Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

15
Abr 18

PEC.jpg

O Orçamento de Estado para este ano de 2018 previa um défice na ordem dos 1,1%.

Mário Centeno, não querendo defraudar as expectativas geradas em torno das suas aptidões financeiras que o levaram até à liderança do Eurogrupo, convenceu PS e Governo (e pelos vistos também Rui Rio) a reverem, em baixa, o valor do défice orçamental de 2018.

Na apresentação do Programa de Estabilidade e Crescimento 2018-2022, o ministro das Finanças fixava o valor do défice em 0,7% (significativamente menos 0,4% do valor inicialmente previsto).

Há quem entenda que o valor comporta riscos para a economia e para as finanças nacionais; há quem ache que o valor é importante para a consolidação das contas públicas; há quem questione os meios para atingir este fim (cativações, impostos indirectos, carga fiscal elevada, etc.).

E há, igualmente, quem tenha ficado "gelado" com as declarações de Mário Centeno: BE e PCP reagiram e vieram a terreiro tecer algumas críticas e deixar hipócritas avisos. Já o PS gelou e regelou em silêncio.

Mais do que concepções técnicas financeiras ou engenharias orçamentais, a apresentação do Programa de Estabilidade trouxe a público uma surpreendente posição política do Governo: a crítica explícita à governação de José Sócrates e um reconhecimento ao PSD pela gestão do país durante o difícil (e incomparável) período da Troika que deu origem a enormes e colossais sacrifícios dos portugueses, das famílias e das empresas, mas que permitiu à actual governação socialista chegar às metas orçamentais apresentadas.

Mário Centeno não podia ser mais esclarecedor e tão claro como a água:

“Não podemos deixar que os mesmos erros do passado sejam cometidos. Não temos memória curta. Sabemos o que custou aos portugueses sair do pesadelo e não seguiremos esse caminho”. (...)
“Se há alternativas? Há, mas essas corresponderiam a um regresso ao passado, em que o país enfrentou o risco de sanções, em que um em cada cinco portugueses estava desempregado, em que os investidores nos rotulavam de lixo, em que bancos ruíam e ruía a confiança no sistema financeiro.”

O ministro das Finanças não esqueceu, antes pelo contrário, a realidade a que o país chegou em 2011 e o percurso que todos percorrermos nos quatro anos seguintes para regressar à estabilidade agora assegurada, mas, de todo, garantida.

publicado por mparaujo às 20:30

24
Set 15

No passado domingo as eleições gregas ditaram, de novo, a vitória do Syrisa e a reeleição de Tsipras (com o apoio repetido dos nacionalistas de direita Gregos Independentes).

Apesar de alguma polémica com as sondagens e a eventualidade de um empate técnico ou de uma hipotética vitória do Nova Democracia, era muito mais expectável a vitória do Syrisa.

O que não se percebe é a leitura que a dirigente do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, faz dos resultados das eleições gregas, a menos que o BE viva ainda a ilusão (e para alguns gregos a desilusão) do que foi a anterior campanha e a propaganda eleitoralista que levou o Syrisa à governação da Grécia.

Vejamos...

Catarina Martins comentou as eleições gregas com a afirmação "os gregos disseram que não queriam voltar aos partidos da troika".

Tenho algumas dúvidas que a dirigente bloquista tenha acompanhado a vida política grega desde as eleições anteriores, suspeitando que a mesma tenha ficado pela campanha do Syrisa onde os seus dirigentes prometiam não pagar, bater o pé à Troika e até uma preparação para a saído do Euro (e da zona euro).

O que se verificou nos primeiros seis meses da governação grega foi um retrocesso significativo nas promessas eleitorais (que levou a uma rotura no Syriza, a demissão do então Ministro das Finanças e a convocação destas últimas eleições) e, apesar de avanços e recuos, a aceitação de políticas e medidas sociais e económicas impostas pela União Europeia e pelos credores.

E esta aceitação do programa de ajustamento a que os gregos estão agora sujeitos (e que foi alvo de enorme contestação eleitoral - nas anteriores eleições, e de alguns sectores internos do Syriza) foi validada pelo resultado eleitoral de domingo. Ao contrário do que o Bloco afirma, mantendo a ilusão de um parceiro político europeu que, afinal, se revelou decepcionante (tal como o Podemos em Espanha), os gregos reforçaram a sua concordância com o programa de ajustamento assumido por Tsipras e disseram "sim" à Troika e aos credores, porque perceberam que, infelizmente, só dessa forma sairiam do caos financeiro em que se encontram.

publicado por mparaujo às 17:24

10
Mar 15

Ruas da Grecia 01.jpgQuando o Governo de Passos Coelho implementou a "Factura da Sorte" choveram raios e coriscos sobre o tema: porque é transformar o contribuinte num fiscal das finanças; porque é invasão da vida privada; porque é enganar os contribuintes; porque a economia paralela comparada com o "grande capital" são peanuts; etc., etc., etc.

Expressei, por várias vezes, a minha concordância com o conteúdo (objectivo) da proposta governativa, embora fosse sempre discutível a forma ("Raspadinha fiscal" - "Em Abril já anda à roda..." - "A "latósia" da fraude fiscal"). A verdade é que o aumento do número de facturas emitidas, a possibilidade de controlo fiscalização em relação à economia paralela e à invasão e fraudes ficais, justificaram a medida implementada que, ao que tudo indica, terá continuidade.

O que estaria à espera, principalmente dos partidos e movimentos com significativa afinidade política e ideológica com o Syriza e o novo governo grego (casos do BE, Livre e afins), era uma reacção clara e corajosa a esta mais recente medida do Governo de Aléxis Tsípras, apresentada pelo ministro das Finanças, o popular e mediático, Yanis Varoufakis.

"Grécia: Turistas, domésticas e estudantes vão ser inspectores do fisco".

Onde se lê algo como isto: «Domésticas, estudantes e até turistas vão ser contratados pelo governo grego para ajudar no combate à evasão fiscal. No terreno, estes inspectores fiscais à paisana serão equipados com sistemas de captação de som e imagem para ajudar à produção de prova contra quem fugir ao pagamento de impostos, em especial o IVA.
Esta é uma das medidas – “as primeiras de muitas mais” – que o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, propõe numa carta enviada ao presidente do Eurogrupo e com a qual procura concluir o segundo programa de assistência e começar a trabalhar não num memorando mas num “Contrato para a Recuperação e Crescimento da Economia Grega

Infelizmente, à esquerda, sobre isto nem uma palavra.
Um silêncio cobarde ou a sensação que o "mundo ruiu" e a ilusão deu lugar à realidade?

publicado por mparaujo às 14:31

25
Fev 15

publicado na edição de hoje, 25 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O facilitismo da banalidade discursiva

Em pleno processo negocial do programa de ajustamento financeiro à Grécia, são mais as polémicas e as movimentações paralelas do que o confronto de posições políticas entre a Alemanha, a União Europeia e o Governo grego.

