto.

Ao menos que se preserve na memória colectiva os verdadeiros “palheiros culturais” da vida e da história de Aveiro.

publicado por mparaujo às 10:16

22
Ago 10
Sabor a Sal...

O Sal e as Salinas, para além de terem sido, durante anos a fio, a imagem marcante da paisagem de Aveiro (a par com os Moliceiros), foram também os responsáveis pelo desenvolvimento social e económico da região desde os séculos mais idos, onde o sal tinha um papel relevante na navegação e na pesca.
Por exemplo, as naus dos tempos dos descobrimentos, sempre que se faziam à conquista de novas paragens, abasteciam-se de sal para a conservação dos seus alimentos.
Antes da invenção das arcas frigoríficos nos barcos de pesca, nomeadamente do bacalhau, era o sal que permitia conservar o pescado e salgá-lo ainda a bordo.
Hoje, infelizmente, o Sal e as Salinas não passam de uma referência histórica e cultural para Aveiro. Pasme-se... importamos sal (por exemplo da Holanda).



publicado por mparaujo às 18:53

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