Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

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Dez 13

Publicado na edição de hoje, 11.12.13, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Há tributos e tributos…

Morreu Nelson Mandela. Não me vou alongar em relação a esta enorme perda de uma dos maiores vultos da história do sec.XX. Era para o ter feito no domingo, mas por força de toda a discussão surgida no “Debaixo dos Arcos” (e afins) pareceu-me repetitiva e desnecessária. É óbvio que morreu um “santo”. Sim, deixemo-nos de preconceitos e constrangimentos (mesmo os da fé). Um santo… porque, por mais que percorra o tempo e a história, não há memória de algum santo que não tenha cometido erros, não tenha “pecado”, não tenha “mudado” de vida. E mais, poucos foram aqueles (os santos) que tiveram tão imensa dignidade e dimensão humanas em saber perdoar, como o fez Nelson Mandela. E daqui, de facto, resultou todo o peso político, social e humano de Madiba. Esta perspectiva surge porque ontem, no mítico Estádio do Soweto, onde Nelson Mandela fez a sua última aparição pública, em 2010, quando a África do Sul recebeu o Campeonato Mundial de Futebol, foi realizado o Tributo de Despedida a Nelson Mandela. Cerca de 70 países representados, 95 mil pessoas presentes e milhares e milhares de espectadores no país e no mundo. Portugal também esteve presente, representado por Cavaco Silva. Não vou, porque a polémica já foi demasiadamente esplanada, comentar os votos “sim” e “não” da resolução da Nações Unidas, em 1987.

Mas, com as devidas desculpas e as devidas proporções e contextualizações, é sobre tributos que importa reflectir neste texto. Infelizmente, mesmo que de forma inequivocamente merecida, só os grandes vultos (e normalmente após morte) é que são merecedores de tal respeito. Os comuns dos mortais, os anónimos (mesmo que com rosto e alma), aqueles que, em muitos casos, deram a sua vida (física) pelo bem comum, a vida e a sociedade tornam-se “madrastas”. E Portugal é “perito” nesta triste realidade. Este ano, que agora termina, faleceram oito bombeiros no combate aos incêndios que, ano após ano, flagelam o país. Foram mulheres e homens que de forma desprendida, voluntária e com um inquestionável serviço de defesa do bem comum, perderam tudo, deixaram tudo, para que “tudo” dos outros (cidadão, comunidades e país) fosse salvo. Nem sempre o conseguiram. Oito foram sempre e um dia não voltaram. Tributo maior mereceriam, no mínimo, dos mínimos mesmo, o respeito pelo Estado e pela sociedade. Para além das modestas (também elas envoltas em polémica com a Presidência da República) e inevitáveis condolências às famílias e corporações, nada mais foi feito. Ou melhor… mais valia nada mais ter sido feito porque o que se avizinha é, também no mínimo dos mínimos, revoltante e chocante. Precisamente “nos dias” do anúncio da morte de Nelson Mandela, são conhecidas informações preliminares de um relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna sobre os falecimentos de bombeiros no combate aos incêndios deste ano. Os primeiros resultados orientam a conclusão para negligência, violação de regras de segurança, erros de estratégia de combate.

Claro que sim… o país, o Estado, as entidades e comunidades locais, os proprietários dos terrenos, sacodem a responsabilidade e a irresponsabilidade. Os “incompetentes” dos bombeiros, mesmo com a formação que têm, mesmo com a experiência de muitos, mesmo com a estruturas de comando distritais operacionais a gerir os cenários de “guerra ao fogo”, é que gostam de colocar a vida em risco, deixar de viver e deixarem as suas famílias com um lugar vazio em casa. Mais valia terem deixado arder. Aí seriam os “maus da fita” mas ao menos viveriam.

A falta de políticas de ordenamento florestal, a ausência de estratégia governativa para a prevenção e o combate aos incêndios, a inexistência de fiscalização e punição a quem não cumpre a lei, a “suavidade judicial” para com aqueles que destroem o bem comum e privado, é, afinal, o triste e repugnante tributo que é prestado por este, cada vez mais, triste país em que vivemos. Pessoalmente, nem por sombras me comparando, mas tomando o exemplo de Nelson Mandela, resta-me, como cidadão, pedir perdão aos Bombeiros (todos) por esta indescritível falta de respeito que o país tem para com os “soldados da paz”.

publicado por mparaujo às 09:22

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