As mais recentes boçalidades políticas demagógicas vieram pela voz e intervenção do ex-primeiro ministro luxemburguês (abraços com alguns processos pouco claros) e actual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Segundo a agência noticiosa Efe, o actual sucessor de Durão Barroso, numa intervenção perante o Comité Económico e Social da União Europeia, terá admitido erros graves nos programas de ajustamento e nas políticas de austeridade impostos a Portugal, Irlanda e Grécia (esta ainda em fase de ajustamento): «a troika ‘pecou contra a dignidade’ de portugueses, gregos e também irlandeses», concluindo que «é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros». Nas mesmas circunstâncias, Juncker afirmou que, pelo facto de ter presidido ao Eurogrupo durante os processos de ajuda externa referidos, aquela observação “poderia parecer estúpida”. A questão é mesmo essa… a observação não parece; é mesmo estúpida.

Não se ouviu qualquer crítica ou uma simples observação contrária aos programas de ajuda externa e às consequentes políticas de austeridade impostas aos três países, enquanto presidente do EuroGrupo e responsável por parte de todo o processo de ajustamento financeiro. Muito menos à estrutura e funcionamento da Troika.
Corrigir, alterar, “dar a mão à palmatória”, são atitudes nobres, com carácter, com personalidade, quando, em função do reconhecimento do falhanço de determinados objectivos, se pretende mudar. Vir falar em erros, em alterar regras e a história dos processos, só porque politicamente é o mais correcto em função de conjunturas negociais, é pura demagogia política, pura banalidade discursiva. Para mais quando não se acredita (como nunca se acreditou) nem uma vírgula no desvio dos conceitos e princípios.
Além disso, o que espera Juncker com estas declarações? Criar alguma pressão na União Europeia (à qual preside) para uma mudança de concepção político-financeira? Pressionar a União Europeia (da qual é líder) para que seja reposta significativa justiça nos ajustamentos financeiros feitos a Portugal e à Irlanda? Vai pressionar os países-membros da UE (dos quais é referência) para devolver a dignidade roubada a milhares de portugueses e irlandeses? Ou tudo isto, mais uma vez e tal como aconteceu nas suspeitas de irregularidades bancárias e financeiras no Luxemburgo, enquanto primeiro-ministro, serve apenas para branquear as responsabilidades que assumiu, frontal e veemente, num passado tão recente?

Face a tudo isto, Jean-Claude Juncker, já que fala tão fluidamente em dignidade, deveria assumir a sua e, perante o que foi a história, os factos, as políticas, que agora repugna, pedir a demissão do cargo que ocupa, a bem da Europa e da nossa dignidade.

publicado por mparaujo às 11:41

03
Fev 15

Os resultados das recentes eleições gregas criaram uma onda de efeitos sistémicos, em função de interesses e convicções diversas.
Para uns, tudo não passou de demagogia eleitoral, de falta de percepção da realidade económico-financeira do país, de um "conto infantil".Para outros, as posições assumidas pelo Syriza, em plena campanha eleitoral e que o novo governo grego promete não abandonar (pelos vistos está apenas a negociar e a ser mais moderado), concretamente as que se referem à renegociação/perdão da dívida e ao confronto com a Troika , a Alemanha e o BCE, deveriam servir de lição ao Governo Português e a Passos Coelho por tudo o que se passou nestes três anos em que Portugal foi presente aos destinos da austeridade da Troika.

Só que os defensores desta última realidade não lêem tudo e escondem a metade discursiva que não lhes convém.
Sim, é verdade que fomos sujeitos (e estamos) a uma austeridade extrema, que fomos (e estamos) sujeitos a sacrifícios muito grandes para recuperarmos as nossas contas e a nossa economia.
Mas mesmo assim e apesar de tudo, ainda longe do que a própria Troika pretendia.
Pelos vistos, dois terços do caminho foram feitos pelo nosso próprio pé.

Comissão Europeia indica que Portugal apenas cumpriu pouco mais de um terço das reformas estruturais do programa de ajustamento.

Aliás, não é de estranhar, por isso, a posição do Partido Socialista, ou melhor... de António Costa, em relação à dívida portuguesa, em relação ao relacionamento com a União Europeia, e ao distanciamento do radicalismo grego (e de alguma esquerda portuguesa).

publicado por mparaujo às 16:49

01
Fev 15

publicado na edição de hoje, 1 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A Europa vê-se ‘grega’…

As recentes eleições na Grécia têm marcado a agenda política nacional e internacional ou as discussões políticas mais ‘caseiras’. Os gregos, de forma legítima e democrática, marcaram a sua posição anti-austeridade e de oposição à Troika.
Mas a posição da Grécia, o discurso radical do Syriza em matéria da dívida ou as afirmações e as opções políticas já tomadas pelo novo governo, são o “mal menor”. Depressa desvaneceu o encanto do “cisne”: primeiro com a surpresa da coligação governamental com direita radical do “Independentes Gregos” (muito facilmente surgirão as divergências ideológicas que estão para além das questões financeiras… multiculturalidade, nacionalismo, defesa, emigração, xenofobia, cultura, área social, entre outros); segundo com a posição das relações externas claramente contrária ao que tem sido a movimentação política dos países do leste europeu face à Rússia, à União Europeia e à NATO (veja-se o caso da Ucrânia) podendo criar um isolamento geopolítico não favorável aos gregos; e terceiro, mais relevante, a moderação do discurso anti-Troika e anti-austeridade que irá acentuar-se ainda mais com o desenrolar da governação e a confrontação com a realidade da falta de dinheiro e de investimento. Aliás, o próprio novo ministro das Finanças foi o primeiro a dar esse sinal face às posições da Alemanha e do BCE em relação à renegociação da dívida grega ao afirmar que algum do discurso eleitoral foi “bluff político”.
No entanto, importa destacar que neste renascer grego todos os quadrantes vão ter os seus “sapos” para engolir: a esquerda radical pela moderação do discurso e pela coligação governamental à direita; o centro-esquerda socialista pelo impacto do resultado eleitoral do PASOK e por não ter sido um partido socialista, depois do falhanço “Hollande”, a marcar uma posição de força com a União Europeia; a direita e o centro-direita por, mais uma vez, se colocar em causa as políticas monetárias e financeiras e os programas de ajustamento das dívidas soberanas (mesmo que para alguns isto não passe de um “conto infantil”).

