publicado na edição de hoje, 29 de novembro, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
Um fim mais que anunciado
A realidade foi sendo protelada durante algum tempo mas chegou: o pavilhão do Beira Mar, o pavilhão do Alboi, o pavilhão dos Santos Mártires, encerrou portas. O Sport Clube Beira Mar perde, assim, um dos seus últimos patrimónios e um ícone para as modalidades amadoras, nomeadamente o Basquetebol, o Boxe, o Judo, entre outras. Já para não falar na extinta modalidade do Andebol. Como aveirense e após alguns anos como treinador de basquetebol no clube não posso deixar de sentir alguma mágoa pelo rumo dos acontecimentos e pelo desfecho final. Assisti e vivi momentos empolgantes e vibrantes que ficarão, enquanto conseguir, na minha memória, para além de todos aqueles que comigo os partilharam. Ver encerrar este espaço que comporta inúmeras histórias e “estórias” do desporto e da vida aveirense é sempre de lamentar.
Mas a realidade tem um outro lado da moeda.
A continuidade, ou não, do pavilhão do Beira Mar já não é um processo novo. Há mais de 12 anos que já se falava da construção de um novo pavilhão: primeiro na antiga zona da Lota e posteriormente junto ao novo estádio. Toda a polémica envolvendo a anterior SAD e um grupo de ex-directores do clube acabou por ditar o fim do pavilhão.
Só que há, neste processo, um conjunto de interrogações que importa destacar.
Em Portugal há um princípio genético na sociedade de uma tendência questionável para o sentido de posse e de propriedade, muitas das vezes aliada a bairrismos discutíveis. O “ter” sobrepõe-se, maioritariamente, ao “haver”, “ser” e “comunitário”. Durante anos a fio, o país viveu alheado da sustentabilidade dos recursos, da partilha, da dimensionalidade. No caso concreto, Aveiro não foi capaz, por inúmeras e distintas razões, de criar estruturas únicas, comuns, que pudessem ser partilhadas por várias instituições e pelos aveirenses. Relacionando com esta questão do pavilhão do Alboi, teria sido muito mais eficaz e eficiente a construção de uma estrutura única que servisse escolas, comunidade e clubes, nomeadamente o Galitos e o Beira Mar. Nada complicado. Mas a verdade é que não foi feito.
Por outro lado, há ainda uma questão que o próprio clube deve meditar neste infeliz desfecho. Desde a questão do caso “penhora do pavilhão”, ano após ano (e a história não é assim tão recente) que se interroga a continuidade das modalidades naquele espaço. Toda a movimentação que agora surge em torno do pavilhão e do erguer de um novo, deveria ter tido outros desenvolvimentos e outros esforços ao longo deste período. Porque este final era, inquestionavelmente, conhecido e expectável.
Deixou-se cair, um pouco, no esquecimento e no arrastamento de uma solução sustentável para o Pavilhão do Alboi, tal como se arrasta o renascimento e a reestruturação do clube, devolvendo-o de novo aos bons momentos, ou, qui ça, a uma total reformulação da vida do clube que pode passar, sem qualquer tipo de constrangimentos, pela chamada “estaca zero”, como são tantos os exemplos no país (Feirense, Salgueiros, Boavista, etc., etc.)
Há uma certeza nesta infeliz realidade. O Sport Clube Beira Mar perdeu, nas duas últimas décadas, identidade, ligação à cidade e à Região e, principalmente, perdeu património: não tem um estádio próprio, não tem uma piscina, não tem um pavilhão, não tem uma sede e não tem sócios.
Não foi apenas um pavilhão que o Beira Mar perdeu… foi muito da sua alma e da sua história.
Espero que saiba e consiga, a bem de Aveiro e dos aveirenses, renascer destas cinzas.