Mas mais do que tudo isto, há, em toda esta mudança na Grécia, um aspecto que merece especial valorização e um reconhecido mérito político. A forma como o novo governo helénico tem questionado os mais elementares fundamentos e princípios da União Europeia do ponto de vista da solidariedade entre os 28, da decisão conjunta, da igualdade dos deveres e direitos dos Estados Membros e não da submissão às “vontades” de dois ou três Estados ou de uma entidade (BCE).
E é neste questionar do actual projecto europeu e do futuro da União Europeia (algo que interessa aos russos minar tal como o fazem via Ucrânia) que se deve reconhecer o mérito político de Alexis Tsipras. O efeito dominó das eleições gregas dificilmente se repetirá, em si mesmo, noutros países, por várias razões: sistemas eleitorais e democráticos distintos, a realidade do país que continua fortemente intervencionado, a excessiva dependência económico-financeira externa da Grécia, por exemplo. No entanto, este "cartão vermelho" à União Europeia poderá criar uma movimentação mais global que pressione as suas instituições para a forma como se tem desenvolvido o seu funcionamento, como têm sido aprovadas e implementadas as medidas e as políticas europeias na comunidade ou como se têm relacionado os 28 Estados-Membros, num permanente conflito de interesses individuais esquecendo o princípio da unidade e solidariedade comuns.

publicado por mparaujo às 20:18

27
Jan 15

bandeira grega.jpgOs recentes acontecimentos eleitorais gregos e os respectivos impactos têm surgido com uma extrema velocidade não muito vulgar quando se trata da "coisa política".

No domingo, aguardavam-se com enorme expectativa os resultados finais. A vitória do Syriza era algo perfeitamente expectável, mas havia significativas dúvidas para saber se haveria, ou não, maioria absoluta; quais os resultados das outras forças partidárias, nomeadamente da Nova Democracia e do PASOK. Não foi preciso esperar muito tempo para que tudo, ou quase tudo, se esclarecesse: o Syriza ficou a dois deputados da maioria; a Nova Democracia sofreu pesada derrota; o PASOK desapareceu do mapa político grego.
Sobre a inquestionável vitória do Syriza já aqui expressei uma breve reflexão: "O rufar dos tambores no Olimpo...". Ao mesmo tempo, grande parte da esquerda portuguesa (BE, Livre, as novas e futuras plataformas políticas...) soltavam "hossanas" e deitavam foguetes pela legítima e democrática decisão do povo grego. Até António Costa, de forma questionável e que deixa algumas dúvidas políticas, preferiu esquecer a pesadíssima derrota dos seus "camaradas socialistas" do PASOK para se 'colar' a esta onda grega de anti-austeridade.

Mas face as resultados surgia a dúvida na forma como Alexis Tsipras iria contornar a questão dos dois deputados que lhe faltava para a maioria. Tão depressa surgiu a interrogação, como tão depressa (muito poucas horas para um processo de negociação política) surgiu a resposta e a solução, mesmo que esta tenha sido um balde de água fria nos ânimos esquerdistas tão calorosos (principalmente para os que têm querido forçar, discurso após discurso, uma grande frente de esquerda). Quando os olhares se voltavam para os 15 deputados do Partido Comunista Grego / KKE ou (porque não?) para os 13 deputados do Partido Socialista Grego / PASOK, surge a surpresa: excluindo os extremistas-direita do To Potami ou os neonazi "Aurora Dourada", Alexis Tsipras estende a mão ao partido de direita conservadora "Gregos Independentes". Estando claramente obcecado pela questão da dívida e da Troika, o Syriza esqueceu facilmente os conceitos xenófobos, as políticas de emigração, a anti-multiculturalidade, a enorme diferença ideológica, para se centrar num objectivo comum: "kickoff Angela Merkel".

Menos de 24 horas foi o tempo suficiente para arrefecer os ânimos.

Mas as surpresas não se ficam por aqui, nestes momentos pós-eleitorais.
À bandeira política de campanha, à promessa e compromisso de mudança e de enfrentar, cara-a-cara, a Troika e os mercados, assumido perante o povo grego, Angela Merkel e o BCE já fizeram o primeiro aviso, secundados pelo FMI e Christine Lagarde.
E perante estes primeiros sinais de inflexibilidade externa, o novo governo grego, já empossado, já dá mostras de alguma moderação pós-eleitoral quando o novo ministro das Finanças veio afirmar que houve "bluff eleitoral" nas posições do Syriza.

Assim, não é de espantar algum descrédito quanto ao futuro da Grécia e ao futuro da coligação e do Governo gregos, dando razão a algum cepticismo por parte dos partidos da direita, do PCP (após conhecida a coligação com a "direita radical grega") e de muitos socialistas, ao contrário de António Costa, como, por exemplo, Vital Moreira ou João Paulo Pedrosa (ao jornal i).

Quando continuar a faltar o dinheiro nas famílias e nos multibancos gregos, será a prova de fogo para se saber se o discurso anti-Troika e anti-austeridade manterá o mesmo fulgor eleitoral.

publicado por mparaujo às 15:19

25
Jan 15

Syriza.jpgA marca desta semana, independentemente de outros contextos relevantes (a venda PT aos franceses da Altice ou as mortes ocorridas, em esperas, nas urgências dos hospitais portugueses) é, inevitavelmente, o resultado eleitoral grego, com a vitória da extrema-esquerda do Syriza.
Os gregos disseram Basta e bem alto... disseram-no à Troika, à União Europeia, ao BCE, a Angela Merkel.
Pelo menos enquanto não houver o choque entre a retórica política/ideologia dos vencedores e a realidade económico-financeira do país (desemprego, falta de dinheiro, etc) está instalada a ruptura com o passado e com a influência da Troika na Grécia. O futuro muito próximo, não será mais que um ano, dirá quem será o primeiro a ceder: Troika ou Grécia. Sendo que os próximos tempos marcarão, ou não, a inflexibilidade da posições eleitorais assumidas pelo Syriza e que levou à conquista de uma vitória há muito anunciada.

Mas não vale a pena esconder que este resultado eleitoral na Grécia irá deixar marcas e terá "danos colaterais", pelo menos na União Europeia.
O efeito dominó das eleições gregas dificilmente se repetirá, em si mesmo, em outros países, por várias razões: sistemas eleitorais e democráticos distintos, a realidade do país que continua fortemente intervencionado, a excessiva dependência económico-financeira externa da Grécia, por exemplo.
No entanto, este "cartão vermelho" à Troika poderá criar uma movimentação mais global na União Europeia que pressione as suas Instituições para a forma como as medidas e as políticas de Ajudas e Ajustamentos têm sido implementadas nos países resgatados.

Há ainda os impactos que a leitura política destes resultados eleitorais devem provocar nos partidos políticos tradicionais, em muitos países europeus, já para não falar do crescimento do eurocepticismo. Há a tendência para a desfragmentação do peso eleitoral dos partidos do centro-esquerda (socialistas), sociais-democratas e liberais, para o surgimento (mesmo que pontual e espontâneo) dos extremos, sejam eles à direita ou à esquerda. E, neste caso, importa questionar se, aqueles que hoje aplaudem e se congratulam pela vitória do Syriza, como factor de ruptura e de mudança, manterão a mesma posição noutros contextos (lembremos a França) caso partidos de extrema-direita conquistem os mesmos palcos.
Por último, os partidos do poder ou partidos do chamado "arco do poder" de países em anos eleitorais deverão ter um cuidado redobrado com estes resultados gregos, já que é óbvio o aproveitamento político da vitória do Syriza para efeitos eleitorais pelos partidos da mesma "família ideológica".

publicado por mparaujo às 22:35

21
Mai 14

publicado na edição de hoje, 21 de maio, do Diário de Aveiro. (revisto e republicado)

Debaixo dos Arcos

Da série… não nos tomem por parvos (desemprego)

A um Governante, ao caso o Primeiro-ministro, pede-se Honestidade e Verdade, entre outras características.

Algo que em Passos Coelho se afigura difícil de encontrar, bastando, para tal, recordar o que foram as suas promessas eleitorais em 2011 [corrigo: anteior estava, erradamente 2001] e o que foi o resultado da sua governação nestes três anos de mandato. E eu, muito particularmente, que o diga.

E mais uma vez Pedro Passos Coelho não é, na sua demagogia e retórica política, honesto e verdadeiro.

E já chega de querer fazer passar por parvos os portugueses (assim o espero).

No jantar-comício realizado na passada sexta-feira, aqui, precisamente, em Aveiro, em plena campanha para as eleições europeias deste mês (dia 25), o Primeiro-ministro referiu-se aos dados divulgados pelo IEFP sobre o desemprego (diminuição do número de portugueses inscritos nos Centros de Emprego), congratulando-se pelos valores e justificando o sucesso das políticas do Governo. Melhor dizendo, algo que o chefe do Governo não sublinhou (ou não quis sublinhar), referindo-se, apenas, ao número dos desempregados inscritos nos centros de emprego. De facto, os dados revelados mostram que, em abril deste ano, houve uma queda do número de desempregados inscritos em cerca de 8,3%, comparado com igual período de 2013.

Só que Pedro Passos Coelho faltou à verdade, escondeu a realidade e não mostrou os dados todos. Ou propositadamente não o quis fazer.

É que a redução do número de desempregados inscritos (que aliás não corresponde ao número de desempregados de longa duração, que aumentou 2,6%) tem outra leitura bem distinta da demagogia e politiquice do discurso do Primeiro-ministro.

Primeiro, porque o número de empregados diminuiu, segundo o INE, no primeiro trimestre de 2014 (cerca de menos 42 mil empregos que em 2013).

Segundo, porque a redução do número de desempregados registados não significa (como aliás o INE o prova) que tenha havido mais portugueses empregados. Antes pelo contrário. Significa que deixaram de ter direito aos apoios sociais, que emigraram, que desistiram de procurar emprego, que passaram a inactivos. Registe-se, segundo os valores do INE, que, em Portugal, há cerca de 500 mil desempregados há mais de um ano e que cerca de 310 mil procuram ocupação laboral há mais de dois anos.

Terceiro, o último relatório da OCDE referencia Portugal como o terceiro país com a taxa de desemprego mais elevada entre os países membros.

Quarto, é importante referir, a bem da verdade a que faltou Passos Coelho, que o número de desempregados inscritos (em percentagem) está directamente relacionado com a população activa. Sabendo-se que esta é, hoje, menor, por razões do défice demográfico, pela emigração e pelo elevado número de desempregados, torna-se óbvio que a percentagem tende a diminuir. Sem que isto signifique uma redução real do desemprego que se estima, segundo o INE, numa taxa real de cerca de 19,3%.

Isto não são razões para festejos, foguetes ou brindes com champanhes.

Chega de mentiras e areia para os olhos dos portugueses.

É que o desemprego não engana… é limpinho, limpinho.

publicado por mparaujo às 10:28

18
Mai 14

publicado na edição de hoje, 18 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Brindar a quê?

Portugal chegou ao fim do processo de ajuda externa de resgate financeiro. Isso é um facto. A opção tomada (e imposta) foi a da chamada “saída limpa”, sem outro resgate ou qualquer programa cautelar. Mas também importa referir, a bem da verdade, que, por mais que o Governo queira fazer acreditar, tal realidade não significa um “adeus” à Troika, já que a monitorização e fiscalização ao cumprimento das metas do défice e ao ajustamento das contas públicas durará mais alguns significativos anos. Sejamos realistas e factuais. Lembremos uma anedota antiga sobre uma visita guiada a um jardim zoológico. Perante a descrição do guia junto à jaula das hienas, no fim uma das crianças questiona o guia sobre a característica principal das hienas apresentadas como um animal que está sempre a ‘rir’: “se a hiena é um animal que tem relações sexuais apenas uma vez por ano, come os excrementos dos outros animais… ri de quê?” O mesmo se pode transpor para a euforia desmesurada com que o Governo tem celebrado o fim do programa de ajuda externa.

Primeiro, porque é falso que o actual Governo não tenha responsabilidades políticas na entrada da Troika em Portugal, quando o PSD, no final da última governação socialista, foi parceiro negocial do memorando de entendimento. Aliás, não só foi parceiro como o co-assinou (com direito a foto de telemóvel). Segundo, porque não passa de demagogia política e eleitoralista (face ao aproximar dos ciclos eleitorais) todo este gáudio do Governo em querer ver “pelas costas” a Troika, de quem dependeu ao longo dos últimos três anos, a quem sempre estendeu a mão, e quer serviu de referência para aplicação de políticas que o próprio Governo apelidou de irem para além do memorando. Perdoem a expressão, mas, de forma popular, é o mesmo que “cuspir no prato onde se comeu”. Terceiro, regressando à referida anedota, o Governo brinda a quê? Há uma incerteza reconhecida, não só internamente, mas também pelas instituições internacionais (FMI, OCDE, UE) que Portugal não está isento de riscos de não cumprir a meta dos 2,5% do défice em 2015, mesmo sem contarmos com eventuais agravamentos da conjuntura económica internacional. Daí que seja discutível, neste período pós-Troika que começamos a viver, para segurança e sustentabilidade da nossa saída da crise, a escolha de uma saída limpa em vez de um programa cautelar que não tem, obrigatoriamente, que significar um eventual falhanço da governação. Pior será quando, dentro de um ano, tivermos de recorrer a um segundo resgate. Aí sim… é o nosso fim.

Mas apara além disso, é difícil de reconhecer muitas razões para tantos festejos, brindes e champanhes à mistura. Os portugueses (e o país) estão mais pobres. A carga fiscal dos portugueses aumentou 8,1% em 2013 (cerca de 58 mil milhões de euros), à qual acresce o aumento da TSU, o aumento do IVA e, apesar de desagravada, as taxas da CES. Aliás, no próprio relatório da 11ª avaliação é clara a posição do FMI que diz que em 2015, para o cumprimento da meta do défice, o Governo terá de voltar a sobrecarregar os portugueses com mais impostos, para um patamar na ordem dos 25% (mais 1,4 mil milhões de euros do que o previsto para 2014). Além disso, o número de trabalhadores com vencimentos mensais inferiores ao salário mínimo (por exemplo, 310 euros) é, hoje, maior que em 2011 (antes da Troika) e há menos 25% de trabalhadores no patamar dos 1800 euros mensais (o que hoje se pode considerar uma fortuna). As pensões mais baixas (assim como o valor do salário mínimo nacional que, por força do novo valor da TSU, para além de não subir, fica mais baixo) são as mais penalizadas, e os funcionários públicos terão nova taxa da ADSE e novas tabelas salariais (por força da reorganização de carreiras e categorias) que reduzirão, na maioria dos casos, o valor do trabalho mensal. Acresce ainda a vertente social da crise: em 2013, a AMI registou uma média de 409 novos casos de pobreza, por mês (um aumento de cerca de 5000 em relação a 2012); o crédito mal parado aumentou já em 2014; e Portugal mantém a terceira taxa de desemprego mais alta da OCDE (a taxa reduziu de 15,3% para 15,1% sem que no entanto tal signifique a criação de emprego). Aliás, em relação ao desemprego, o primeiro trimestre de 2014 é preocupante: continua a vaga de emigrações; aumenta o número de desempregados sem direito a subsídio de desemprego; o primeiro trimestre deste ano registou a perda de 42 mil postos de trabalho. Acresce a grave realidade da vertente demográfica.

Mas o país não está melhor. Um relatório do INE revelou que no primeiro trimestre de 2014 o custo do trabalho em Portugal aumentou 1,5% e o número de empresas caiu em 2013 cerca de 4%. Os dados do INE são ainda negativos: o défice comercial agravou-se no início deste ano com as exportações a aumentarem 1,7% mas muito abaixo do aumento das importações que foi de 6%. Além disso, a economia nacional caiu quase 1% (0,7%), numa altura em que a OCDE prevê, para o país, a necessidade de uma consolidação orçamental na ordem dos 1 a 3% do PIB.

Regressando ao riso da hiena, importa recordar um velho ditado a propósito de tanto foguetório governamental: “quem ri por último… ri melhor”.

publicado por mparaujo às 11:56

16
Mai 14

Tal como o Pedro Santos Guerreiro já o afirmou publicamente, a capa de hoje do Jornal de Negócios está simplesmente soberba.
A simplicidade do "branco", com poucas cores que distraiam do essencial: a manchete com a saída da Troika.
Muito bom. Mesmo, muito bom.
Parabéns ao Negócios e à Helena Garrido.


p.s. Tenho, como o disse várias vezes, uma admiração e respeito pelo jornalista Pedro Santos Guerreiro e fui um dos que ficou surpreso com a sua saída do Jornal de Negócios - embora sem o comentar porque foram razões do foro pessoal que não me dizem respeito, como é óbvio... mas, hoje, para os "velhos do restelo" e para os "derrotistas e más línguas" que previam um futuro cinzento para o JNegócios aqui está a prova, mais que provada, das capacidades de liderança por parte da Helena Garrido. Mais nada...

publicado por mparaujo às 10:54

07
Mai 14

Publicado na edição de hoje, 7 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

O algodão não engana

Este título espelha uma frase publicitária, bem conhecida dos portugueses, referente a um produto de limpeza. Mantendo a eficácia publicitária, a verdade é que o algodão continua a não enganar. De tal modo que ao passarmos o algodão por cima do anúncio, no passado domingo, proferido pelo Primeiro-ministro sobre o tipo de saída do memorando de ajuda externa a conclusão é uma: o algodão continua a não enganar. Só que, desta vez, não sai branco e limpo… sai sujo.

A anunciada saída limpa é, acima de tudo e essencialmente, uma retórica política e eleitoralista.

Política porque convém ao Governo, aos parceiros europeus (nomeadamente os países do norte da Europa, com a Alemanha à cabeça), ao Banco Central Europeu e ao FMI, findos estes três anos de intervenção que o programa de ajustamento se afigure como um sucesso. Deste modo, evitando constrangimentos nos processos eleitorais que decorrerão nos vários países (por força das eleições europeias de 25 de maio próximo) e condicionando a oposição interna nacional, para quem (tantas vezes proferido pelo PS) uma não saída limpa significaria o fracasso das políticas e das medidas aplicadas desde 2011 pelo Governo PSD-CDS.

Por outro lado, o Governo ao anunciar esta “saída limpa” pretendeu dar a imagem de que os sacrifícios exigidos aos portugueses, às famílias e às empresas, tiveram o mérito de alcançar os pressupostos e os compromissos assumidos na assinatura do Programa de Ajustamento, resultaram em 12 avaliações positivas, consolidando a confiança dos mercados (redução das taxas de juro da dívida) e o saldo positivo na balança externa. Bandeiras que estrão na linha da frente da campanha eleitoral deste mês e das legislativas de 2015. Afinal, as eleições são importantes.

No entanto, importa não esquecer que as metas alcançadas são fruto do empobrecimento do país, a degradação da economia, uma elevada taxa de desemprego e um ajustamento dos mais severos da Europa (o terceiro) no que se refere à carga fiscal. Algo que a dita “saída limpa” não consegue esconder, tendo sido sustentada numa nova subida de impostos sobre o consumo (IVA) e o valor do trabalho (TSU), novos ajustamentos (mesmo que mais suaves) das Contribuições Especiais (tidas agora como permanentes), com impacto na economia, no custo de vida, nas pensões e nos salários, aos quais não fica alheio o salário mínimo que, em vez de uma eventual subida, vê o seu valor reduzido por força da nova taxa. Por outro lado, há ainda a realidade dos processos de austeridade, mesmo que mais ligeiros, se prolongarem por algumas décadas (há quem aponte 2030, numa perspectiva optimista).

A verdade é que o sucesso do ajustamento, alicerçado numa excessiva acção sobre o lado da receita (aumento de impostos) e das despesas sociais (corte nas prestações sociais e deduções), deixou de lado outras despesas do Estado (as chamadas “gorduras”), medidas de alavancagem da economia e a tão proclamada, mas igualmente protelada, Reforma do Estado.

Além disso, o Governo, para “limpar” a sua imagem política e se apresentar como vencedor (e salvador), não teve qualquer preocupação com o futuro, nem com os vários avisos internos ou externos. Nomeadamente os do Presidente da República e os das Instituições Internacionais que continuam a apontar riscos para o ajustamento das contas públicas, para o cumprimento das metas do défice e para a economia. Avisos que alertam igualmente para vários processos que ficaram por implementar (por exemplo, a tal Reforma do Estado) e para o excesso da carga fiscal existente em Portugal.

Deixar o país sujeito aos estados de alma e variações de humor dos mercados financeiros, sem qualquer sustentabilidade, é um completo tiro no escuro, sem rede, sem apoio e que poderá condicionar ainda mais a vida dos portugueses, num futuro muito próximo.

Teria sido perfeitamente compreensível e aconselhável, devidamente fundamentado do ponto de vista económico e político, a saída com um programa cautelar, mesmo que mínimo, muito para além de uma simples “carta de conforto”, que fosse o garante da estabilidade das contas públicas e do seu ajustamento, e o suporte para o desenvolvimento da economia nacional.

Porque a Troika essa estará, garantidamente, presente por muitos e muitos anos, seja com cautelar ou saída limpa. Isso sim, é… limpinho, limpinho. E o algodão não engana.

publicado por mparaujo às 09:43

21
Abr 14
A minha fotografia

A ler os outros... Andrea Diegues.

Pela partilha fui dar de caras com este texto e este testemunho (por razões profissionais) da Andrea.

Dei de caras... engoli em seco... contive o nó na garganta... e fiquei em silêncio. E um silêncio que incomoda cá dentro. E muito.

Sim... porque às vezes o silêncio também compromete, também solidariza, também expressa. Mas também incomoda e tira-nos do conforto, desconsola.

Acima de tudo, o Silêncio também Respeita.

E no mínimo, o que se exige é Respeito. Ao menos, isso.

A Ler: O incómodo silêncio...

publicado por mparaujo às 14:08

23
Mar 14

"A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor". (Luís Montenegro, líder da bancada do PSD, 21.02.2014)

Só neste mês de março, que está prestes a terminar, cinco notas que reforçam o estado da vida dos portugueses e deixa muitas dúvidas sobre o estado do país.

«Mais de 425 mil desempregados sem subsídio em janeiro» (Jornal de Notícias - 05.03.2014)

«Num ano, mais de 52 mil perderam o Rendimento Social de Inserção» (Jornal de Notícias - 05.03.2014)

«Num mês 50 mil crianças e jovens perderam o abono» (Jornal de Notícias - 06.03.2014)

«4500 famílias dependem da Cáritas todos os meses» (Jornal de Notícias - 16.03.2014)

(a título de exemplo) «Cáritas de Coimbra teve aumento de 170% nos pedidos de apoio social em 2013» (Expresso - 20.03.2014)

publicado por mparaujo às 21:39

20
Mar 14

Ainda a propósito do manifesto a favor da reestruturação da dívida pública portuguesa.
Aos 74 apelidados de "velhos do Restelo" juntam-se agora mais 74 personalidades estrangeiras da área económica e financeira, com um manifesto "Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade".

O documento é, na sua globalidade, semelhante na fundamentação e nos princípios ao documento promovido por João Cravinho, Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, "Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente", e subscreve a sua concepção.

publicado por mparaujo às 09:35

16
Mar 14

publicado na edição de hoje, 16 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Um manifesto à dívida.
Se William Shakespeare fosse vivo provavelmente “reestruturava” uma das suas mais emblemáticas expressões poéticas face à agenda política nacional, nestes dias mais recentes: “Reestruturar ou não reestruturar, eis a questão”. Isto para não irmos mais longe e não cairmos na tentação fácil e radical do “pagar ou não pagar, eis a questão”.
Os factos e a realidade (hoje) demonstram que a monstruosidade do valor da divida pública (cerca de 130%, mais de 200 mil milhões de euros) é insuportável e que muito dificilmente, e só a muito longínquo prazo, atingiremos valores aceitáveis de 60% do PIB, inscritos no Tratado Orçamental Europeu. Nos 20 anos previstos, por melhores que sejam os valores do desenvolvimento da economia e do cumprimento da consolidação orçamental, Portugal não terá condições para cumprir e honrar os compromissos que tem face aos empréstimos externos.
Apesar do cumprimento sucessivo (face às avaliações da Troika) das metas e dos objectivos traçados no memorando de entendimento de ajuda externa, o eventual sucesso tem sido alcançado através de um empobrecimento do país (empresas, famílias, cidadãos), da estagnação da economia (2013 fechou com a economia a regredir 1,4% do PIB, apesar do valor positivo do último trimestre), de uma significativa taxa de desemprego, da insustentabilidade das prestações sociais, de uma volatilidade da sustentabilidade das exportações assentes, essencialmente, em serviços e no turismo. O país (seja lá qual for a saída mais ou menos limpa) não suporta mais austeridade e mais empobrecimento (com todos os impactos sociais e económicos que isso representará), correndo o risco de eventuais incumprimentos.
A reestruturação prevista no manifesto assinado por mais de 70 personalidades portuguesas, das mais diversificadas convicções ideológicas, sociais e partidárias, não tem, em qualquer dos seus fundamentos, o objectivo de solicitar um perdão, parcial ou total, do valor que Portugal deve. Aliás, afigura-se como exageradamente rebuscado o paralelismo entre reestruturação e perdão. O que o Manifesto propõe é um reposicionamento ou uma renegociação da dívida, ao nível das maturidades (prazos) e dos valores dos juros. É certo que, nomeadamente no caso da extensão dos prazos, tal significa um prolongamento, no tempo, da dívida para as gerações futuras. Mas de outra forma, nos próximos 20 anos, Portugal não tem condições de crescer, de deixar sustentabilidade para essas mesmas gerações, de se desenvolver, de criar estruturas económicas de consolidação, e correrá, sérios e graves riscos de incumprimento. Isso sim, seria muito pior para o país e para os portugueses.
Ainda a propósito deste Manifesto, têm surgido vozes com posições, legitimamente, opostas e críticas ao documento, para além da questionável posição de Passos Coelho. Entre as críticas surgidas, e que diferem da concepção dos pressupostos e fundamentos do Manifesto, estão razões aceitáveis como o timing da proposta, os impactos nos mercados, na banca e no Fundo da Segurança Social. No entanto, a realidade que vivemos e os números que a “suportam” tem demonstrado que a sustentabilidade da economia, do desenvolvimento do país e da consolidação das contas públicas, não favorecem o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos. Há que saber pesar os pós e os contras. Mas o que mais espanta na oposição ao Manifesto nem são tanto as convicções e as visões diferentes da mesma realidade e do futuro do país. O que não tem qualquer cabimento e se afigura totalmente a despropósito é esta alucinação pelos “velhos do Restelo”, a obsessão pelos acertos de contas com o passado, principalmente de quem (alguns “conhecidos” jornalistas), ao longo desses “vários passados”, sempre “jogou” ao sabor do vento e das circunstâncias, posicionando confortavelmente (por comodismo e interesse) ao lado da posição (ver a pública "carta a uma geração errada", de José Gomes Ferreira, jornalista da SIC).
Em Portugal, a responsabilidade de gestão danosa tem, no sistema jurídico, uma esfera própria e circunscrita. A responsabilização dos actos políticos ocorre nos processos eleitorais que esta democracia de 40 anos, felizmente, implementou e promoveu. Tudo o mais transforma-se em mera retórica e demagogia sem sentido. Passarmos o tempo a discutir responsabilidades passadas, sem olharmos o presente e projectarmos um futuro mais sustentável, é, claramente, não haver capacidade política para assumir-se as responsabilidades do presente. E elas são muitas. Querer andar a “escavar” responsabilidades políticas do passado, quando elas não são assumidas pelo sistema jurídico, é andar a brincar à política e com o futuro do país. Isso sim, é brincar com as gerações passadas, presentes e futuras. As responsabilidades são de todos e resultam de décadas e décadas de governação (umas melhores que outras). Se quisermos, no limite, a culpa é toda do D. Afonso Henriques (brincar por brincar…). Ou há uma alteração ao sistema político e jurídico português ou então, no contexto actual, este tipo de acusações e de “sacudir a água do capote” das responsabilidades políticas presentes são mera incapacidade de argumentação e fundamentação.

publicado por mparaujo às 14:26

15
Mar 14

A propósito do Manifesto da reestruturação da dívida e como antecipação do texto que será publicado na edição de amanhã do Diário de Aveiro.
O Prof. Doutor Marques-Mendes apresenta, mesmo que sumariamente, uma alternativa (ou uma terceira via) quer à "birra" política de Passos Coelho, quer ao Manifesto: uma mudança de paradigma da gestão da dívida pública por iniciativa exclusivamente nacional. Haja vontade política...

A ler... "Reestruturação da dívida pública: sim, não ou talvez?"

publicado por mparaujo às 21:51

13
Mar 14

A propósito do Manifesto a defender a reestruturação da dívida portuguesa (“Manifestamente…”) têm surgido vozes, legitimamente, com posições opostas e críticas ao documento subscrito por 70 personalidades da sociedade portuguesa, das mais diversificadas convicções ideológicas, sociais e partidárias. Algo que representa, por si só e para além do contexto, um significativo e notório exemplo de consenso que há vários anos tem faltado na realidade política nacional. Ao contrário, por exemplo, do que aconteceu na Irlanda, já que esta tem servido tantas vezes como termo de comparação.
Entre as críticas surgidas, e que diferem da concepção dos pressupostos e fundamentos do Manifesto, estão razões aceitáveis como o “timing” da proposta e o conceito em torno da definição “reestruturação”, bem como os impactos nos mercados, na banca e no Fundo da Segurança Social. No entanto, a realidade que vivemos e os números que a “suportam” tem demonstrado que a sustentabilidade da economia, do desenvolvimento do país e da consolidação das contas públicas, não favorecem o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos. O que terá um impacto ainda maior que a austeridade que desde 2011 tem sido imposta às empresas, às famílias, aos portugueses. Por outro lado, o que está em causa é um processo de renegociação de maturações e de juros (tal como muitas empresas o fazem na sua gestão empresarial) e não a solicitação de um perdão parcial ou total.
Mas o que mais espanta na oposição ao Manifesto nem são tanto as convicções e as visões diferentes da mesma realidade e do futuro do país. Indo até mais longe, pelos constrangimentos políticos e governativos (face á comunidade externa) nem é tanto a posição crítica do Primeiro-ministro, do Governo e até do Presidente da República (excepção feita para este triste, lamentável e condenável episódio antidemocrático e limitador da liberdade de opinião e expressão).
O que não tem qualquer cabimento e se afigura totalmente a despropósito é esta alucinação pelos “velhos do Restelo”, a obsessão pelos acertos de contas com o passado, principalmente de quem, ao longo dos “vários passados”, sempre ‘jogou’ ao sabor do vento e das circunstâncias, posicionando-se sistematicamente ao lado da posição. Tal como esta suposta "carta a uma geração errada"... Triste!
Em Portugal, a responsabilidade política tem, no sistema jurídico, uma esfera própria e circunscrita/demarcada. A maior responsabilização pelos actos políticos ocorre nos processos eleitorais que esta democracia de 40 anos, felizmente, implementou e promoveu. Tudo o mais transforma-se me mera retórica e demagogia sem sentido. Passarmos o tempo a discutir responsabilidades passadas, sem olharmos o presente e projectarmos um futuro mais sustentável, é, claramente, não haver capacidade política para assumir-se as responsabilidades do presente. E elas são muitas. Querer andar a “escavar” responsabilidades políticas do passado, quando elas nunca foram assumidas, juridicamente, pelo sistema democrático, é andar a brincar à política e com o futuro do país. Isso sim, é brincar com as gerações passadas, presentes e futuras. As responsabilidades são de todos e resultam de décadas e décadas de governação (umas melhores que outras). Se quisermos, no limite, a culpa é toda do D. Afonso Henriques (brincar por brincar…).
Ou há uma alteração ao sistema político português ou então este tipo de acusações ou de “sacudir a água do capote” das responsabilidades políticas presentes são mera incapacidade de argumentação e fundamentação.

A propósito: A ler... "Os homens não são todos iguais", por Viriato Soromenho Marques na edição de hoje do Diário de Notícias.

publicado por mparaujo às 11:52

12
Mar 14
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Se William Shakespeare fosse vivo provavelmente “reestruturava” uma das suas mais emblemáticas expressões poéticas face à agenda política nacional, nestes dias mais recentes: “Reestruturar ou não reestruturar, eis a questão”. Isto para não irmos mais longe e não cairmos na tentação fácil e radical do “pagar ou não pagar, eis a questão”.
A verdade dos factos e da realidade (hoje) demonstram que a monstruosidade do valor da divida pública (com as novas regras europeias de apuramento passará facilmente os 103%, mais de 200 mil milhões de euros) é inquestionavelmente, mesmo para os mais optimistas, insuportável e que muito dificilmente, e a muito longínquo prazo, atingiremos valores aceitáveis de 60% do PIB, inscritos no Tratado Orçamental Europeu. Nos 20 anos previstos, por melhores que fossem os valores de desenvolvimento da economia e do cumprimento da consolidação orçamental, Portugal não terá condições para cumprir e honrar os compromissos que tem face aos empréstimos externos (institucionais e privados).
Perante os factos qual o melhor caminho? Apesar do cumprimento sucessivo (face às avaliações da Troika) das metas e dos objectivos traçados no memorando de entendimento de ajuda externa, a verdade é que o eventual sucesso tem sido alcançado através de um empobrecimento do país (empresas, famílias, cidadãos), da estagnação da economia (2013 fechou com a economia a regredir 1,4% do PIB), de uma significativa taxa de desemprego, da insustentabilidade das prestações sociais, e de uma volatilidade da sustentabilidade das exportações assentes, essencialmente, em serviços e no turismo. A questão assenta na opção, mais técnica do que política, entre dois processos: o país (mesmo no pós-troika seja lá qual for a saída mais ou menos limpa) suporta mais austeridade e mais empobrecimento (com todos os impactos sociais e económicos que isso representará), correndo o risco de eventuais incumprimentos, ou assume perante os credores e o mercado que tem capacidade para pagar as suas obrigações através de uma reestruturação da sua dívida. Aliás, tal como o FMI veio (segundo o JN da semana passada) afirmar em relação ao sector empresarial, sugerindo que as empresas portuguesas reestruturem as suas dívidas em nome de um maior equilíbrio dos orçamentos e de uma “maior saúde bancária”. Algo que alguns empresários, como Pinto Balsemão, subscrevem como “um acto de boa gestão” empresarial.
E ao contrário do que Pedro Passos Coelho, por mera “birra” política afirma, a reestruturação prevista no manifesto assinado por cerca de 70 personalidades portuguesas não tem, em qualquer dos seus fundamentos, o objectivo de solicitar um perdão, parcial ou total, do valor que Portugal deve. Aliás, afigura-se como significativamente rebuscado o paralelismo entre reestruturação e perdão. O que o Manifesto da Reestruturação da Dívida propõe é um reposicionamento ou uma renegociação da dívida, ao nível das maturidades (prazos) e dos valores dos juros. É certo que, nomeadamente no caso da extensão dos prazos, tal significa um prolongamento, no tempo, da dívida. Mas de outra forma, mesmo nos próximos 20 anos, Portugal não tem condições de crescer, de se desenvolver, de criar estruturas económicas de consolidação, e correrá, sérios e graves riscos de incumprimento. Isso sim, seria muito pior para o país e para os portugueses.
Por último, e mais difícil de compreender, é a questionável posição do Primeiro-ministro face à proposta e à recomendação. Para quem teve sempre as “facas afiadas” e apontadas à ausência de consenso por parte do PS, ter nas mãos uma posição de consenso e unanimidade, entre tão diferentes visões políticas, económicas e ideológicas, nunca alcançada nestes quarenta anos de democracia, não aproveitar ou reconhecer o mérito é pura “birra” e uma clara e evidente falta de humildade políticas. Para além de uma notória ausência de sentido de Estado (mesmo depois das últimas declarações – prefácio - do Presidente da República). Dá-se um benefício da dúvida à reacção do Primeiro-ministro: a questão do timming da proposta face ao aproximar do fim do programa de ajuda externa. Mas não se poderá dar o mesmo crédito quando ainda hoje Pedro Passo Coelho afirmava (conferência Jornal de Negócios "Portugal Pós-Torika") que "as pessoas normais, simples, parece que abarcam melhor esta realidade que pessoas informadas e com formação superior". Quão longe do país real. Demasiadamente longe.

Manifestamente… criticável.

publicado por mparaujo às 08:03

21
Fev 14

Isto é a sério???
Esta capa do JN da edição de hoje (21.02.2014) só pode ser "brincadeira de Carnaval"...
Como é possível que alguém com responsabilidades políticas acrescidas (líder da bancada parlamentar do PSD, Luís Montenegro) tenha uma afirmação destas: "A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor".

Logo no arranque do 35º congresso social-democrata que se prevê uma decepcionante bajulação ao "chefe"; num altura em que o FMI acaba com o "foguetório" do suposto sucesso da recuperação da crise; numa altura em que a missão da Troika regressa ao país para a 11ª avaliação trazendo na bagagem mais cortes salariais e mais austeridade (por força da meta do défice de 2,5% e por um valor da dívida pública de 129% do PIB); entre outros... vir dizer que a vida das pessoas não está melhor mas congratular-se com o eventual sucesso do país é o mesmo que dizer "que se lixem as pessoas". Ou, como diz a voz popular, "pobretes mas alegretes".

E é esta a classe que nos governa... o esforço das pessoas, os sacrificios a que as pessoas, as famílias e as empresas têm estado sujeitos, não têm qualquer relevância. As pessoas são números e fazem parte de folhas de excel.

Mas também é verdade que as pessoas não se podem esquecer que fizeram, em 2011, esta escolha eleitoral. Podemos não ter o que merecemos, mas temos o que escolhemos.

publicado por mparaujo às 09:52

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